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Entrevista | Claudio Edinger

[ | 9 set 2009 | 13 Comments | 3.260 visitas ]

Um mago dos ensaios, publicação de livros, vencedor de prêmios e trabalhos em diversos veículos do mundo. Claudio Edinger, aclamado fotógrafo, especialista em portraits, com 13 livros publicados, vai estar em 5º Paraty em Foco dando o workshop “Da Idéia às prateleiras – A concretização de um livro” contando sobre seu método e processo que o fizeram ser um dos principais fotógrafos autores de livros do país.

Nesta entrevista prazerosa ele aborda a ética, a conquista dos personagens fotografados e sua maneira de fotografar.

Fotos: Claudio Edinger

Série “Paris”

O Senhor é considerado no meio fotográfico como o “mestre dos ensaios”. Seu início foi com o Hotel Chelsea, em Nova York, em 1983 quando morou e avistou as pessoas que conviviam naquele espaço, não é mesmo? Então como foram seus primeiros ensaios, no que diz respeito a abordagem das pessoas, à conquista dos fotografados, principalmente num país que não era o seu? E como é hoje em dia o seu modo de “conquista”?

O primeiro ensaio que eu fiz foi sobre o Edifício Martinelli em São Paulo em 1975. O Martinelli era o prédio mais chique de São Paulo, o primeiro arranha céu da America Latina quando inaugurou em 1929. Depois foi se deteriorando e virou um favelão vertical. Em 1976 mudei-me para Nova York e passei dois anos fotografando os judeus ortodoxos no Brooklin, onde morava no porão da casa de um deles. O Chelsea aconteceu depois disso quando resolvi morar na ilha de Manhattan o centro de Nova York e fui morar no hotel. Não planejava fotografá-lo mas com o tempo fui vendo as várias personagens que transitavam por ali e não resisti. Quanto ao que você chama de conquista acho que o ingrediente principal é o interesse da gente pelos outros. As pessoas sempre me interessaram muito. Faz parte de uma tentativa de entender melhor quem eu sou. Adoro conversar com os assim chamados “estranhos”. Ver o mundo como a família da gente é uma forma muito divertida de viver. “estranho” é quem não percebe isso.

Suas fotos sobre Loucura realizadas no Hospital Juqueri de São Paulo em 1998 receberam tanto críticas positivas como negativas. O que é natural, não é mesmo? Na sua opinião, como o fotógrafo dever lidar com estes temas mais polêmicos, como por exemplo loucura, miséria, morte? Como administrar esta linha tênue que permeia e divide ao mesmo tempo a denúncia e o sensacionalismo, o documental que conta uma história que precisa ser vista pela população, com uma intenção poética visual, mas respeitando seus fotografados? Enfim, como a estética e a ética conversam nestes temas?

Ótima pergunta. É uma questão de estabelecer prioridades. O que é mais importante, respeitar a individualidade ou mostrar a realidade, despertar consciências? Acho que nós todos temos a óbvia tendência de criarmos à nossa volta um universo confortável, em que nos poupamos de transtornos e deixamos de ver o que nos incomoda. Acabei de voltar de viagem e postei minha saga da volta no Facebook. Uma amiga disse, “é, a gente só vê a cidade mesmo quando volta de algum lugar — aqui criamos uma ilha onde trafegamos e perdemos a objetividade”. É isso, a fotografia é uma arma incrível para provocar, para acabar com essa acomodação.

