Foam Magazine, por Juan Esteves
O número 20 da Foam (International Photography Magazine) é dedicado aos jovens talentos espalhados por alguns lugares do mundo, como Itália, Holanda, Inglaterra, Japão e, inclusive, o Brasil. É… O Brasil, por onde a editora da revista e curadora do Museu de Fotografia de Amsterdam (Foam), Marloes Krijnen, está andando e conversando com fotógrafos, curadores, críticos e produtores culturais.

A capa da nova Foam vem com o trabalho do holandês Anouk Kruithof
Na recepção, oferecida à curadora pelo Cônsul Geral do Reino dos Países Baixos, esta semana, Marloes se mostrou animada com a produção brasileira e com a internacionalização da cultura fotográfica – e até mesmo espantada com o vai-e-vem de fotógrafos de renome e o alto padrão dos trabalhos e livros, publicados por aqui. Também, de certo modo, ficou surpresa por ver essa atividade toda envolver, em muitos dos eventos que aqui acontecem, países como a Espanha e a França. Ela prometeu se empenhar em estreitar os laços entre o Brasil e a Holanda.

Marloes, no primeiro dia de leituras de portfólios do PHotoEspaña, em São Paulo
A Foam Magazine é publicada trimestralmente – pelo museu do mesmo nome e pela empresa de comunicação Vandejong, também com sede em Amsterdam. As edições são temáticas – como esta dedicada ao talento jovem – e normalmente trazem seis portfólios, analisados por diversos editores. Como diz o também curador do Foam Museu, Marcel Feil, normalmente estas análises oferecem muitas surpresas. Segundo ele, a escolha de um tema garante uma coesão conceitual, bem como uma forte ligação entre os trabalhos e prevenindo, de certa maneira, que as escolhas sejam arbitrárias (SIC).
Mas o quê define o talento? Este é o título da apresentação do curador Feil. Bom, de cara ele já se desculpa pela revista não conter – evidentemente – todos os talentos que gostaria de publicar (apesar deste volume ser duplo, com suas 286 páginas). Cada fotógrafo teve oito páginas para expor seu trabalho, em vez das 16 usuais. No entanto, o número de fotógrafos pôde ser maior, com 18 portfólios, em páginas que mudam de papel conforme o trabalho demanda. O formato 23cm x 30cm e a boa impressão garantem a honestidade de uma análise.
Krijnen afirmou que os editores olharam nada menos que 900 portfólios, oriundos de 56 países. Coube ao blogueiro Jörg Colberg entrevistar os 18 fotógrafos. Em seu site, há um link para a leitura de portfólios. A escolha de Colberg conduziu a um processo extremamente rico de entendimento, que dificilmente as imagens sozinhas produziriam – não que elas precisem de legendas, mas é muito mais interessante quando o processo criativo de cada um é questionado e/ou discutido.
A pluralidade exibida pela publicação – em toda sua riqueza – é um exemplo para a crítica, que chafurda em sua mediocridade mascarada de ortodoxia. A prova que o pensamento aberto é fundamental na expansão da cultura fotógrafica ratifica essa necessária condução, afinal os tempos de dogmas e absolutismos já se foram. Diferentes artes são capazes de conviver harmoniosamente, propostas diametralmente opostas navegam nas mesmas águas, aquelas que acolhem a mente aberta e criativa.
Sob a bela imagem da série Lote Vago (Vacant Plot), do mineiro João Castilho – o brasileiro da edição – está em destaque um excerto que resume o forte apelo e desejo dos jovens de marcar a presença no mundo da arte, de apresentar coisas novas e boas, em meio a uma sociedade que é movida pela velocidade das mudanças, da publicidade excessiva, lotada de imagens e cheia de problemas econômicos.

João Castilho é o brasileiro desta edição da Foam
Não há dúvida que estes jovens, que tem no máximo têm 35 anos, trazem um ar mais fresco para se respirar. Uma ansiedade positiva, mas não há dúvida também que esta geração é fruto de uma mutação veloz, promovida pelo caos contemporâneo e que às vezes não encontra amparo e até mesmo legitimidade em seus trabalhos. Mas, quando acertam… O resultado é como a excelente escolha feita pelos curadores holandeses.

Uma das fotos de João Castilho, publicada na Foam
Um dos trabalhos mais interessantes e emblemáticos da publicação, uma vez que não podemos analisar 18 portifólios neste texto que se avoluma, é o de Alexander Gronsky, Less than one. Conduzido naquele mesmo caminho tomado por Thomas Struth e Richard Misrach, o estoniano Gronsky, de 30 anos, trabalha como os anteriores, a paisagem. No entanto, sua proposta, assim como os demais, é muito conceitual e carregada nas entrelinhas.
Curiosamente, Gronsky, em sua entrevista, declara ser influenciado por Stephen Shore – fotógrafo entrevistado também na publicação e que de certa maneira, diverge um pouco dos anteriores. Para Colberg, o entrevistador, a solidão das paisagens quase desertas falam de maneira subliminar com o espectador. Para ele a impressão é que estamos perdidos. Gronsky revela que começou a série com o nome de “Lost”, mas depois descobriu que as outras regiões onde fotografou tinham menos de uma pessoa por quilômetro quadrado. Daí o título (“menos que um”, em português).

Uma das imagens do portfólio de Alexander Gronsky
O que a fotografia significa para Gronsky (e quem sabe, para outros dos fotógrafos selecionados e para muitos da minha geração também) está expresso no último parágrafo de sua entrevista: “Like japanese haiku, it is pointing to the pointless. And very much like hokku, a photograph to me is just a starting verse of some forgotten song”*
*“Como o haikai, fotografia é falar sobre coisas sem motivo de ser. E, como o haikai, uma fotografia, para mim, é apenas o verso que abre alguma canção esquecida”
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.
Fotos: divulgação e Adelaide Ivánova
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