Sobre processos e icebergs
Existem vantagens muito grandes em perceber-se dentro de um processo inicial.
Quando somos estudantes temos essa clareza mais presente, ou pelo menos deveríamos. Em grupos de estudo buscamos o introdutório para depois esmiuçar um assunto e assim buscamos o aprendizado.
Esse é o poder de ser aprendiz, como colocado pela Cia no post sobre Breno Rotatori (agora reconhecido pelo Prêmio Porto Seguro). Mas o melhor disso tudo é que esse passo inicial não está apenas na identificação universitária, mas também nessa busca por um crivo pessoal naquilo que produzimos, como se o auto-referenciamento em uma história fosse o clímax do que começou como referenciação pura, somatório de processos ingeridos e, agora, digeridos.
Nesse momento se descobre que o tal início não é apenas uma linha, mas etapa de um processo e é nesse insight que reside a compressão do que já foi caminhado. Permeado pela vastidão de ferramentas, técnicas, processos, métodos e possibilidades, o caminho então vira experimentação, busca, e compreensão para que se atinja algum domínio dessas variáveis (ou o que a cada um subjetivamente será o seu ideal de domínio). Podemos então abandonar a primazia do debate técnico para adentrarmos conscientes no discurso sobre conteúdo: o que contém e o que está contido.
Como disse Rosangela Rennó por aqui: “pois estou muito impressionada com uma certa mudança do “foco” das discussões sobre as imagens técnicas, principalmente da fotografia. Não se discute mais, tanto, as questões técnicas, do meio fotográfico. Hoje a discussão está muito mais voltada para o conceito e isso me interessa pois estou curiosa pra ver onde tudo isso vai dar”. Podemos discorrer então sobre o que somos dentro do que fazemos e não simplesmente sobre como fazemos.
Inerente ao processo de criação está a edição, essa coisa que nos força a compreender o que fazemos fora de nós, quase um flutuar que flerta com o velho embate pela síntese. Segundo o compositor americano Philip Glass esse processo é gradativo e respeita alguma espécie de naturalidade. “Para mim é desesperador assistir a um jovem tentando conceituar a compreensão de sua criação antes de desenvolvê-la” e termina entregando seu próprio processo “nas minhas sinfonias, lá pelos últimos atos, alguma coisa acontece que me faz entender ah, era sobre isso então que eu compunha… a espera é luta pela complementação da angustia”
Mas e se no fotograma não couber o que se quer narrar? E se removermos essa condicional e lidarmos com essa questão de forma temporal, transformando a questão em e quando?
O momento atrás da objetiva, escondido no processo mecânico, protegido de exposição até quando a obra é dita final se perde por completo? Mas se se perde, quem perde? Quem fotografou ou quem vê a fotografia?
É como se a obra fosse a representação física do clichê do iceberg, aqueles 10% visíveis e a latência escondida, submersa, não eclodida. O que era o momento atrás do momento? Quanto importante é essa não fotografia? Como ela pode eclodir, emergir, transparecer?
Enquanto a resposta não chega sobram pensamentos alheios que acalmam a angustia preenchendo lacunas, como Jack Kerouac que enaltece a melhor das características desse iceberg em On the Road: “Estávamos maravilhados, deixávamos a confusão e o absurdo para trás, e executávamos a única função nobre de nossa época: manter-se em movimento. E nos movíamos.”
Com o benefício do inexplicável tudo isso me lembrou a melhor descoberta fotográfica do ano: Lina Scheynius e seus momentos que extravasam o que é fotografia.
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meninos, obrigada pela referência!
a descoberta do trabalho da lina foi o melhor momento do dia!
Oi Malu, tudo bom?
Lina é uma paixão realmente coletiva na garapa!
Amo essa coisa da fotografia dela ir além do que se vê, mas mostrar um pouco do quanto ela estava naqueles lugares, compartilhando os mesmos momentos com as pessoas que fotografa.
Acho que é essa intimidade fotográfica que, embora me motive um crise atual, é em si uma própria motivação.
"Mas e se no fotograma não couber o que se quer narrar? E se removermos essa condicional e lidarmos com essa questão de forma temporal, transformando a questão em e quando?"
Oi Leo, eis toda busca!
Um livro bem foda sobre, O OBVIO E O OBTUSO, do "amigo"Barthes:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura...
[...] leitura, um bom passeio, para o feriadão. Meu destaque, no momento, é o post do Garapa, “Sobre processos e icebers“, como sempre coisa fina desses [...]
OI Leo, tudo bom?
…..É como se a obra fosse a representação física do clichê do iceberg, aqueles 10% visíveis e a latência escondida, submersa, não eclodida. O que era o momento atrás do momento? Quanto importante é essa não fotografia? Como ela pode eclodir, emergir, transparecer?
Com a proposta "a terceira margem do tempo fotográfico… o território da fotografia… O FestFotoPoA vai buscar o debate. Por exemplo, questionar a forma como o “instante decisivo” foi colocado para o público, de uma forma até meio pobre e reforçando a obviedade do disparo fotográfico e tirando do Bresson qualquer ligação com o que acontece hoje. Na verdade podemos ver o que acontece hoje na fotografia/arte contemporânea em uma boa parte do trabalho do Bresson. Queremos trabalhar um workshop/mesa de “não fotografia”, tendo como ponto de partida "a foto se faz foto quando vista por alguém". Exacerbando esse conceito, estamos propondo a realização de trabalhos fotográficos que não seriam “relevados” nem quimicamente, nem eletronicamente, nem oticamente (ou seja, filmes e cartões de memória contendo fotos realizadas e não vistas por ninguém, inclusive seus autores. A partir desse “acervo” de não fotos”, abrir os debates de possibilidades, tendo como ponto de partida o imaginário já criado pelo(s) fotógrafo(s) convidado(s) a fazer essas fotos. Vamos convidar três fotógrafos para essa experiência e que o trabalho deles seja inserido no festival nesse workshop/mesa de debate e que os debates circulem dentro das características de cada um deles.
Vou te enviar o e-mail que enviei para quem estou convidando para organizar essa questão.
abração
Carlos Carvalho
Olá Leo, Comandante Carlos Carvalho!!
O trabalho da Lina e acima de tudo muito BOM!!! Mais vcs estão levantando umas paradas muito profundas…Vou ter que dar uns goles em uma boa Vodka PURA daquelas Boas!!! depois dar uns "tapas" em um oregamo e depois volto…rsrsrs!!
Oi Ivaldo
Pega essa garrafa, bota debaixo do braço e vem pra Parati!!
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