Adoro o que diz o Platão: seja gentil pois todas as pessoas que você encontra estão vivendo uma batalha muito dura (que é viver). Consciência é o primeiro passo para uma mudança. O grande fotógrafo americano Edward Steichen dizia que “quando vemos melhor sentimos melhor” e eu acredito muito nisso. Acho muito mais importante mostrar as coisas, seja lá o que for, afinal faz tudo parte do mundo de todos nós, do que por pudor, medo e/ou burrice pura deixar de mostrar alguma coisa. Lembro das criticas que o Salgado recebeu por fotografar a pobreza de uma forma assim chamada “glamurosa” — é uma estupidez dizer isso. A pobreza tem que ser vista, tem que ser mostrada. E por que isto tem que ser feito de uma forma “feia”? Mas é muito bom discutirmos bastante tudo isso e é ótimo que cada um ache o que acha. A função da fotografia é estimular, obrigar as pessoas a pensar, a refletir, a questionar. Essa é a ética da fotografia. A loucura é um problema grave que amedronta a todos, é preciso encontrar uma cura para ela, assim como a pobreza é um problema grave que precisa ser solucionado. Se a fotografia empurrar um pouco as pessoas a agirem nesta direção (de procurar soluções) não é genial isso?

O Senhor tem realizado seus mais recentes trabalhos com uma 4×5. O foco da câmera de grande formato proporciona a “brincadeira” do tilt-shift, que dá a sensação de que objetos e pessoas fotografados são maquetes ou miniaturas. O movimento corporal do fotógrafo assume outras características com o uso de uma câmera deste porte. Como o Senhor descreve sua escolha por este formato e por esta apresentação que pode ser considerada como lúdica, com o tempo, o objetivo e a mobilidade que passam a ser outros?

A 4×5 é demais por que com ela pela primeira vez o fotógrafo não vê mais o mundo através de uma câmera, mas junto com ela quando fotografa. Proporciona também, com o foco seletivo, uma possibilidade de criar a síntese dentro da síntese, é a busca do dentro do dentro… Uma fotografia bem feita é uma síntese e encontrar uma fotografia dentro da fotografia é demais. Além disso, com o tempo, a máquina de grande formato te ensina a mirar exatamente no que funciona como foto, te ensina a ser absolutamente objetivo. Hoje minha média de fotos é para cada 13 fotos que eu faço acabo escolhendo 10 que me interessam, 10 que acabam integrando o projeto. Isto tudo sem falar na qualidade excepcional do negativo e das lentes em grande formato… Além disso, o foco seletivo destaca o paradoxal, a ambiguidade que domina nossas vidas…

No workshop no Paraty em Foco deste ano, “Da Idéia às prateleiras – A concretização de um livro”, o Senhor falará sobre o processo da concepção à publicação de um livro. Como isso se deu com os seus primeiros livros? O Senhor tinha recursos para fazê-lo? Como foi sua busca? Tinha algum apoio? Conte um pouco sobre o seu processo de trabalho até ver o livro pronto.

Eu trabalhava em Nova York para revistas como Time, Newsweek, Forbes, etc… Era também correspondente da Isto É. Todo dinheiro que eu ganhava investia em meus projetos pessoais, sempre procurando uma maneira de fazer os livros acontecerem. Meu objetivo desde o inicio era fazer livros. Era a única coisa que me interessava.

No livro a gente pode se aprofundar e fica limitado só pelos nossos próprios limites. Não tem os limites de espaço e tempo que uma revista ou um trabalho comercial nos impõem. E quando a gente descobre nossos limites sabe que não são definitivos — não há limites.

Então tudo o que fazia, fazia com isso em mente. Os recursos foram aparecendo de uma forma ou outra: o gerente do Chelsea hotel aceitou fotos como pagamento do aluguel. Recebi a medalha Leica e eles viram que eu fotografava com Nikon e me ofereceram suas câmeras, no inicio como empréstimo depois como doação direta (quando ganhei a segunda medalha da Leica, com o livro Venice Beach). Acho que se é este seu papel (ser fotógrafo) as coisa vão acontecendo como mágica — comigo foi sempre assim. Mas nunca foi fácil e esta é minha sorte e benção, ter tido que batalhar muito por tudo. É assim que a gente aprende e com o tempo vai ficando tudo muito mais fácil. Mas por todas as dificuldades que eu passei, morar numa cidade estrangeira como Nova York por 20 anos, ter vários livros rejeitados pelas editoras, tudo isso foi a sorte que eu tive. Cada projeto rejeitado me obrigava a aprofundar cada vez mais a pesquisa… E é assim até hoje…

