Egos de Titãs, por Juan Esteves

Foto: Juan Esteves
Ralph Gibson pelas ruas de Paraty em 2008
Egos de Titãs
por Juan Esteves
Depois de Ralph Gibson dando um “show” – no sentido mais amplo e irrestrito que esta palavra possa ter – em Paraty no ano passado, outro fotógrafo subiu aos palcos, desta vez em São Paulo, não para dar uma palestra, mas sim para tocar ou cantar. O que exatamente? Algo parecido com rock, dizem! Foi o que o texano Mark Selinger (acompanhado da sua banda Rusty Truck) tocou nos dias 12 e 13 no Na Mata Café.
O vínculo do lugar com a fotografia é grande! Cliff Li, o proprietário é colecionador de fotografia dos maiores, além de fotógrafo (e piloto) diletante, que exibiu memoráveis mostras em sua pioneira galeria no Restaurante Tomato, a Photo Gallery. Trabalhos como de Klaus Mitteldorf, Penna Prearo, Ike Levy, Ernesto Baldan e Romulo Fialdini entre outros, foram expostos lá . Recentemente, na parte de cima do Na Mata Café , abrigou, por pouco tempo infelizmente, a Leica Gallery, com outra memorável mostra (com a devida presença do autor) Eliott Erwitt. Lá também fez uma bela mostra do mestre Orlando Azevedo.
Mas de volta a bela Paraty, e a lembrança inevitavel do ano passado me vem a cabeça. Gibson ajusta sua parafernália eletrônica, pedais, fios, ligados a sua guitarra estilosa… aquela que só tem um arco tubular…
Mais uma vez, voltemos mais um pouco atrás… nos primeiros dias do Paraty, quando ele circula com a esposa e a afilhada (filha de Larry Clark do filme Kids, e do livro porrada Tulsa). Um mau humor presente, sorrisos amarelos, uma frágil tentativa de ser simpático aos “fãs” e se envolvendo somente com seus conterrâneos ou com o boss do festival. É duro ser uma celebridade… ( H C-B já dizia isso… “O ruim de ser uma celebridade é que não só o zelador , mas a polícia sabem onde você mora ” Sábio filósofo.
Corta! de volta ao palco: Ele nervoso… penso eu, provavelmente porque nunca tocou para uma platéia tão grande, (Será mesmo?? bom, não posso afirmar..) briga com toda a equipe de produção…não deixa ninguém tocar nos instrumentos… :” Don’t !! Don’t touch please! Be carefull!! The wires!!! Don’t!! Fuck! ” A coisa parece não querer funcionar… técnicos entram e saem com fios na mão… A lei de Murphy prestes a acontecer… Até mesmo a natureza não colabora, e a chuva intensa corta a energia momentâneamente… mais tensão no palco!! A lei de Murphy…
Vai ao púlpito (palavra estranha púlpito) projeta algumas imagens suas, com comentários básicos, descritivos, óbvios, frios, realmente inúteis , numa pressa de largar aquilo e fazer seu show… A platéia ainda não sabe o que esperar… Não foram avisados exatamente o que seria… Corria por fora o ti ti ti do “show” Ralph Gibson vai fazer uma performance… Afinal, nos dias que antecederam a mesma, ele circulou com guitarra na mão…tocou em seu quarto do hotel…andava feito um pop star…
Show Time!!!! É chegado o momento do show: Uma projeção de um filme PB sobre Berlim noturna….e começa a música, como diria o baiano Caetano: por entre acordes dissonantes…senhoras e senhores… E assim foi, dissonante… Stop! Para tudo! Gibson começa a fazer Tai Chi no palco! coloca a guitarra nas costas e em movimentos orientais emprega uma performance silenciosa! De repente! Now!! Agora! Começa a gritar coisas incompreensíveis até mesmo para um alemão! (na tela ainda está passando o filme sobre Berlim noturna…) vagamente lembramos um oficial da Gestapo….
The End… Platéia aplaude… meio esquisita, não sabem o que se passou, não sabemos também o que se passou, e provavelmente nem ele sabe o que se passou…
Depois fiquei sabendo que o seu mau humor deveu-se a um peixe mal comido….
Sou fã do Gibson, já escrevi seu perfil, adoro seus textos também. Mas, com todo respeito ao mestre, ou ao mágico, como diria o Marcio Scavone, ainda não digeri a performance… e nem sei se um dia vou… Mas isto ficará entre as “Histórias de Paraty” Quem viu , viu! Quem viver verá!
O interessante é notar como as pessoas reagem ao estrelismo, e como ultrapassam os limites de sua arte verdadeira para outras que não dominam, simplesmente para satisfazerem seus egos. Vivemos num mundo em que ser uma celebridade é realmente incômodo como dizia o mestre francês. Contudo, o conceito celebridade hoje é vago demais. Qualquer um depois do Big B vira uma celebridade. Pode ser um cretino qualquer e no dia seguinte está nas capas de revistas! Nos programas de TV.
