Francilins
Falar da fotografia feita em Minas Gerais é falar de novo. Os Mineiros estão em evidência nos últimos anos. No Olha, vê, já pintaram João Castilho, Pedro David, Eugênio Sávio e Leonardo Costa Braga.
Mas, este post em especial é para mostrar o ensaio Vi Elas do fotógrafo-antropólogo Francilins.
Este trabalho ficou em segundo lugar no Prêmio Fundação Conrad Wessel (FCW), categoria ensaio fotográfico. Agora, Francilins está no México apresentando “Vi Elas” no Simposios de Estudios Culturales: “Nos ven, nos vemos: lugares, cuerpos, imágenes en América Latina”, durante o 53º ICA.
As fotos foram realizadas em prédios que se tornaram um grande complexo de prostituição em Belo Horizonte, chamado de “Guaicurus”. Nas palavras do autor: “A “Guaicurus” é o maior complexo de prostituição do Brasil. São vinte edifícios localizados no bairro central da capital de Minas Gerais, um estado tipicamente católico e conservador. Ali trabalham mais de cinco mil prostitutas, que alugam quartos diretamente na administração desses “hotéis”. Cada uma delas atende aproximadamente vinte homens por turno de trabalho. São mulheres adultas das mais diferentes idades, cor de pele e tipos físicos que prestam os mais diferentes serviços sexuais, por cinco reais (preço mais recorrente).”


Fotos: Francilins
Aqui, transcrevo um texto de Francilins sobre o ensaio:
Vi elas
Num canto do bairro central de uma caótica pólis, localizada em um confuso e indeterminável país tropical a oeste do Atlântico e ao sul do Equador, pessoas se movimentam freneticamente. Alguns olham para dentro de si e para o chão a fim de que nenhum buraco lhes interrompa o trajeto, há aqueles que esperam transporte sob um ponto de ônibus, vagueiam sem destino, se entorpecem ou dormem pelo chão imundo. Existem também os que nos estendem a mão procurando um trocado, vender bugigangas, fazer uma tatuagem, ou ainda, aplicar um golpe e levar nosso dinheiro. Nessa região, que leva o nome dos índios guerreiros Guaicuru, estão instalados 20 aparelhos de teletransporte. Isto mesmo, aparelhos de abdução, com o mesmo poder daqueles dos filmes de ficção ou dos desenhos animados, que apesar de possuírem tecnologia arcaica, têm eficiência invejável. Certo dia, caminhava por aquelas bandas quando vi os dois homens que andavam à minha frente serem sugados por um desses aparelhos. Continuei. Alguns passos depois, outro aparelho cuspia dois e engolia mais de vinte. Como teleguiados, faziam fila enquanto os movimentos peristálticos do abdutor os distanciava de mim. Obviamente só descobri o real poder daqueles aparelhos depois de ser absorvido pela primeira vez.
Aconteceu assim: observava curioso o portal do teletransportador, a luz era turva e não conseguia ver claramente o que se passava lá dentro, de repente, o homem que passava ao meu lado foi sugado e o poder magnético me levou atrás. O coração acelerou e minhas pernas se moviam sem a minha concessão. Num instante, havia morrido num mundo e renascido noutro. Um passo, alguns passos e o primeiro choque, a luz daquela dimensão não chegava do mesmo sol, eram pequenas fontes multicores que jorravam cores quentes e vibrantes. O ar era denso, pegajoso. Cheiros fortes rasgaram minhas narinas. Os caminhos do outro mundo são labirínticos, um intrincado complexo de estreitos e movimentados corredores compõem a cartografia local. Como se fosse uma grande feira apocalíptica e popular. Tateando pelos corredores, começo a descobrir uma grande variedade de comida fast food que está à venda por ali. Lá do fundo uma feirante grita: “Chega mais freguês, na perereca é cinco e no cu é seis”. Comerciantes esperam à porta ou dentro de pequenos quartos, suas bancas na grande feira. Os clientes potenciais circulam à procura daquela que melhor possa saciar seus apetites, como em um grande “serve-serve”. Um comprador se aproxima e a vendedora derrete-se em seu ouvido: “Três posições e uma chupadinha por cinco reais”.
Essa outra Dimensão parece estar em guerra eterna. Quando olho para o alto, vejo a imagem de um santo guerreiro que mora muito longe, talvez na Lua. Apesar disso, ele está sempre por ali e quando os locais se vêem ameaçados invocam o protetor para que faça jorrar o sangue do inimigo, como fez com o Dragão. Seres de outras terras sempre são chamados para atuar na luta diária e um grande arsenal é montado para ajudar na negociação com os mercenários: os cigarros servem como pagamento pela ajuda de uma categoria especial de guerreiras, as pombas-gira, afinal, elas “ajudam a trazer mais clientes”, já as folhas de mamona mantém os inimigos afastados e os incensos atraem os amigos. Atordoado, reaproximo de um dos aparelhos que me ejeta de volta para o primeiro mundo.
Desde então, experiências como esta têm se repetido regularmente. Lá se vão seis anos e mais de uma centena de abduções. Não é mais possível saber se ainda sou eu ou se sou outro. A partir do contato com todos os seres que compõe essa outra Dimensão – vendedoras, clientes, curiosos, câmeras, películas, santos, soldados mercenários, pombas-gira, fungos, camas … – surge uma sui generis realidade: vi elas. Realidade que é atualizada com/por você, que lhe dá vida nova.



Fotos: Francilins
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q trabalho excelente, Belém… gostei muito. abs!
[...] caminho: Francilins e Bruno [...]
Que boa lembrança, Belém! O trabalho de Francilins é lindo e, particularmente, me emociona muito. Destaco também a série jaguar-ete, tão pictográfica, desconstrutora e sensível. Parabéns também por este blog do Paraty em Foco – tanta coisa boa de ver por aqui. umabraço
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