Entrevista | Rosângela Rennó
Sábado dia, 04 de julho de 2009.
Rosângela Rennó é artista visual e doutora em Artes pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Mineira, radicada no Rio de Janeiro, é hoje referência obrigatória quando o assunto é a imagem fotográfica e seus desdobramentos. Vencedora de vários prêmios internacionais, participou da 22º e 24º Bienal de São Paulo, da 45º e 50º Bienal de Veneza, da 2º Bienal de Berlim e teve mostras individuais em Amsterdam, Los Angeles e Rio de Janeiro, entre outras. Destaca-se entre suas produções “Arquivo Universal” (1992- 2003), “Cicatriz” e “Vulgo” (1996 – 2003), em que através da recontextualização de objetos textos e imagens, mobilizada pelo afeto e pelo olhar de colecionadora propicia ao espectador uma inversão única no código fotográfico em que, a partir da leitura dos textos e do repertório iconográfico do próprio espectador, é que a imagem é construída. Já na “A última foto” (2006) a artista convidou 43 fotógrafos profissionais para fotografarem o Cristo Redentor usando câmeras mecânicas de diversos formatos, das câmeras de chapa 9×12 cm, do início de Século XX, até as câmeras reflex, para filme 35 mm, da década de 1980, que ela colecionou ao longo dos últimos anos. As câmeras, usadas pela última vez, foram lacradas. Participou da entrevista, realizada em seu ateliê no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, a pesquisadora, jornalista e professora de fotografia da ECO-UFRJ, Teresa Bastos.
Rosângela Rennó no 5º Paraty em Foco.
Foto: Fernando Rabelo.
Rosângela Rennó e uma das câmeras do projeto “A última foto”.
1 – Sua matéria-prima são os arquivos e inventários e você opera como uma colecionadora de “restos”. Na sua opinião, que destino deveríamos dar aos arquivos? E como vê a “destruição controlada” deles? (Pensando domesticamente e institucionalmente, na materialidade deles).
Acho que a gente vive o momento de pensar o que hoje fazemos dos arquivo e o que é importante de ser arquivado. São questões que estão sendo elaboradas e pensadas no momento. Até hoje continuo trabalhando com arquivo de papel e filme. Esse momento de passagem do analógico para o digital traz várias questões. Uma delas é olhar para o acervo e pensar no que selecionar para guardar. O outro é o sentido da duplicação: por que digitalizar? Qual o sentido de fazer isso (arquivar) hoje? Há vários artistas que estão trabalhando com a idéia de arquivo; há uma certa pulsão pelo trabalho dentro dele, com ele e inclusive pela criação de novos arquivos. Há artistas que estão usando a estratégia arquivística para criar arquivos novos, pensados como criação, como prática artística.
2 – O que mudou em seu trabalho de criação artística com a mudança acelerada da fotografia analógica para digital?
Para mim não muda nada. Tecnicamente falando continua a mesma coisa. Eu sempre usei ambos sistemas no meu trabalho, sempre que necessário. Em 2006, com o trabalho “A última foto” a questão dessa mudança de sistema, de paradigma surgiu como tema, como pretexto, mas aí já tornou-se outra coisa, foi mais uma discussão de conceito do que técnica. Sempre vou incluindo coisas no meu processo. Adoto uma forma muito econômica de trabalhar e isso não mudou nada para mim. O que o sistema digital possibilita em termos de aumento da produção de imagem não faz diferença para mim porque estou mais preocupada em pensar na produção do que propriamente em realizá-las.
510117385 – 5 (2005)
Deise Lane, Zorki, projeto A Última Foto (2006)
3 – Há um grande crescimento dos blogs fotográficos nesse momento em que a internet se mostra um grande arquivo digital e permite a circulação e divulgação de imagens de toda natureza, como vê essa nova possibilidade de troca virtual na rede?
Acho que essa troca é uma conseqüência natural do que a rapidez do sistema digital possibilita. A digitalização permite a troca de arquivos e também sua circulação numa escala monumental. Na minha opinião, o futuro do arquivamento poderá ser a própria circulação do arquivo. Um dia todas as imagens vão ficar circulando e todo mundo vai guardar tudo. 50 mil pessoas vão acessar e poder deter as imagens porque elas vão estar circulando. Os blogs são hoje o lugar onde se concentram informação e imagem. Talvez esteja aí a origem do novo modelo de arquivo.
4– O que tem feito atualmente, qual seu trabalho mais recente e que inquietações estão presentes na sua obra nesse momento?
Minhas recentes inquietações estão no território das narrativas, dos relatos e isso tem me levado a trabalhar mais com o vídeo, sem abrir mão da fotografia. O vídeo parece uma febre que pegou em todo mundo e comigo não foi diferente. Todo mundo hoje quer fabricar depoimento. As pessoas querem contar histórias, falar de si próprias e compartilhar isso com os outros, pelas mais diversas razões. Com o suporte da internet isso é possível: blogs, Youtubes, yousendits, etc. As câmeras 24 horas online via internet, quando surgiram, causaram grande curiosidade. Você pode questionar se é relevante ou não acessar tanta informação, mas a possibilidade é que é genial. A possibilidade de acesso e troca, isso é muito bacana. O que pretendo fazer com minhas narrativas, objetivamente, como trabalho, prefiro ainda não falar pois tudo está em fase preliminar, de projeto, de construção.
