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Na Bolívia, uma revista de fotografia

Cia de Foto 12 setembro 2009 1.127 visitas 4 Comments
© Rodrigo Braga

© Rodrigo Braga

Passamos agora alguns dias na Bolívia para o desenvolvimento de uma revista entre países da América do Sul.

Um projeto bancado pelo Centro Cultural Simón I. Patiño, com sede em Santa Cruz de La Sierra, que resultará em uma publicação semestral de fotografia.

Aqui do Brasil, a Cia de Foto é a representante do conselho editorial e apresentou, para o primeiro número, os trabalhos de Rodrigo Braga, João Castilho, Breno Rotatori, Sofia Dellatorre Borges e Claudia Andujar, além de um ensaio em texto de Claudia Linhares Sanz. Aliás essa será uma característica boa da revista, trabalhos de pessoas que estudam fotografia apresentados em artigos ou ensaios.

© Claudia Andujar

© Claudia Andujar

O nome escolhido para publicação é “Sueño de la Razón”, (retomando la leyenda del famoso grabado de Goya “el sueño de la razón produce monstruos” (un concepto típico del Siglo de la Razón), despùes de Freud podriamos afirmar sin embargo, que es cuando la razón sueña, que aparecen las imagenes...) e sempre terá um subtítulo em português, porque a publicação será bilíngue mas sem tradução. Duas línguas presentes e misturadas.

O comitê editorial é formado por Daniel Sosa do CMDF (Centro Muinicipal de Fotogafia), Uruguai; Pablo Corral V., Quito;  Nelson  Garrido, da Venezuela; Phillipe Gruenberg, do “Espacio la Culpable,” Lima; Fredi Casco, “El Ojo Salvaje”, Paraguai; Cecilia Lampo, artista e curadora da Bolivia e mais Luís Wiestein e Andrea Josh, do Chile.

Foram dias inteiros de uma discussão franca em torno do que apresentar em um primeiro número, que trata da fotografia como transformação social.

© Breno Rotatori

© Breno Rotatori

Na época em que recebemos o tema proposto, conversamos com alguns amigos considerados tutores, entre eles Georgia Quintas e João Castilho.

Questionamos o seguinte:

“Pensando na fotografia brasileira sobre o tema proposto, “fotografía y transformación social”, uma questão veio como um filtro na escolha de trabalhos a serem sugeridos.

O início dessa questão é sobre até que ponto podemos esperar um resultado prático de uma fotografia?
Podemos nos valer de uma aplicação e condução de um resultado fotográfico para um efeito imediato de mudança social ou devemos pensar em ensaios fotográficos para retornos intempestivos, atemporais e, sobretudo, subjetivos?”

Daí veio, entre outras, uma resposta de Claudia Linhares Sanz, que determinou nossas escolhas e, que depois de compartilhado com o grupo na Bolívia, passou a fazer parte do material a ser publicado.

Eis aqui um trecho desse texto:

“E vai dizer que a fotografia não transformou nossas próprias vidas? Vai dizer que nunca sentiu uma fotografia desviar seu caminho?

As fotografias que me importam são as que transformam – me criam marcas. Provocam aberturas (mesmo mínimas)(…) Gosto das marcas. Gosto de ser atingida por uma foto. As das quais sou alvo e que transpiram, desdobram-se em outras angústias, alegrias, críticas. Transformações? De todo tipo. Visíveis, óbvias, mínimas, significativas: deslocamentos lentos, imediatos, submersos. Deslocamentos de mundo que fazem ver o filho da gente de outro modo. Fazem lembrar nossas o próprias fotografias de um jeito que a gente nunca fez. Remontam nossas idéias. Nos enjoam, voltam a aparecer num sonho. Fotografias que produzem sentidos inesperados: rompem o pretenso equilíbrio de nossas vidas, nos desconcertam, nos riem. Imagens que fazem a gente gostar de viver. Fotografias que pesam, exibem lacunas. Fotografias que fazem visíveis a morte. Nos fazem indignar. Fotografias que produzem silêncios profundos.(…)Tais fotografias, mesmo que algumas doces, exercem um tipo próprio de violência. Quando isso acontece, instauram a possibilidade de mudança, produzem brecha para um novo modo do nosso corpo se saber, do nosso olhar se ver. Produzem pensamento – mesmo que na fugacidade de um incômodo.(…)Uma fotografia que transforma, abre sempre a possibilidade de um novo corpo. Quantos corpos me fizeram ter as fotografias da minha vida? E quantas também não foram as transformações que imprimi nas fotografias que vi? Há como uma transformação mútua, se elas me fizeram outras, também transformei as fotografias, seus sentidos e histórias.”

© Sofia Dellatorre Borges

© Sofia Dellatorre Borges

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4 Comments »

  • Cristianne de Sá said:

    … é mais ou menos por aí… resultado prático de uma fotografia?Há sempre uma violência! Salve quem puder reverter o clik… outros continuam restos…

    Bom texto!

  • Elisa said:

    ótima essa história. Não poderia haver melhor linguagem para fazer esta ponte.

  • Sueño de la Razón « Fotoclube f/508 said:

    [...] via Paraty em Foco [...]

  • Marcos Simon said:

    Uma fotografia que só circula em seu Gueto (diga-se de passagem burguês), só pode transformar a conta bancária de seus autores e mecenas.
    É uma ilusão achar que a fotografia brasileira (ou até mundial) praticada atualmente possue alguma função de transformação social. Não existe nenhum meio de comunicação eficaz atualmente que dê espaço para a (F)otografia, a não ser a Internet (e ainda sim a adesão à esta ótima ferramenta é limitada para muitos)
    A realidade de quem vê de cima do topo de seus apartamentos é muito diferente de quem está nas ruas.
    A produção de uma fotografia engajada existe, mas não existe por onde escoar com extrema eficácia. A mediocridade impera.

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