Bonni Benrubi
Claudio Edinger entrevistou a galerista Bonni Benrubi, proprietária da Bonni Benrubi Gallery em Nova Iorque. A galeria tem o foco na fotografia contemporânea e representa clássicos como Andreas Feininger, Louis Stettner, Lewis Hine e Robert Frank. Além dos contemporâneos Abelardo Morell, Massimo Vitali, Simon Norfolk e Matthew Pillsbury.
Entrevista gentilmente traduzida por Clicio Barroso.

© Abelardo Morell
Como surgiu seu interesse em fotografia e como você conheceu Daniel Wolf, que é um dos pioneiros do mercado fotográfico de Nova Iorque? Por quanto tempo trabalharam juntos, e como foi esta experiência?
Eu estudei história da arte na Boston University, em Harvard e na Boston Museum School, com ênfase em história da fotografia e arte contemporânea. Eu queria ser uma negociante de arte desde os 16 anos de idade; um livro sobre Joseph Duveen me inspirou a idéia de arte e comércio, que sempre me fascinou.
Me formei em 1975 e trabalhei para a Blum Helman Gallery em NYC por 2 anos. Irving Blum foi um pioneiro na arte contemporânea, e ele me ensinou a entender esta arte, em confiar em sua visão, e também me ensinou a vendê-la. Como eu ainda queria estar lidando com fotografias, então em 1977 comecei a trabalhar para a Daniel Wolf Gallery, uma das primeiras só dedicadas a fotografia. Trabalhei por dez anos lá, o tempo que a galeria durou. Daniel fechou a galeria, depois de ter sugerido com sucesso que o Getty Museum começasse uma coleção de fotografias. O Museu Getty, na época, em 1987, pagou 25 milhões de dólares para o Daniel montar um acervo com fotos do mundo todo. Hoje, 22 anos depois, este acervo vale mais de um bilhão de dólares.
O Daniel ficava muito tempo fora da galeria, o que me permitiu aprender todas as nuances do negócio através da tentativa e do erro. Era um “Velho Oeste” onde tudo era permitido — nós lidávamos com todos os aspectos relacionados ao meio, fotos dos séculos 19 e 20, e fotos contemporâneas. Tivemos oportunidade de trabalhar com vários mestres: Garry Winogrand, Eliot Porter, Tod Papageorge, Lee Friedlander e assim por diante.
Era a infância deste métier, e haviam apenas poucas outras (5) galerias inteiramente dedicadas a fotografia. Hoje em Nova York (incluindo Brooklyn) temos mais de trezentas galerias de fotografia!
Quando e como você abriu sua galeria; montou o negócio sozinha ou você tem sócios?
Daniel fechou a galeria em fevereiro de 1987, logo após o anúncio da negociação com a Getty. Eu tive que me virar sozinha, como marchand independente de muitos dos artistas de Wolf – Arnold Newman, Andreas Feininger, etc. Eu não tinha dinheiro, mas tinha um monte de contatos e clientes. Montei um escritório nos fundos de outro escritório e trabalhava com hora marcada; minha galeria só começou cinco anos depois, em 1992.
O que essencialmente mudou nesses últimos 32 anos em que você está neste métier?
O mercado mudou de A a Z durante esse tempo; as mudanças tem sido enormes e profundas, e no começo fotografias dificilmente eram consideradas viáveis, e os preços eram muito baixos. Todas as críticas nos jornais terminavam com a pergunta “mas será que as fotografias são arte?”
Hoje em dia fotografias são aceitas, integradas ao mercado de arte e procuradas por todos.
Quantos prints são vendidos por galerias por ano nos EUA? O que faz as pessoas quererem comprar fotografias para integrar às suas coleções?
Nós representamos artistas que são muito sólidos e estáveis, cujos preços são justos, logo nosso volume é bastante alto. Eu diria que vendemos entre 500 e 1000 cópias por ano. O mercado de fotografia é gigantesco, eu calculo que por volta de 200 mil cópias são vendidas por ano (de todas as galerias juntas)… bilhões de dólares em fotos… as pessoas compram porque elas sentem uma conexão, uma paixão, e relacionar-se com fotografias (pelo menos algumas) é bem mais fácil (do que com a arte contemporânea). Tem sido também um investimento fantástico. Fotos vendidas por mil dólares há dez anos são agora vendidas por dez vezes este valor.
Quando o mercado mudou de rumo trocando as coleções de pintura e escultura por coleções de fotografia, e por que?
O mercado por fotografia realmente explodiu no final dos anos 80 – preços aumentaram dramaticamente e a mídia começou a dedicar mais tempo à discussão fotográfica.
