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Laróyè!

[ Cia de Foto | 11 ago 2009 | 2 Comments | 1.030 visitas ]
© Mario Cravo Neto

© Mario Cravo Neto

Éder Chiodetto, especial para Ilustrada, na Folha de São Paulo de hoje:

“Um momento de beleza é um momento de encontro” escreveu o artista Mario Cravo Neto, falecido neste último domingo em Salvador, aos 62 anos.  E a beleza de sua arte, de fato, se explica em boa parte pela criação de um espaço simbólico de celebração de encontros.  Sua fotografia promove de forma singular a junção entre realidades visíveis e as fronteiras do ficcional, entre mito, vida e arte. Sua percepção aguçada o levou a perceber, nos gestos cotidianos, manifestações cósmicas onde se podia entrever a origem do universo. O ancestral embutido no banal.
Este caráter metafísico de seu trabalho, não há como negar, foi gestado pelo ambiente artístico e sincrético de Salvador, na Bahia, onde nasceu, foi criado, viveu e, por fim, transformou-se no pano de fundo de sua obra. “Na Bahia encontra-se o que a gente tem carinhosamente em comum e não agressivamente o que tem de diferente“, escreveu nos agradecimentos do livro “Laróyè” (Áries Editora, 2000), sem dúvida, um dos mais belos, importantes e vigorosos livros de fotografia já editado no Brasil. Laróyè é uma saudação em yorubá para o Exú, entidade controversa adorada por Cravo Neto.
Além do cenário, havia a família e seu entorno a contribuir. O escultor Mario Cravo Junior, seu pai, ao saber naquele abril de 1947 que sua mulher estava em trabalho de parto no hospital optou por ficar em casa, de frente para o mar, ouvindo Prélude à l’après – midi d’un faune, de Claude Debussy. Depois levaria seu pequeno “fauno” a conviver com artistas e intelectuais de sua geração como Jorge Amado, Pierre Verger, Carybé e o casal Pietro e Lina Bo Bardi, entre outros tantos.
Trabalhando em paralelo com a escultura e a fotografia desde os 17 anos, Mariozinho, como seria sempre chamado pelos mais íntimos, aprimorou seus estudos após morar em Berlim com o pai e rodar a Europa. Estudou com o fotógrafo Max Jacob e com o pintor modernista italiano Emilio Vedova (1919 – 2006). Em 1968, em Nova York, estudou na Arts Students League.
Num dado momento da carreira percebeu que seria impossível manter em paralelo as atividades de escultor e fotógrafo. Optou pela segunda. “Jorge Amado, assim como outros, gostavam de minhas fotos e diziam que eu devia me dedicar só a ela”, contou.
Um sério acidente de carro em 1975 o deixou com as duas pernas quebradas e sobre uma cama por cerca de um ano, levando-o à fotografia de estúdio. Iniciou assim as séries em preto-e-branco “O Fundo Neutro” e “Meus Personagens”, as mais conhecidas de sua trajetória e que constam nas mais prestigiadas coleções particulares e públicas do mundo como o MoMA (NY), Stedelijk Museum (Amsterdam), Tokyo Institute of Polytechnics, Fundation Cartier (Paris), entre muitas outras.
No contexto da fotografia de arte brasileira Cravo Neto tem uma importância fundamental: foi um dos precursores, senão o primeiro, a ter sua obra valorizada pelo mercado de arte internacional, a introduzir no Brasil a idéia da fotografia como objeto de arte colecionável, a discutir tiragem, qualidade de cópia, etc.
Para além deste aspecto, a obra de Cravo Neto continuará a ser uma chave fundamental para se discutir um tipo de arte que utiliza elementos mínimos para expressar a ancestralidade do homem, seu lugar no universo, a poética que envolve a noção de passado e futuro etc.
Foi assim, por exemplo, que se deu sua incursão no candomblé. Ao fotografar os ícones ritualísticos da religião afro-brasileira, Cravo Neto buscava de forma muito peculiar conectar objetos, pessoas, atmosfera, símbolos e mitos organizados em sua beleza escultórica para celebrar a pulsão de vida da matéria. A morte como parte desta pulsão, um ciclo que não cessa. Com Cravo Neto a fotografia transgrediu códigos e ampliou suas possibilidades de representação. São raros os artistas que conseguem ampliar o repertório da sua arte. E raros artistas não morrem jamais. Laróyè!

Butterflies and Zebras seria nova mostra do artista

Apaixonado nos últimos anos por instalações, projeções e impressões em grandes formatos onde o visitante pudesse “encher os olhos e se arrepiar envolvido pelo ambiente e pelo detalhe ampliado”, Cravo Neto planejava com o curador e amigo Diógenes Moura uma mostra com grandes projeções de suas fotos que deveria ter ocupado o quarto andar da Estação Pinacoteca em maio deste ano e que não ocorreu por falta de patrocínio.
Quatro grandes seqüências fotográficas inéditas realizadas com slides no final da década de 60, em Nova York, deveriam ser projetadas criando uma espécie de sinfonia visual numa narrativa não linear sobre o impacto de viver numa grande metrópole e sobre as suas experiências com o LSD.
Chateado por não ter realizado a mostra em maio, no último email escrito ao curador Cravo Neto pedia para que a exposição ocorresse ainda este ano. “Se vire!”, escreveu. E, feliz, dizia ter finalmente encontrado o título da exposição: “Butterflies and Zebras”. Segundo Moura, a Pinacoteca do Estado pretende manter a mostra em seu calendário para este ano, mas ainda depende da captação de patrocínio. (EC)

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2 Comments »

  • Georgia Quintas said:

    Belo texto…
    De fato, Eder, Mario Cravo Neto redimensiona e amplia nosso olhar através do insólito em suas imagens.

    Abraços.

  • Márcio Lima said:

    Acho que ainda não alcançamos a dimensão do trabalho de Mariozinho, Mariozinho é seu próprio trabalho, existe um universo da representação humana de uma riqueza sem fim. É uma grande perda. Márcio Lima

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