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Que bela foto!, por Rodrigo Braga

Alexandre Belém 1 setembro 2009 1.056 visitas 7 Comments

Nesta série pinçada do Flickr do Fotógrafos do Paraty, Weimer Carvalho usa um gesto simples para produzir

estranhamento e significados. Brinca com a identidade na tradição do retrato e ainda

parodia o artista americano John Baldessari

Que bela foto!

Por Rodrigo Braga

Toda fotografia é uma farsa. Em maior ou menor grau, toda imagem é uma construção do fotógrafo, e todas as escolhas e elementos contidos no quadro são passíveis de leitura e interpretação. Mesmo no fotojornalismo, sabemos que a imagem é um misto do acontecimento, do referencial (ou seja, do objeto fotografado) e das intenções do fotógrafo. Ainda que essas “intenções” não estejam para ele muito claras no momento do click, não podemos negar que elas são parte do repertório da formação daquele indivíduo fotógrafo, seja profissional ou amador.

Peço licença aqui para abordar um assunto que, em parte, foge ao tema da entrevista para qual fui convidado no Paraty em Foco (fotografia e auto-representação). Digo “em parte” pois também quero dizer da minha própria prática para exemplificar meu pensamento.

Nos últimos meses venho refletindo bastante sobre os riscos de uma “bela” foto. Para além do discurso de que a beleza é algo muito subjetivo e de que isso não se discute, consideremos aqui aquele belo que está culturalmente entranhado no hábito do ver do homem ocidental e midiático, ou seja, aquilo que, no meio dessa profusão de imagens do mundo contemporâneo, agrada aos olhos de uma maioria. Falo do prazer estético do olhar, daquele gozo retiniano que nos acomete ao vermos uma imagem bem estruturada, equilibrada, fartamente colorida ou bem desenhada nos velhos moldes da fotografia em preto e branco. Nesse sentido, faço questão de incluir a minha própria obra nessa abordagem, uma vez que minha formação e inicial atuação como desenhista e pintor foram fundamentais (e muito) para construir minha identidade enquanto fotógrafo nos dias de hoje. Sobretudo na série Paisagens (2008), percebi o quanto fotógrafo como um pintor. Embora não busque objetivamente estruturar uma imagem sobre qualquer parâmetro clássico pré-definido, a realização de uma fotografia esteticamente bem resolvida acaba sendo inevitável, dada minha influência do universo artístico mais tradicional. Cada um ao seu modo, nesse mesmo contexto talvez nos encontremos todos nós, fotógrafos, que treinamos nosso olhar a fim de lançar ao mundo mais uma imagem significativa, tocante, enfim. Contudo, o que diz uma “bela” foto para além de um prazer estético mais imediato? Além do fator de atração seria também a beleza um elemento dissonante em potencial? Ou, ainda, poderiam ser criados outros padrões de beleza diferentes daqueles já estabelecidos?

É certo que os incríveis avanços tecnológicos da indústria fotográfica vêm facilitando a vida dos fotógrafos, sejam eles iniciantes ou veteranos. Com as estonteantes definições e recursos das câmeras profissionais (e até das amadoras) atualmente encontradas no mercado somadas às infinitas possibilidades de edição e “ajustes” de pós-produção, convenhamos que não é muito difícil se escolher uma imagem de qualidade dentre aquelas inúmeras que nossos cartões de memória sem fim conseguem armazenar e os velozes computadores podem processar. Daí não faltam comentários elogiosos dos nossos pares quando publicamos ao mundo nossas criações nas plataformas online de compartilhamento de dados – como o Flickr, por exemplo. Mas o que percebo, em muitos casos, é um esvaziamento das possibilidades cognitivas contidas em muitas imagens. É como se o elevado grau de beleza acabasse por abafar qualquer rompante de poder simbólico de uma imagem. Ou, pelo outro lado, aquelas imagens que fogem às “regras da boa imagem” costumam ser lidas com estranhamento e repulsa pelo público ou mesmo pelo sistema no qual estamos inseridos.

Volto agora à “intenção do fotógrafo”, que abordei no início, para deixar uma reflexão neste texto em aberto e repleto de dúvidas: o que de fato queremos enquanto fotógrafos? Seria arrebatar o público com prazeres estéticos imensuráveis? Seria arrancar elogios dos nossos colegas de profissão e amantes da “boa” imagem afim de nos tornarmos respeitados? Seria produzir para nosso bel prazer e, quiçá, mostrar aos demais nossas “crias”? Seria ter uma intenção simbólica e política clara? Seria simplesmente fotografar ou seria mais que isso…?