Como o Senhor vê o mercado de livros de fotografia no Brasil e no mundo? Alguns fotógrafos brasileiros têm tido uma idéia na cabeça e uma impressora na mão. Imprimem suas fotos em casa, em suas impressoras (usando jato de tinta e papel belíssimo e delicado) e produzem uma tiragem reduzida (cerca de 100 exemplares a preços mais elevados que a média) e disponibilizam seus livros nas livrarias menos comerciais do país. O que o Senhor pensa dessa proposta?

Acho que o mercado de livros de fotos em geral ainda engatinha. O potencial é muito grande mas acho que ninguém faz livros de foto por causa do mercado. Faz por que tem que ser feito. O fotógrafo é um doido cuja terapia é seu trabalho. Quanto aos fotógrafos fazerem edições limitadas ou não, isso é só um detalhe. A grande questão é: seus livros são bons? Valem a pena serem feitos? Se a resposta for sim ou podem fazer em casa ou aparece alguém querendo fazer. O que mais falta no mercado são projetos bons, tá todo mundo atrás disso — patrocinadores, editores, museus, galerias…

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13 Comments »

  • Clicio said:

    Cláudio, Belém,

    É muito gratificante ver um artista do porte do Cláudio, carregando uma 4×5 pelo mundo, e acreditando em livros de fotografia. Uma inspiração!

  • Paulo KLEIN said:

    Para quem conhece, prazer renovado. Pra quem não conhece, uma oportunidade especial para conhecer o "Senhor Fotógrafo" Claudio Edinger. Entrevista ótima. Recomendadíssima. Não percam. Leiam, reflitam, guardem nos corações e mentes.

  • mônica canejo said:

    "O fotógrafo é um doido cuja terapia é seu trabalho"?
    Só mesmo um mestre como Edinger para uma definição tão precisa!

  • Deivyson Teixeira said:

    o mundo parece mágico diante do seu olhar.
    brilhante, um mestre !

  • Ivaldo Cavalcante said:

    Bacana a entrevista!!! Livro e como um BOM ensaio, não e so produzir!!! Tem que parir uma realização!!! Este Erdinger e muito doidão!!! Bacana!!! Vida longa a verve dele!!!

  • José Rosa said:

    Grande Edinger!!
    "Ver o mundo como a família da gente" é a grande sacada. Inspiração para todos nós doidos.

  • Mauricio Simonetti said:

    Muito legal a entrevista. Boas perguntas, respostas melhores ainda. Valeu , Claudio !!

  • Maria Cecilia Borges said:

    Edinger, uma pessoa especial, pelo talento e pela forma de ser.
    Exatamente, todos nós precisaríamos ter esta consciência – primeiramente da nossa própria loucura e depois, do entendimento e aceitação da nossa grande familia.

  • Maria Cecilia Borges said:

    Tive o privilégio de conhecer Claudio Edinger e de conviver com ele e com seu trabalho, durante dois anos em que trabalhei na Galeria Arte 57, da qual ele era parte integrante. Claudio é realmente, uma pessoa muito querida e muito especial. Seu trabalho é fantástico, e todos eles, geniais.
    Muito sucesso sempre, cada vez mais e mais.
    Grande abraço.

  • Tatiana Cardeal said:

    Lu e Claudio, demais! :)

  • walter ney said:

    Um prazer enorme ler esta entrevista. Que estímulo para todos nós!

  • RODRIGO MORENO said:

    Fotos geniais…

  • claudio Edinger said:

    muito obrigado a todos pelo carinho!! o segredo é um só: quatorze horas por dia, no mínimo, fazendo estudando e sonhando fotografia.
    até paraty!!
    abração
    PS Maria Cecilia você é mesmo uma gracinha!!

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