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A foto ideal!, por Juan Esteves

[ Alexandre Belém | 29 ago 2009 | 5 Comments | 1.877 visitas ]

Foto: Juan Esteves | Otto Stupakoff, 2009

A foto ideal!

Por Juan Esteves

Melhor do que ver a “foto ideal” de um grande fotógrafo como o paulista Otto Stupakoff (1935-2009) é ver todo seu processo de criação através de uma folha de contato, de uma sequência de imagens, fotogramas anteriores e posteriores até chegar naquela imagem perfeitamente eleita. Mas será que ela seria mesmo tão perfeita? A revisão de um rolo de filme, de um contato abandonado, pode trazer surpresas quando olhado novamente anos ou décadas depois. Também, um outro olhar diferente do envolvimento mais pessoal do autor pode revigorar aquele frescor que ficou latente.

No livro “Sequências Otto Stupakoff” publicado pelo IMS Instituto Moreira Salles com imagens que agora fazem parte do seu vasto acervo, a oportunidade de conhecer o raciocínio ou o “modus operandi” de um grande artista é uma das poucas oportunidades que os livros de fotografia no Brasil trazem. No exterior, muitas das edições, como Diane Arbus, Revelations, (Randon House, 2003) ou Richard Avedon An Autobiography (Randon House, 1993), apenas para ficar com duas enorme publicações, são um exemplo, entre dezenas.

De formato não tão ostensivo como os previamente citados, as mais de 200 imagens de Stupakoff são uma verdadeira lição de como fotografar. O formato é médio e em paperback, mas de alta qualidade, facilita a consulta e o manuseio, bem como a distribuição em capítulos como Moda, Viagens, Crianças, Nus e Mulheres além da variações. Um apanhado significativo do que Otto Stupakoff produziu.

Melhor ainda são os três textos escritos pelo mesmo, originalmente em inglês, cujo caráter memorialístico só acrescenta prazer a leitura. Stupakoff era o que se pode chamar de “renascentista” um sujeito cuja ampla cultura só acrescentava subsídios a sua obra fotográfica (para desespero das pobres produtoras de moda das revistas brasileiras).

Uma viagem pelo rio Amazonas na década de 1970 tem o título de “Ci”, embora algumas fontes datem a viagem entre 1976 e 1978. “Kolkata” relata o encontro de Stupakoff com duas garotas indianas em Calcutá. O fotógrafo esteve na India em 1969 e há uma imagem creditada por ele “duas garotas”. “Mulher de Praga” narra parte da sua terceira viagem à capital da República Tcheca, que ocorreu em 1993.

É interessante notar como as narrativas se compõem com suas imagens, mesmo aquelas não diretamente relacionadas . É claro, o trajeto entre o pensador e o fotógrafo é evidenciado finalmente. Talvez para por um ponto final naquelas análises nem tão substanciais da crítica que acabavam por não identificar um episódio cultural de seu aspecto fashion. Aliás um engano até hoje cometido, cuja culpa sempre é de certos pensadores recorrentes, (Barthes dizia isso… Flusser dizia aquilo..) como a justificar as idiossincrasias de quem as escreve.

Em várias sequências editadas, o descarte de Stupakoff é posto em confronto com suas imagens selecionadas. O livro não é categórico na escolha, muito menos a reinvindica, isso fica a cargo do leitor e de sua consciência, ou melhor, de seu vocabulário. A idéia é mesmo suscitar esta saudável digressão de uma escolha mais pessoal. Por certo, muitas pessoas terão suas opções e outras, sabiamente ou não , concordarão com a história feita.

Em 1995 Josef Koudelka declarou aqui mesmo em São Paulo, no MASP, que estava revendo há mais de um ano seus negativos antigos. Para quem não fotografa, soou muito estranho. Aliás até mesmo quem fotografa, mas vive do imediatismo, também deve ter achado estranho. No entanto, Koudelka explicou aos felizardos ouvintes o seu objetivo, que é muito simples.

Com o passar dos anos, mudamos de opinião, talvez, melhoramos nossas imagens – e simplesmente – mudamos nosso ponto de vista. Simples não? Pois é, certos fotógrafos não vivem de complicar a compreensão de suas imagens, bem como não necessitam de tradutores literatos. Otto Stupakoff , assim como Kouldelka, também era assim, e por certo adoraria discutir sobre os fotogramas de antes e aqueles que foram feitos depois daquela perfeita imagem eleita!

