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Entrevista | Ludovic Carème

Eduardo Muylaert 12 setembro 2009 1.594 visitas 7 Comments
Ludovic Carème - O Retrato como Encontro

Por Eduardo Muylaert

Ludovic Carème e Claudine Doury mostraram seus trabalhos e deram workshops em Arles, em julho, e agora vão fazê-lo no Paraty em Foco 2009. Arles só convida os melhores. O Paraty também.

Claudine Doury já foi entrevistada por Clício Barroso. E quem é mesmo esse Ludovic Carème, o Homem do Retrato?

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Foto: Eduardo Muylaert

Ludovic Carème

Ludovic Carème é um grande viajante que há dois anos se fixou em São Paulo. Aqui nasceu sua última sua filha, Liv, de um ano. Antes, experimentou viver em Londres e Paris, onde nasceu, em 1967, na Clínicas dos Metalúrgicos, em Belleville. Seus pais eram ativistas políticos, bastante envolvidos no movimento de maio de 1968. Quando o fotógrafo ainda não havia completado seu primeiro ano, as barricadas ardiam no Boulevard Saint-Germain.

Carème passou longos períodos na Ásia e, antes de optar pelo Brasil, procurou conhecer a América Latina (Chile, México, Guatemala, Honduras). “São Paulo é uma vitrine do mundo”, afirma Carème, que gosta dos espaços urbanos para trabalhar.

Maus alunos freqüentemente dão grandes fotógrafos, Cartier-Bresson que o diga. Ludovic passou por muitas escolas em Paris e, aos treze, queria parar os estudos, mas a mãe não deixou. Uma amiga modelo, Isabelle Soares, o havia levado a conhecer o estúdio do fotógrafo Georges Tordjman e o fascínio foi instantâneo. Ludovic resolveu na mesma hora que queria ser fotógrafo e, logo em seguida, comprou sua primeira câmera, uma Konika, e um ampliador.

Acabou terminando o Liceu, a Universidade, onde estudou História da Arte, e o mestrado em espanhol. Depois, cursou por três anos a escola de fotografia em Toulouse, da qual saiu formado em 1991. O primeiro dinheiro que ganhou na profissão foi fotografando e vendendo as fotos para os freqüentadores das praias do Mediterrâneo, no sul da França. Em seguida, realizou seu sonho de conhecer a Ásia, passando cerca de seis meses percorrendo a China, especialmente o sul onde fotografou as minorias, o Vietnam, o Cambodja e Hong- Kong.

Voltou a Paris em 1992, quando então conheceu o hoje premiado Jean-Christian Bourcart, que vive em Nova York. Começou a trabalhar com ele e foram para a Bósnia, onde começara o conflito. Bourcart fez o filme “Evis”, Carème cuidava do som. Lá ficaram por seis meses. Foi na Bósnia que Carème conheceu o correspondente de guerra do jornal francês Libération, que lhe conseguiu o primeiro trabalho comissionado, uma reportagem sobre os refugiados bósnios em Sarajevo. De volta a Paris, começou a trabalhar para o Libération como pigiste (frila) por dois anos. Sentia-se em casa nesse jornal de esquerda, fundado em 1968, onde todos recebiam salário igual, desde o porteiro até o diretor.

Começou a trabalhar também para outros jornais e revistas, sendo chamado por Le Monde, L’Express, Elle e, mais tarde, periódicos do mundo todo.

Sua paixão é o retrato, segundo ele um bom pretexto para encontrar pessoas. Continua usando basicamente uma Hasselblad e os filmes Kodak Portra 160 e 400 NC para cor e os clássicos TriX 320 ou mesmo PlusX para o branco e preto. Ainda não aderiu ao back digital. Nunca usa flash, às vezes usa tripé e, eventualmente, luz continua. A maioria dos retratos que fez foram encomendados por publicações como Elle, Vogue, Le Monde, Libération, New York Times, Télérama, L’Express, La Repubblica del Donne, The Independent, l’Equipe Magazine, Marie Claire, L’Expres, Vogue Brasil, Trip, S/N˚, Bravo, Rolling Stone, Folha de São Paulo e Revista Mag.

Seus ídolos são Diane Arbus, Robert Frank e o sul-africano David Goldblat. Não se sente próximo dos clássicos como Cartier-Bresson, Robert Doisneau, Willy Ronis. Entre os contemporâneos, aprecia o trabalho de Antoine d’Agata, Lize Sarfati e Jean-Christian Bourcart.

Ludovic Careme entre Michael Caine e Paul Auster

Foto: Eduardo Muylaert

Ludovic Carème entre Michael Caine e Paul Auster

Carème acha que ainda é possível viver de fotografia, mas é preciso ser um resistente. Nos últimos cinco anos houve uma mudança muito grande no panorama, com prejuízo para a liberdade. É um mundo novo, marcado pela crise econômica, a internet e o digital. A informação tem sido sacrificada, o predomínio é do marketing. Trata-se de fenômeno global, os jornais mudaram de mãos, os empresários assumiram o comando. Existe uma asseptização da fotografia, as decisões finais dependem do marketing e da publicidade. Alem disso, hoje o destino das fotografias é mais a galeria do que a imprensa. Ludovic não faz diferença entre fotografar anônimos ou famosos, todos são pessoas. O retrato é a ocasião de um encontro, a construção de uma ponte.

