Elogio da Proximidade
Robert Capa é sempre lembrado por suas fotos do desembarque na Normandia, da guerra em geral, por sua vida aventureira e o paradoxo de sua morte. Sempre recomendou a proximidade do fotógrafo com o alvo de sua câmera e acabou morrendo em 1954, ao pisar numa mina na Indochina, pouco depois do fim da guerra.

Foto: Gerda Taro, 1937
CLOSE ENOUGH “If your pictures aren’t good enough, you’re not close enough”, dizia Capa aos seus amigos fotógrafos. A questão da proximidade continua muito atual em fotografia. E na vida.
É comum a sedução do principiante pelas lentes de longo alcance, as teleobjetivas. Sem chegar fisicamente perto, você isola uma parte do objeto e consegue um aparente proximidade.
A técnica pode ser boa para fotos de longínqua paisagem, animais selvagens ou para o retrato de estúdio. Nada se compara, entretanto, ao mergulho dentro da cena, com a normal ou grande angular.
Um obstáculo à proximidade é a natural timidez do fotógrafo para se aproximar de pessoas e estabelecer o primeiro contato, muitas vezes com um simples gesto. As grandes câmeras e lentes são sempre um estorvo, reduzem a mobilidade e assustam o fotografado.
LEICA Os clássicos usuários da discreta Leica, como Cartier-Bresson e Elliott Erwitt, desenvolveram um estilo de aproximação não agressiva, mas discreta e surpreendente, que define todo um estilo. Ainda pode ser usado com muito bons resultados.
Capa se definia como um jogador. Viveu muitos momentos de extrema pobreza. Seu irmão Cornell escreveu, em 1999, que “Durante sua curta vida na terra ele viveu muito e amou muito. Nasceu sem dinheiro e morreu da mesma maneira.”
Grande sedutor, Capa encantava as mulheres com seu perfil húngaro. Após o fim da guerra, em 1945, conheceu Ingrid Bergman. A maior das estrelas acabou se apaixonando por ele e queria deixar seu marido, mas Capa não estava preparado para o casamento. Em 1952, Capa também não agüentava mais ser o presidente da Magnum. Seu retorno ao campo, com sua cãmera, não duraria muito. A última foto é de 1954.
BORO REPÓRTER FOTOGRÁFICO Alem de suas aventuras, às vezes envoltas em fantasias criadas por ele mesmo, Robert Capa inspira um fantástico personagem de ficção, Boro, o repórter fotográfico.
Também nascido em Budapeste, romântico e sedutor, Blemia Borowicz faz todo o percurso da segunda guerra com sua Leica e suas aventuras. Criação de Dan Franck, especialista em romances históricos, e Jean Vautrin, premiado cineasta, vive, por exemplo, a guerra na Alemanha (La Dame de Berlin), Japão (Le temps des Cerises), Espanha (Les Noces de Guernica).
É uma pena que esses romances, leves, gostosos e inconseqüentes, com inspiração histórica e fotográfica, não tenham sido traduzidos para o português. Quem sabe alguma de nossas editoras acate essa sugestão.
OLIVIA CHEGA PERTO Olívia Byington, com certeza, não se deixou seduzir por Robert Capa. Aliás, embora a biografia das cantoras não divulgue a data de nascimento, provavelmente quando Olivia nasceu Capa já era história.
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Olivia, entretanto, à sua delicada maneira, também faz o elogio da proximidade. Seu último CD chama-se “Perto”. Seu show, atualmente no Teatro Eva Hertz, da Livraria Cultura, em São Paulo, tem o mesmo nome. E o DVD com o show chama-se “A vida é perto”.
Olivia, sozinha no palco com seu violão, nos explica a necessidade dessa proximidade com o público, dessa intimidade contagiante.
A melhor cantora de sua geração, segundo Sérgio Cabral, fala da vida, da carreira, dos filhos, e realmente chega perto de nós.
Uma bela inspiração, num mundo em que ídolos artificiais cantam abafados por milhões de quilowatts, em estádios lotados por milhares de espectadores devidamente isolados por enormes barreiras de segurança. Ou em casas de espetáculo onde o público pagante (e muito bem pagante) é tratado como gado e às vezes nem enxerga e mal ouve o artista.
É verdade que estamos aqui nos comunicando nesse grande mundo virtual, às vezes sem sequer nos conhecermos pessoalmente. Bem ou mal, é uma nova forma de proximidade, que supera as barreiras de espaço e tempo e abre canais para o cultivo da nossa afinidade fotográfica.
JUNTOS EM PARATY O encontro de setembro, o Paraty em Foco, é diferente. Paraty é o lugar ideal para a proximidade, com seu ambiente colonial, sua vista para o mar e sua cachaça. Lá, com certeza, estaremos todos juntos. E muito perto.
Leituras:
Robert Capa – A biography, Richard Whelan, Alfred A Knopf, New York, 1985
Blood and Champagne – The life and times of Robert Capa, Alex Kershaw, St Martins Press, New York, 2003
Slightly Out of Focus, Robert Capa, The Modern Library, New York, 2001
Les Aventures de Boro reporter photographe, Frank & Vautrin, Fayard & Ballan, Paris (La Dame de Berlin, Le Temps des Cerises, Les Noces de Guernica, Mademoiselle Chat e Boro s’en va-t-en Guerre).
Veja mais posts de Eduardo Muylaert









Oi Edu,
que legal! Pensamos que essa proximidade também pode ser entendida como ficar mais próximos da fotografia. Não só do assunto mais da prórpria fotografia. Como Antonino, personagem de Italo Calvino no conto "A Aventura do Fotógrafo".
Antonino, depois de uma relação bem intensa com a fotografia e com a musa Bice, que o abandona, passa a fotografar a ausência da amada. Um dia, em torno dessa ausência, começou a rasgar todas a fotos que tinha dela em um albúm: "Dobrou as pontas dos jornais num enorme embrulho para jogá-lo no lixo, mas primeiro quis fotografá-lo. Acendeu um refletor; queria que em sua foto se pudessem reconhecer as imagens meio emboladas e despedaçadas e ao mesmo tempo se sentisse sua irrealidade de sombras casuais de tinta, e ao mesmo tempo ainda sua concretude de objetos carregados de significado, a força com que se agarravam à atenção que tentava expulsá-las. Para conseguir colocar tudo isso numa fotografia era preciso conquistar uma habilidade técnica extraordinária, mas só então Antonino poderia parar de fotografar. Esgotadas todas as possibilidades, no momento em que o círculo se fechava sobre si mesmo, Antonino entendeu que fotografar fotografias era o único caminho que lhe restava, aliás, o único caminho que ele havia procurado até então."
Chegar perto ao ponto do assunto ser a própria fotografia!
Abs
Edu,
Não queria sair do tema, mas estou incomodado com a pouca discussão que vi sobre a foto mais famosa de Capa, que está sob forte suspeita de fraude. Parece que ele não chegou tão perto assim, ou ao menos no ver jornalístico. O Capa é ótimo, aquela foto idem. Só não é verídica. Mas como alguém já falou, em toda guerra a primeira vítima é sempre a verdade.
Em meu blog eu postei a foto e uma entrevista com os pesquisadores que fazem as convincentes acusações.
http://blog.argosfoto.com.br/2009/07/30/robert-ca…
Abs, até Paraty
Marcos Issa
[...] ler o post de ontem sobre o “elogio da proximidade” citando Capa e a proximidade necessária para fotojornalismo , ficamos muito tristes em ler [...]
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