5- Quais são suas expectativas sobre o Paraty em Foco?
Estou super empolgada com esse encontro em Paraty, pois estou muito impressionada com uma certa mudança do “foco” das discussões sobre as imagens técnicas, principalmente da fotografia. Não se discute mais, tanto, as questões técnicas, do meio fotográfico. Hoje a discussão está muito mais voltada para o conceito e isso me interessa pois estou curiosa pra ver onde tudo isso vai dar. A experiência do último seminário do qual participei aqui no Rio (Ela se refere ao “Seminário Fotografia e pensamento artístico contemporâneo: convergências, interrupções, deslocamentos”, realizado no último mês de abril na Caixa Cultural, no Rio) foi impressionante. Todos estão querendo entender o que está acontecendo, trocar idéias sobre o que significa fotografar hoje. Já se tem uma alavanca aí pra uma discussão mais profunda do que os tipos e as capacidades dos equipamentos fotográficos.
Rogério Reis, Yashica, projeto A Última Foto (2006)
Bibliotheca (2002)
Veja mais posts de Fernando Rabelo
EXCELENTE!
Fernando, parabéns pela bela entrevista; Rosângela, parabéns por seu trabalho que sempre nos leva a uma reflexão mais aprofundada.
Deu vontade de destacar essas frases:
"Na minha opinião, o futuro do arquivamento poderá ser a própria circulação do arquivo. "
"pois estou muito impressionada com uma certa mudança do “foco” das discussões sobre as imagens técnicas, principalmente da fotografia. Não se discute mais, tanto, as questões técnicas, do meio fotográfico. Hoje a discussão está muito mais voltada para o conceito e isso me interessa pois estou curiosa pra ver onde tudo isso vai dar."
Que bom Rennó aqui no Blog e no evento!
Boa entrevista Fernando Rabelo. Salve a natureza e a fotografia analógica tbm.
Bela entrevista! Acho que o Paraty em Foco vai contribuir para todos nós sabermos "onde tudo isso vai dar".
“Na minha opinião, o futuro do arquivamento poderá ser a própria circulação do arquivo. "
Me preocupa o fato que os arquivos que circulam na rede, estão em baixa resolução. Os arquivos produzidos para jornais e revista também são em JPG médio (pelo menos aquí em Recife). Será que no futuro só teremos a memória fotográfica em imagens de pequena resolução???? Eu estou trabalhando uma pesquisa sobre coleções e arquivos digitais, e vejo que esta preocupação quase não existe entre os fotógrafos na era digital. Acho muito legal que a estética esteja a cima de tudo, mas o que preservar e como preservar é também muito importante !
[...] disse Rosangela Rennó por aqui: “pois estou muito impressionada com uma certa mudança do “foco” das discussões sobre as [...]
Preservar a memória fotográfica de um país é uma dascoisas importantes a se fazer no Brasil.
Não vejo essa consciencia nos homens públicos e nem nos artistas fotográficos brasileiros. Qualquer tentativa mais séria de preservação está ficando por conta de poucas entidades como , por exemplo, o Instituto Moreira Salles.
E cada vez mais o mundo é digital. Quem nos garante que , com o tempo, o que se fotografou, gravou , copiou, etc não desapareça como num toque de mágica. Puff, desapareceram as imagens de tal acontecimento histórico, cultural, social….
Ver e ouvir a Rosângela Rennó foi, com certeza, mais um das experiências enriquecedoras desse Paraty em Foco. O pensar fotográfico vai muito além do mero suporte. Hoje em dia qualquer ser bípede dotado de polegar opositor fotografa. O grande diferencial é o conceito que se quer representar. Chegar até ele requer muita dedicação, estudos e pesquisas empíricas.
Sugiro que nos próximos festivais de fotografia sejam oferecidas bolsas de pesquisa aos fotógrafos-pesquisadores. Esse nosso país é muito carente desse tipo de iniciativa. Fica, por ora, a sugestão.
Ótima entrevista, lindos os pensamentos de Rosângela.
Este é o ponto X
“Todos estão querendo entender o que está acontecendo, trocar idéias sobre o que significa fotografar hoje”.
Este é o ponto Y
“Na minha opinião, o futuro do arquivamento poderá ser a própria circulação do arquivo. Um dia todas as imagens vão ficar circulando e todo mundo vai guardar tudo”.
Ou perder tudo!
[...] Entrevista com a autora no blog do Paraty em Foco. Tags: A Câmara Clara, aparência de retícula de impressão, Corpo da Alma, Galeria Vermelho, [...]
Adorei sua palestra.
Vc imortalizou as tais maquinas fotograficas q estavam largadas em brechos ou feirinhas!!!!!!!!!!!
Sua ideia foi brilhante!!!!!!!!!!!!!
Parabens.!!!!!!!!!!!
Vera Kehdi
Gostaria muito em ter a oportunidade em ver uma palastra sua. Acompanho seu trabalho e sua proposta em refletir antes de agir é fundamental. abraços
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