Alexandre Sequeira

© Alexandre Sequeira
“Algumas considerações sobre o retrato”
Gostaria de levantar mais alguns pontos de discussão sobre a impossibilidade do retrato fotográfico se ater essencialmente ao referente (no caso o retratado), sem que outras camadas relacionadas à imanência do autor se manifestem:
1ª questão: O jogo de identidades no ato fotográfico.
Ao analisar a relação da câmara fotográfica com o rosto humano, Baudrillard faz do retrato um ato de desfiguração e despojamento do caráter do modelo. Confrontada com a encenação que o indivíduo fotografado faz de si, a objetiva não consegue idealizá-lo ou transfigurá-lo como imagem[1]. Barthes, em seu texto A câmara clara, localiza no retrato fotográfico o ponto de encontro e de confronto entre quatro “personagens”: aquele que o retratado acredita ser; aquele que desejaria que os outros vissem nele; aquele que o fotógrafo acredita que ele seja; aquele de que o operador se serve para exibir sua arte.
2ª questão: A diluição do conceito de identidade.
Vivemos hoje a ditadura de padrões normalizadores de conduta. A luta da adaptação mimética como única forma de autopreservação – se é que resta ainda algum eu a ser preservado. A afirmação de relações provisórias onde se elaboram socialidades alternativas, momentos de convívio construído a partir de modelos críticos o suficiente para apartar, mesmo que provisoriamente, as inter-relações humanas que nele se efetuam das restrições ideológicas da comunicação de massa. Certamente em função de tal situação, Stuart Hall afirme ser mais apropriado refletirmos sobre tais questões nos dias de hoje, a partir da superação do entendimento de identidade, como algo definitivo, pela noção identificação, como um estado cambiante, em permanente processo de transformação[2].
* * *
Somente esses dois pontos já nos levam a uma constatação: o modelo se assemelha ao infinito de possibilidades de si mesmo, não importa se real ou mental. A fotografia, na impossibilidade de captura da essência do referente, é ao mesmo tempo documento e agente da profunda mudança que se opera na consciência da identidade do indivíduo contemporâneo.
Sua redenção pode estar na superação do entendimento do ato fotográfico por uma prática que busca estabelecer relações de interação e empatia entre fotógrafo e fotografado. Como um jogo de verdade. Como lembra Eder Chiodetto, o caminho mais profícuo pode estar na constituição de uma relação, registro repleto de porosidades que denota a dissolução de um ser no outro. Só assim o retrato, tema dos mais recorrentes na história da arte, se potencializa como um acesso à transcendência.
[1] In: FABRIS, Annateresa. Identidades Virtuais. Uma leitura do retrato fotográfico. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004. p 75.
[2] In: HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005, p. 39.

© Alexandre Sequeira
Que bom ver a pesquisa que ele faz, o trabalho que desenvolve, suas idéias na fotografia.
E que legal ter isso tudo no evento.
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