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Máquina de Esperar de Mauricio Lissovsky

[ Cia de Foto | 5 set 2009 | One Comment | 1.341 visitas ]

Uma resenha escrita por Claudia Linhares Sanz sobre o Máquina de Esperar ,de Mauricio Lissovsky, um livro presente aqui na Cia de Foto.

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O jogos dos fotógrafos modernos

Máquina de esperar provoca o leitor porque faz ver o tempo, na fotografia, livre do movimento. Além de uma excelente revisão bibliográfica sobre fotografia, atual e inédita nesses termos no Brasil, o livro de Lissovsky articula a fotografia a um pensamento filosófico sofisticado, iluminando a relação imagem-pensamento e sendo capaz de criar chaves conceituais próprias, deslocando e recolocando antigas premissas em novos lugares dos estudos fotográficos. Assim, o autor inverte caminhos e projeta luzes a um tema aparentemente sem forças: ousa pensar o instante fotográfico quando este já está completamente desprezado pela fotografia contemporânea. Nem mesmo os fotógrafos querem estar atualmente vinculados ao instante de produção; a fotografia encenada, a fotografia híbrida, a mestiçagem da imagem são, sem dúvida nenhuma, os modelos atuais. O instante foi expulso das galerias, circunscrito aos círculos do fotojornalismo e da fotografia amadora. Entre os fotógrafos nostálgicos e os integrados, é decretada a falência múltipla do instante. Livre dele, a fotografia estaria finalmente apta a produção de sua autêntica virtualidade. Os críticos também, há alguns anos, não discutem mais a singularidade da fotografia, mas suas interseções com outras mídias, seu hibridismo e relações expandidas. Na contramão das tendências que valorizam o rompimento do elo com o acontecimento, Lissovsky estuda o que há de mais singular na fotografia, em seu advento e história. Talvez, seu percurso se realize por uma certa adesão à idéia ao falecimento da fotografia, pelo menos nos moldes modernos – “ se o instantâneo morreu, agora podemos entendê-lo”. O livro, contudo, não levanta questões circunscritas somente à fotografia moderna. Ele cria um movimento mais audacioso, porque que faz pensar todas as fotografias, inclusive as contemporâneas: encharca de sentidos virtuais o instantâneo fotográfico, construindo um pensamento filosófico não a partir dela, mas com ela, em sua singularidade e força. Porque publicar um livro sobre o cadáver consumado? Serviria a um simples desejo de história? Segundo o autor, “nos dias que correm, a fotografia moderna parece estar encerrando seu ciclo de criação. Com o hibridismo que dilui as fronteiras entre as formas tradicionais da arte e a difusão dos sistemas digitais que retiram da imagem a diferença de seu suporte, algo que se creditou ser propriamente fotográfico parece esvanecer-se. Agora, portanto, ao modo de Benjamin, pode ter chegado o momento de arrematar a fotografia do atacado. Sua origem expõe-se como fratura.”

Não se trata da retomada da perspectiva modernista, mas da “reconstrução da fotografia moderna”, sob outros pressupostos. Configura uma outra história moderna, traçada a partir de um universo absolutamente conhecido: Lissovsky trabalha com fotógrafos que são “menção obrigatória” nas historiografia e na crítica fotográfica, mas o faz de modo inteiramente próprio, inovando significativamente e fazendo o leitor descobrir fotógrafos que, aparentemente, já não trazem nada de novo. Os autores não são remetidos aos seus “motivos”, mas ao jogo que cada um estabelece com o tempo, com o devir e a gênese do instante: entre durar e não-durar, entre o instante e não-instante, entre o “esperar” e “não espera mais”. Se o fotógrafo não “espera mais” deve ser “agora”, e se não é “agora”, então, ele ainda “espera mais”: esse é o jogo que o autor faz visível, jogo de forças e tensões com combinações infinitas entre atualidades e virtualidades em que cada instantâneo fotográfico é, simultaneamente, um convite a agir e um convite a esperar. Urgência e permanência. Qual o momento do golpe preciso? Para Lissovsky, quando a fotografia tornou-se instantânea o tempo que, antes constituía a longa duração da exposição, reflui para um antes da exposição, para o jogo do fotógrafo que se realiza no entre, no intervalo entre a duração o instante do clic. Quando as câmeras tornaram-se “relógios de ver” – segundo a bela imagem de Roland Barthes, o tempo refluiu para fora da exposição, fazendo da expectação a duração própria do ato fotográfico.  Nessa tensão, teria se produzido a fotografia moderna.

Claudia Linhares Sanz – é doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

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