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7 Comments »

  • rodrigo lobo said:

    são questões realmente muito pertinentes… o que queremos afinal?

  • Weimer Carvalho said:

    Rodrigo, muito obrigado pelo texto! Fiquei muito surpreso em ver meu trabalho aqui.! Abraços!

  • Cia said:

    Oi Rodrigo, obrigado pelas questões?

    Ultimamente estamos com o Livro das Perguntas, de Pablo Neruda, em mãos, para uma ajuda na construção de um recorte da fotografia brasileira, que teremos que defender em um encontro na Bolívia. Vc sabe do evento, pois vc faz parte dos trabalhos que serão apresentados.

    "E como se chama este mês que fica entre Dezembro e Janeiro"

    "Onde está o menino que eu fui? Está dentro de mim ou se foi?

    Sabe que jamais o quis e que tampouco me queria?

    Por que andamos tanto tempo crescendo para nos separarmos?

    Por que não morremos os dois quando minha infância morreu?

    E se minha alma se foi, por que me segue o esqueleto?"
    (Pablo Neruda)

    Hoje a Ilustrada trás nosso Moacir dos Anjos falando da Bienal: "Um evento político e capaz de mudar o modo como se experimenta o mundo"

    E é por isso que agradecemos suas questões. Não respondê-las é um exercício maior de experimentação. Ou então, nos colocarmos em uma espécie de resposta silenciosa que se faz quando lemos as perguntas de Don Pablo. Um silêncio que responde sem arestas e coletivamente.

    Um jeito de saborear dúvidas e questões.

    Grande abraço, obrigado por seu trabalho e por suas ideias.

  • Rodrigo Braga said:

    Pio e meus caros da Cia,
    O momento que vivemos na fotografia brasileira (e mundial) é de nova conformação, aquele momento em que as dúvidas importam mais do que as certezas. São tantas as interfaces possíveis (com a antropologia, a política, as artes, a tecnologia, etc) que nos deixam tontos. Mas para quê se preocupar tanto? Não há mais “estilos”, “escolas”, “o” fotógrafo daqui ou dalí. Há estilhaços por toda parte e nos resta experimentar, criar, transgredir. E estar com uma “parabólica na cabeça” não significa que não possamos buscar sentidos também em nós mesmos. Pessoalmente defendo uma produção prazerosa, ainda que guarde sentidos cognitivos possíveis.
    Meu abraço.
    Rodrigo.

  • maria helena maia said:

    Sendo a realidade uma sucessão de imagens fragmentárias , os artistas sao os que tem as condições objetivas de dar a esse fluxo imagético uma realidade palpável.. despertando assim, consciências, enriquecendo simultaneamnte nossa existência individual e o coletiva.

  • Paraty em Foco 2009 » Blog Archive » Na Bolívia, uma revista de fotografia said:

    [...] é a representante do conselho editorial e apresentou, para o primeiro número, os trabalhos de Rodrigo Braga, João Castilho, Breno Rotatori, Sofia Dellatorre Borges e Claudia Andujar, além de um ensaio em [...]

  • Ivã Coelho said:

    Poxa, que texto fantástico. Estou dando uma pausa aqui na frente do computador pra refletir. Muita coisa importante nisso aqui, nas palavras e nas significâncias do Rodrigo. Assim como seu tralho, suas palavras são sementes que plantas no terréneo certo, vão poder germinar aos montes. Estou sempre em pergunta íntima se o que faço ou tenho tentad fazer com a imagem fotográfica é o que qro fazer.

    Todo dia é isso. Pq simplesmente não me sinto inserido no mercado das imagens mega-perfeitas e não me levam aos recônditos da alma pra pensar em algo. Incomodam-me essas imagens vazias. Também sinto falta de idéias e conceitos nas fotos que vejo, de histórias pra ler e me entreter, arrebatar-me. Poucos fotografam idéias. Eu confesso q tenho medo de colocar diante da lente as idéias e que tb é difícil entrar gente disposta pra bancar uma idéia comigo, mas estou cada vez mais imbuído de levar mais significações para o que eu faço nas fotos, sem medo de, por isso, mostrar o que realmente sou/acredto/venero/odéio. Vida longa ao Rodrigo e a todos os organizadores do Paraty em Foco e de todos os outros festivais que bucam, alem de falar das novas lentes, dos novos sensores etc., preocupam-se em discutir e fomentar idéias ao redor do tema fotografia . Obrigado.

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