Como você seleciona os artistas para sua galeria? Como conheceu Abelardo Morell e Massimo Vitali, e quanto de esforço (caso tenha sido necessário) você despendeu para conseguir estes dois grandes nomes?
Eu seleciono os artistas que mostramos baseado nos meus próprios instintos e prazer; eu exponho aqueles que eu pessoalmente gostaria de colecionar. Quando fui apresentada a Abelardo por seu colega em 1992 eu imediatamente soube que este homem era um gênio!
Conheci Massimo Vitali quando vi seu trabalho em uma outra galeria durante a feira Paris Photo, em 1997. Nos encontramos e começamos a trabalhar juntos naquele mesmo ano. Quando conheci estes dois artistas eles não eram “grandes estrelas”, nós construímos isso juntos.

© Massimo Vitali
Quanto do mercado você acredita que pertença a prints antigos, em oposição a trabalhos contemporâneos? E quem são as estrelas, os best sellers em ambos os tipos?
Nosso foco tem realmente se tornado mais contemporâneo hoje em dia, por isso não estou tão ligada no trabalho mais antigo, mas acho que os grandes deste mercado incluem Robert Frank Walker Evans, Irving Penn, Man Ray, Edward Weston, Alfred Stieglitz, Steichen no século 20. Artistas do século 19 incluem Le Gray, Talbot, Negre, Watkins. E o universo contemporâneo, além dos meus artistas, conta com Cindy Sherman, Sugimoto, Gursky.
O fotógrafo tem que usar uma máquina de grande formato para ser incluído no circuito das galerias? O que é necessário para que um fotógrafo sobreviva neste mundo extremamente competitivo da fotografia?
Não é preciso (usar máquina de grande formato), mas a maioria dos fotógrafos com quem trabalho usa grande formato e filme. Está havendo agora uma preocupação em se usar cor e também “bigger is better” (maior é melhor). Este é um mercado competitivo, cheio de modismos, e penso que a economia em recessão vai separar os homens dos meninos, e nos próximos anos vamos testemunhar a correção de alguns desvios
Por que um trabalho como o díptico “99 cents” do Gursky vende por 3 milhões de dólares? Ele está supervalorizado, ou estão outros fotógrafos subvalorizados?
Acho que a correção da qual falei vai deixar estas questões mais claras, muitos artistas vão desaparecer e outros vão surgir. Vai ser interessante ver como nossa época afetará o que está sendo produzido, o que é desejado, e o que vai se manter com o passar do tempo.
Em quanto tempo as imagens de 1 milhão de dólares vão ser absolutamente comuns?
Imagens de um milhão de dólares são comuns para grandes trabalhos e raras obras-primas de todos os séculos; existe uma quantidade limitada de fotografias que são assim.
Você conhece alguns exemplos de pessoas que investiram em fotografias nos anos 80 e agora estão, vamos dizer, nadando em dinheiro?
Sim, mas normalmente estas são pessoas que compraram com o coração e não para especular; é gente que ainda guarda suas fotos!
Participar de feiras como Paris Photo, AIPAD, SP Arte/Foto, etc. é o melhor modo de sobreviver no nosso negócio?
Nossa galeria não é dependente das feiras de arte pois estamos na cidade de Nova Iorque; de uma forma ou de outra todos os colecionadores acabam vindo a NY para ver arte. Por outro lado nós temos um custo fixo enorme e uma competitividade absurda. Isso dito, Paris Photo, AIPAD e outras feiras tem sido um ativo bem grande para o crescimento de nosso negócio, proporcionando aos nossos artistas todos os tipos de oportunidades.
Para onde está indo o mercado fotográfico e quem, na sua opinião está produzindo hoje o trabalho mais interessante (além de seus próprios artistas, lógico)?
Acho que os homens serão separados dos meninos neste momento, e só os fortes vão sobreviver. Vai haver uma maior apreciação dos artistas menos conhecidos, outros em meia carreira vão ressurgir, e o mercado vai ter menos especulação e menos influência dos modismos. Há muitos artistas maravilhosos trabalhando hoje, como Cindy Sherman, Thomas Demand, Emmett Gowin, David Lachapelle, Vik Muniz. Novos astros e estrelas dos anos 80 serão reconhecidos.
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Bacana a entrevista.
É curioso como, apesar da forte interface da fotografia contemporânea com a arte conceitual e outras perspectivas que querem fazer da fotografia uma arte "pensante", reine hoje em dia a moda (ou a ditadura) do "bigger is better". Não há nada mais burro que isso.
[...] imediatamente soube que este homem era um gênio!”. A frase da galerista nova-iorquina Bonni Benrubi, não exagera em nada ao ilustrar a capacidade criativa [...]
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