Outro dia abri um revista e lá estava a cobertura monumental da festa de Diego Hipólito! Sim, ele mesmo, o nosso pequenino herói olímpico, em sua festa de aniversário ! recebendo advinhem quem? Celebridades! Muitas delas, de BB a grandes atores da grande global! Não é ótiimo? Transformamos tudo em celebridade! Foi-se o tempo em que um Avedon podia se dignar a enfrentar uma Sharon Stone e esculachar com ela nas imagens da The New Yorker porque ela chegou atrasada para as fotos! Foi-se o tempo! Fotógrafos hoje são celebridades! Os internacionais então…nem se fala! e se for músico então? Logo, não se pode esculachar com seu pares!
Para vir ao Brasil, Mark Selinger fez uma exigência a produção da feira (ups, não é mais feira, né? É Photo isso, Photo aquilo… o pessoal ligado a fotografia não fala mais portugês, só fala inglês… que evolução!) que o trouxe! Calma, não foram toalhas brancas para distribuir para os fãs, como o Elvis fazia. Nem dúzias de Perrier ou Champagne cara como Mick Jagger pediu! Foram livros seus! Imaginem só! Livros! 300 livros! divididos em dois títulos. Não queria que faltassem para seus fãs, que imagino devem ter formado fila nos corredores destes pavilhões de exposições, Ups! novamente, é Photo isso, Photo aquilo…sei lá qual…é mesmo?
“Meus fãs no Brasil não podem ficar sem livros meus!” Declarou o fotógrafo! Posso imaginar a fila para comprá-los! deve ter sido imensa! Como não fui nem a feira, nem ao show, não posso dizer se o sujeito é um bom ou mau músico, seria leviano da minha parte. Com o Gibson eu estava lá, na primeira fila! Selinger fotógrafo? Já houve um tempo em que eu acreditava nele. Também houve um tempo que eu lia Rolling Stones! Mas, infelizmente hoje não acredito mais nem na revista, nem nele! Como eu disse, acho que já passou o tempo em que celebridades faziam efeito, hoje qualquer um é célebre, felizmente!
Fica aqui o apelo: Quem esteve na fila, por gentileza, deixe seu comentário no nosso Blog, que, por enquanto só traz fotografia!
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Caro Juan,
Eu que te conheci quando tinha apenas 14 anos, pois vc me fotografou para a Capa da Folha Informática (Lembra?!), esta me surpreendendo cada dia mais com seus textos. Primeiramente o "Boss", ou melhor, “EX-Boss” do evento tem nome (caso você queira se referir a minha pessoa), depois, a LEICA GALLERY a qual vc sempre se refere com saudosismo foi uma iniciativa MINHA (Representante da marca desde 2000) em PARCERIA com o AMIGO, cliente e INCENTIVADOR da fotografia brasileira (desde 1993) Cliff Li, e o Elliott Erwitt so’ veio ao Brasil porque NÓS demos “CONDIÇÕES” a ele.
Por favor pare com esta falta de ética de não dar os devidos créditos aos que os merecem e de falar de coisas que você não VIU… A propósito, vc sabe quantos livros o Mark Seliger vendeu na PHOTO IMAGE BRAZIL?! Mais do que muitos fotógrafos brasileiros vendem em 1 ano nas LIVRARIAS DO RAMO.
Ao invés de DIVIDIRMOS, DESAGREGARMOS, DIMINUIRMOS, INVEJARMOS, vamos mudar o discurso para JUNTARMOS, APRENDERMOS, CRESCERMOS, ALCANÇARMOS e por fim CELEBRARMOS aquilo que todos nós gostamos, a PURA e SIMPLES ARTE da FOTOGRAFIA.
PS: Ao leitores do Blog minhas sinceras desculpas pelo desabafo.
Não entendi bem o post… Queria entender melhor a crítica ao fato do cara ter trazido livros dele pra um evento… Não é legal trazer livros?
Não tem do que se desculpar pelo seu desabafo meu prezado LUIZ MARINHO. É mais do que justificado, e creio, todo mundo certamente o entenderá. Fique tranquilo, por certo você terá seu merecido reconhecimento na história da nossa fotografia. Aliás, pessoalmente, não tenho dúvidas que você já o tem!
Só posso lhe agradecer por ter lido o texto e respondido o meu apelo no final deste. Mais ainda, nos brindar com tão importantes dados que trazem tantos esclarecimentos sobre o mercado fotográfico e editorial brasileiro.
Com certeza, os leitores que passarem por aqui estarão mais informados a partir de agora que os devidos créditos foram feitos.
Pessoalmente, só tenho que lhe agradecer por me trazer a memória meu começo como fotojornalista. Neste momento, em que muitos propõem ou discutem o fim do fotojornalismo, tal lembrança, só me traz conforto!
Um grande abraço e obrigado pela gentileza de sempre!
Pois não, Rodrigo, lhe explico, com prazer: Trazer livros foi legal no duplo sentido. Os 300 foram importados legalmente e pagos em adiantado. Noutro, é uma maneira de aumentar o vocabulário dos interessados. Digo, daqueles que abrem mesmo os livros, olham, lêem, discutem o conteúdo com alguém e não somente ficam pedindo autógrafos ao autor, babando o ovo, grudados como sombra neles, onde quer que ele vá!