::: Exposição com imagens adicionais àquelas do livro na sede do IMS em São Paulo, até 22 de novembro de 2009. Rua Piaui, 844, Higienópolis, São Paulo. Dias e horários, no www.ims.com.br ou pelo telefone 11- 3825 2560

Fotos: Otto Stupakoff

Tom Jobim, 1964

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5 Comments »

  • Evelyn said:

    Parabéns pelos retratos, Juan !!!
    Amei a montagem da exposição e o livro com uma edição de imagens primorosa!
    As fotos todas são uma delícia de se olhar …
    Bjs
    Evelyn

  • queiroga said:

    Olá, Juan,

    A escolha, o recorte, é parte da natureza fotográfica. Antes, durante e depois do clique, não é mesmo? Para onde olhar (ou apontar a câmera), o que apreender deste olhar e, depois, o que ampliar-tratar-publicar. Poder voltar a negativos antigos é possibilidade muito rica, mas em geral não levada adiante nesta roda viva de produzir mais e mais fotogramas/arquivos.

    Lembro de um fotógrafo, que está no mercado de arte e por isso tem tiragens limitadas, comentando que cada vez que vende uma nova cópia de uma de suas imagens, faz um tratamento novo, algumas vezes com mudanças razoáveis. Muda o contraste, escurece, mexe na saturação, de acordo com o momento. A cabeça vai mudando, o olho também, determinadas decisões anteriores agora parecem bregas ou simplesmente feias. É quando a volta ao mesmo negativo produz cópias diferentes. E se pode encontrar novas fotografias em fotogramas antigos.

  • juan esteves said:

    Sem dúvida Queiroga. O recorte existe a partir do olhar, quando pretendemos fazer aquela imagem, quando ela ainda está na nossa cabeça… e cada fotograma é um espaço de tempo que ficou para trás…A possibilidade de rever os arquivos é algo extraordinário mesmo, rico, como vc bem coloca. Fernando Pessoa já dizia que uma flor nunca é a mesma ao sol e na sombra, apesar de ser a mesma flor…
    Uma das questões que me incomodou muito na transição do negativo , isso lá por volta de 1989 quando começamos a adotar o digital , foi a capacidade da gente manter o mesmo procedimento, ou seja de não descartar completamente aquelas imagens não editadas… Quando efetivamente a geração da imagem digital entrou, algum tempo depois, a coisa ficou ainda pior… Começamos a produzir muito mais e o descarte aumentou. Muitas vezes parte das imagens produzidas mal chegavam a redação, eram descartadas ainda no cartão, e prá falar a verdade, duvido muito que a maioria dos fotógrafos grave todo o seu cartão como arquivo para depois olhar… Conheço pouquíssimos, como o mestre Clicio, que além disso, grava em outras mídias tudo o que produz…
    Quando deixei o jornalismo diário, levei comigo caixas e mais caixas de negativos, que passados mais de 15 anos ainda revejo… e, de vez em quando (para minha felicidade), consigo pinçar algo. Agora, faço o mesmo no digital, vou guardando…(com um certo medo de baixar um disco voador por aqui e apagar tudo…) mas vou guardando e como seu amigo fine art…de vez enquando retrabalhando certas imagens… Mas confesso que ver o HD perdendo o espaço é aflitivo… Mas fazer o que? temos que caminhar não? abraços!

  • juan esteves said:

    Evelyn, obrigado!
    A montagem e livro realmente estão muito bons! É uma oportunidade mesmo rara de poder ver algumas décadas da produção de um fotógrafo genial. Fiquei muito feliz ( e muito emocionado) de participar de ambos com alguns de seus últimos retratos!
    abraços!

  • Glauco said:

    Via exposição e só achei que as ampliações maiores, devido ao papel fosco em que foram feitas, destoam do conjunto.
    Como perdem em vida para as de papel brilhante!!!
    Imagino o porque de serem assim, mas não vou entrar no mérito da escolha.
    De resto, "Mulher pássaro" é uma foto surreal e disparada minha favorita.

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