Laurent Abadjian, ex-editor de fotografia do Libération, atual editor de fotografia da revista Télérama e autor do novo projeto gráfico do jornal Le Monde, assim define Ludovic Carème como retratista:

“O retrato não é simplesmente a fotografia de alguém. É outra coisa. A nuança pode parecer mínima, quiçá insignificante, mas por mais leve que seja, ela tem um nome: o do fotógrafo. Um retrato não é a imagem de alguém. É a imagem do encontro entre um fotógrafo e um modelo. É a imagem da relação de forças que se estabelece no momento da foto. Diante da vontade do modelo de dar de si uma imagem controlada, muitas vezes ascética, o fotógrafo tem que mostrar resistência e dar sua própria visão da pessoa de quem deve fazer o retrato. Ludovic Carème é um fotógrafo resistente. Com um respeito infinito pelo seu modelo, mantém um domínio total tanto do enquadramento como da luz e do instante, suas armas para afinar sua escrita.”

Entre os retratados de Ludovic Carème encontramos personagens como Charlotte Rampling, Woody Allen, Oliver Stone, Pénélope Cruz, Julie Depardieu, John Malkovitch, Morgan Freeman, Coco Rosie, Seu Jorge, Tricky, Tracy Chapman, Paul Auster, David Lynch, David Cronenberg, Brian de Palma, Emmanuelle Béart, Takeshi Kitano e Oscar Niemeyer.

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Presidente do Gabão, Omar Bongo

Pedro Almodovar

É difícil escolher o mais bem sucedido. O fotógrafo diz que o que lhe deu mas trabalho e preocupação foi fotografar, para o Libération, o então presidente do Gabão, Omar Bongo, que governou com mão de ferro o pais até morrer em 2009.

Bongo queria uma foto clássica, protocolar, numa das ante-salas do palácio, em Libreville. Carème sabia que o ditador tinha um escritório com um grande mapa mundi. Por dois dias ficou hospedado no palácio, com um ajudante de ordens nos seus calcanhares. No terceiro dia, Bongo lhe concedeu quinze minutos, nos quais o paciente Carème conseguiu um fantástico retrato de situação.

No extremo oposto, Carème fotografou Angélica para a revista Gloss. Lê-se no site da revista: “Capa da revista Gloss deste mês (abril), Angélica fez revelações inusitadas sobre sua relação com Luciano Huck. Ela falou sobre o hobbie predileto do marido, a fotografia. ‘O tesão precisa ser alimentado. Eu e o Luciano temos cuidado do nosso com a fotografia. Ele adora fotografar e faz uns ensaios sexy me usando de modelo. Adoro!’” Dura tarefa para Carème!

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Angélica

Michael Caine foi fotografado no festival de Deauville, para o Fígaro Magazine. Paul Auster foi clicado ao tomar café da manhã num bar em Saint Michel, para a revista Jalouse. Woody Allen no Hotel Bristol, em Paris. Encantado com a Rolleiflex e a luz contínua de Ludovic Carème, foi até simpático.

Carème conhece Paraty, mas é sua estréia no Paraty em Foco. No workshop, mais do que conhecimento técnico, quer compartilhar sua visão e conhecimento com os alunos. Seu workshop e sua exposição em Arles se chamavam “Photographie – un autre soi-même”. Na fotografia e no retrato você pode ser um outro, sendo você mesmo. É o privilégio do encontro, da descoberta do outro e de você mesmo. Se houver encontro, o retrato será bom.

Ludovic Carème decididamente gosta de gente e tem um olhar generoso. Esse workshop em Paraty promete ser um maravilhoso encontro.

Emanuelle Béart Emanuelle Béart
Michel Piccoli Michel Piccoli
Seu Jorge Seu Jorge

Camille

Charlotte Rampling

Woody Allen

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7 Comments »

  • Wilian Aguiar said:

    um trabalho instigante, creio que os que tiverem oportunidade de ir a Paraty ganharam muito em conhecê-lo.

  • juan esteves said:

    Eduardo, concordo com o Laurent Abadjian.
    Não é simplesmente a fotografia de alguém ! e o Ludovic, mostra isso! É a fotografia dele!
    belo post, belos retratos!

  • juan esteves said:

    Corrigindo: Belíssimos!!
    Sorte de quem for a Paraty!!

  • Orlando Enriquez said:

    Excelente trabalho!
    Eu tenho certeza de que se trata de um Workshop único (felizmente, eu vou participar!)
    Estou ansioso para aprender a arte de "fotografar a sí mesmo em outra pessoa" de Ludovic!

  • Érica said:

    Provocador, só de pensar nesse retrato do Pedro Almodovar, fico tensa… É isso.
    Carpe Diem!

  • Simone said:

    E imaginar q ele já me fotografou. Estou me sentindo uma celebridade.
    Exposição "Retratos" em 06/12/2009 na Pça da Luz.

  • geilda said:

    Olá Ludovic, td bem? lembra de mim né? que sai na L´Express Francesa (sobre a Ecônomia do Brasil nos últimos anos, reporter Axel). lembrou?minha mãe esteve doente. porisso sumi. Olha Parabens pelo sucesso.

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