Esta discussão de conteúdo sim, é muito legal! E, absolutamente saudável e necessária.
Também, para ser mais claro, não houve exatamente uma crítica. Minha crônica, que imaginei ser mais bem humorada, tratou de uma particularidade pertinente aos dois por pura coincidência. Em como determinadas pessoas reagem ao seu status de celebridade e lidam com suas exigências. Não tratou da obra fotográfica deles, que são muito importantes, e sim em torno de um comportamento específico, e muito curioso, porque extrapolam seus metiers habituais.
Quanto a gostar de um ou de outro, dos dois ou de nenhum deles, cada um tem seu gosto e como diz o ditado, gosto não se discute, lamenta-se. Assim como também acredito que dogmas foram feitos para ignorantes e não para gente sadia. Abraços e obrigado pela leitura!
Querido Juan,
Muito obrigado pela sua sempre presente gentileza mas queria te dizer que eu não VIVO de "reconhecimento na historia da fotografia" e sim de VENDER cameras e organizar pequenos eventos relacionados a esta arte. No mais meu caro o SHOW do Mark no NAMATA foi ótimo, o SEU JORGE que tbm participou ARRASOU e quem viu, viu, quem não viu perdeu uma grande oportunidade de se divertir.
Aproveito tbm para colaborar com a sua futura crônica "EGO de Titãs 2, o Retorno" e dizer que o amigo do Ralph, o Andy Summers (The Police e fotografo tbm), que dentro em breve estará aportando pelas terras Paulistas com EXPO e SHOW (Musica!) ao invés de pedir 300 livros, gentilmente pediu UMA Semana na Suite DUPLEX do hotel Fasano… Algo como uns 3.000 livros, hehehe. Abs e passar bem.
Sou um jovem fotógrafo, que entre textos e fotos espalhados pela mente, carrega a esperança de um dia tornar-se um bom e justo documentarista. Admiro a coragem de Juan Esteves em trazer à tona tais questionamentos e pontos de vista. Não se prenda a valores de mercado Juan. Sua função não é outra, senão cultivar o gosto pela crítica e questionamento funcional da fotografia. Desculpem-me os homens de negócio, mas estes são tão volúveis funcionalmente quanto os valores do nosso tempo. A história não perpetua números contábeis, e sim nomes e feitos. E quanto ao conteúdo do post, acho mais que oportuno. A celebrização de carreiras já estrapolou os limites que encerram as mesmas, e isso já é algo perceptível a muio tempo. Essa discurção, realmente, deve ser muito odienta para agentes ineressados em lucro fiduciário, pois vai de encontro e choque às regras de mercado. Não geram dividendos.
Juan, parabéns pelo post!
Caro Juan;
Como você, tenho bastante tempo de estrada, e algumas expressões em seu texto me deixaram bem curioso:
1-) Autor de livros tem fãs? Imaginei que tivessem leitores e críticos.
2-) Fotógrafo tem fãs? Achei que tivessem admiradores e seguidores.
Mas como disse, no meu tempo as coisas tinham outro nome…
By the way, gostaria de te ver tocando guitarra e fazendo uma grande performance em público. Poderíamos fazer um dueto, quem sabe não nos tornariamos celebrities e assim, conseguiriamos algumas fãs jeitosinhas?
Querido Clício.
seria um enorme vexame!
Vc sempre me faz pensar mais! Fui ver o que signifca mesmo a palavra fã no Houaiss : indivíduo que tem e/ou manifesta grande admiração por pessoa pública (artista, político, desportista etc.) também : pessoa que tem grande afeição ou demonstra grande interesse por (alguém ou algo), e na sua etimologia, e isso realmente foi curiosissimo, deriva de fanático!
1- Sim, acho que autor de livros tem fãs sim, tanto aqueles que escrevem quanto os que produzem imagens. Vejo que há os fãs que simplesmente idolatram e há aqueles que questionam. Há os que são indiferentes e há aqueles críticos, mas…fãs, ou admiradores, ou leitores…
2- fotógrafo tem muitos fãs. Como eu escrevi acima, sou fã do Gibson! Sou Fã do Eliott e até mesmo sou seu fã! que ao longo desta longa estrada que seguimos, muitas vezes juntos, me orientou e me esclareceu muitas dúvidas, e porque não dizer, me deu muito prazer pelas suas belas imagens! Logo, sou seu fã, ou se preferir, admirador!
Sim, meu caro, as coisas tinham outros nomes! Mas, o bom disso tudo é que as coisas com o tempo também mudam… Nó mudamos com o tempo! Houve um tempo que eu só gostava de filme, hoje penso um pouco diferente, e assim vamos! Não me lembro quem disse, mas acho essa frase ótima." É preciso mudar para que as coisas continuem as mesmas"
By the way….Acho que vou ficar te devendo essa performance!
Caro Brito Jr!
Obrigado pelo seu comentário. Bom ver jovens fotógrafos com a sua lucidez. abs!
Caro Marinho, obrigado por mais uma dica!
Juan, ótimo texto, como sempre. Os não-titãs que macaqueiam Gibsons e Seligers da vida pulam que nem doidos ao ler uma coisa tão lúcida e bem colocada.
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