Uma outra cidade, por Juan Esteves

A outra cidade de Iatã Canabrava
Por Juan Esteves
“Para um exilado, todas as esquinas do mundo se parecem” é uma frase atribuída a Victor Hugo (1802-1885) e está no início do livro “Exiles”, de Josef Koudelka. Assim como este, o brasileiro Iatã Canabrava também já foi um exilado, mas não em Paris ou na Inglaterra, e sim em alguns países da America Latina, onde mesmo próximo de sua terra aprendeu a olhar como um estrangeiro, no sentido mais amplo da palavra, aquele que nota as coisas que os outros não notam.
A opção pela periferia já difere esta produção das demais. No maistream se recorre ao belo, ao consagrado. Afinal, pobreza não vende, ninguém mais quer ver, já basta o noticiário martelando o desastre latino diariamente. Canabrava preferiu o caminho mais difícil: encontrar algo que não estamos habituados a ver. Não somente porque não vamos a estes lugares que ele vai, mas porque estamos perdendo a capacidade de mapear esses percursos com o coração.
Canabrava mostra como as cidades se comportam dentro de seus muros, expõe uma quantidade enorme de ícones cuja função principal é nos dirigir, ou melhor nos orientar, em um trajeto peculiar. O fotógrafo se converte em guia, forjando esse mapa ao longo de quase uma década. Aqui, outra diferença notável para aquelas fracas construções atreladas aos pobres modismos. Um trabalho longo e não apenas passeios pela cidade. O fotógrafo sai na rua, conhece a comunidade, interage com ela, arma o tripé, espera, pensa e aperta o obturador.
Dessa relação mais profunda, que existe também na sua capacidade como militante, surge um roteiro coerente onde a arquitetura da cidade é a cenografia perfeita que se aplica aos protagonistas, personagens diárias desta outra cidade que ora se apresenta. Não há um exotismo de fácil recorrência. O que existe são pessoas comuns rejeitadas, elevadas novamente a categoria de humanos. Não estamos aqui resolvendo um enigma e sim constatando como a sociedade exclui a periferia e seus tipos e como estes reagem.
O historiador e curador Horácio Fernándes fala na efemeridade da paisagem retratada por Canabrava. Uma cidade construída de papelão, de lata, madeira, pode durar muito? As marcas e signos deixados por seus habitantes sobreviverão num futuro próximo? São perguntas propostas por ele, atentando que o fotógrafo registra o presente, “ nada mais que o presente”. Uma declaração que reforça ainda mais o caráter ontológico dessa produção. Vemos um presente que é instável, mas que o registro fotográfico tenta torná-lo permanente.
O fotógrafo conta que sua interface política é também seu propulsor. De São Paulo, prosseguiu pelas periferias das capitais onde viveu. Lima, no Peru; Buenos Ayres, na Argentina e Caracas na Venezuela, são algumas delas que se juntam a outras brasileiras, extraídas de cidades como Brasilia, Porto Alegre e Belém. Diz que existem outras cidades além daqueles cartões postais, e que é necessário ultrapassar estas fronteiras. Combater a exclusão é um processo humanitário e a fotografia se torna um instrumento de conscientização.
Rubens Fernandes Junior, curador e professor , alerta para as diferenças de “visualidades” colocadas por Canabrava. Para ele, o fotógrafo tem um olhar atento nos mostrando como as diferentes condições se organizam de maneira imprevisível nesse espaço de tensão contínua, para explicitar os modos populares de esconder e mostrar as evidências. É justamente aí que acerta o autor.
O fotógrafo nos leva diretamente as evidências contidas em sua paisagem e, sem leituras clichês, provoca a discussão antropológica e política indo na essência da imagem documental, que por ser bem executada, se torna tão rara. Evidências que dizem claramente o quão semelhantes certas esquinas do mundo estão se tornando, e que sem dúvida, estamos todos nos tornando exilados de um mundo supostamente globalizado.
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Ô Juan, acabei de ver o livro do Iatã e depois das fotos, e dos textos,
fiquei tentado a escrever alguma coisa para publicar aquí na Zero Hora. Fui para a internet em busca de algumas informações específicas sobre o autor e encontrei mais esse bom texto teu. Parabéns p/o Iatã e seus parceiros no projeto UMA OUTRA CIDADE e p/vc também. Quanto a mim estou com aquela sensação ambígua que me assalta sempre que encontro um trabalho realmente bacana. Estimulado a fotografar e a escrever, orgulho em fazer parte, mesmo modestamente, da mesma tribo e um enorme receio, até mesmo uma inibição, de não lograr o mínimo exito e ficar aquém da responsabilidade que o desafio exige. Se ZH publicar um textinho meu, é porque resolvi, pelo menos, tentar. A irresponsabilidade não respeita limites. Abçs p vcs. kadão
Kadão,
É bom saber que o trabalho da gente provoca estímulos criativos, ainda mais vindo de você! Obrigado!
Kadão! Meu caríssimo amigo! Não tens desculpa. Estamos esperando seu texto no Zero Hora…que a gente emenda por aqui! Obrigado pelo carinho!
abraço forte!
Juan Esteves
PS. Se não quiser escrever no ZH escreva aqui mesmo. O espaço é livre para fotógrafos que fotografam e que pensam!
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