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Imagens do sagrado, por Juan Esteves

[ Estúdio Madalena | 11 dez 2009 | 3 Comments | 1.563 visitas ]

Neste seu segundo livro Imagens do Sagrado, lançado em setembro de 2009, o fotógrafo Fernando de Tacca, doutor em antropologia pela USP e livre-docente do Instituto de Artes da Unicamp, debruçou-se em dois casos interessantes envolvendo publicações que marcaram época: a revista francesa Paris Match e a revista brasileira O Cruzeiro, que traziam trabalhos produzidos por dois fotógrafos: o brasileiro José Medeiros (1921-1990) e o francês Henri-Georges Clouzot (1907-1977). O ponto central foi o registro jornalístico do candomblé, apresentado em duas grandes reportagens.

Reportagem da Paris Match, publicada em maio de 1951, com fotos de Henri-Georges Clouzot

Reportagem da Paris Match, publicada em maio de 1951, com fotos de Henri-Georges Clouzot

Como introdução, candomblé é muitas vezes confundido como religião, mas, numa explicação mais prosaica, é o lugar onde se realiza uma liturgia onde a autoridade maior é o chamado “Pai- de -Santo” ou “Mãe-de -Santo”. De origem africana, abriga uma hierarquia própria e não ortodoxa que se distingue da cultura judaico-cristã disseminada no Brasil. Por isso, há tempos, a sua propagação sempre se encontra envolta em mistérios e polêmicas, gerando discussões ou digressões de diferentes variantes, como este interessantíssimo estudo sobre o assunto.

Premiado por vários trabalhos, e também criador e editor da Revista Studium, uma das referências brasileiras do pensar imagético, o antropólogo escolheu o confronto midiático que aconteceu em 1951 entre as duas grandes revistas, tendo como cenário o candomblé na cidade de Salvador. Através deste “embate” internacional versus nacional, da seriedade versus sensacionalismo, nos conduz por uma saborosa história, sem academicimos, mas não menos que amparada por uma pesquisa ampla e séria.

Em sua narrativa, ele também traz coadjuvantes importantes:o francês Roger Bastide (1898-1974), sociólogo que integrou o corpo docente da recém criada USP, em 1938, e autor de obras fundamentais como As Américas negras: as civilizações africanas no Novo Mundo (Edusp 1974); o jornalista pernambucano Odorico Tavares (1912-1980), responsável, entre outras coisas, pela primeira exposição de arte moderna na Bahia; o cineasta carioca Alberto Cavalcanti (1897-1982), cuja carreira se desenvolveu na Europa e o etnólogo e fotógrafo francês Pierre Verger ( 1902-1996), um dos principais estudiosos da cultura africana.

Reportagem de O Cruzeiro, publicada em setembro de 1951, com fotos de José Medeiros

reportagem de O Cruzeiro, publicada em 1951, com fotos de José Medeiros

As reportagens “Le possédées de Bahia” (As possuídas da Bahia), da Paris Match, publicada em maio de 1951 e “As noivas dos deuses sanguinários”, de O Cruzeiro, publicada quase cinco meses depois, criaram polêmica no meio religioso e entre a intelectualidade brasileira. A reportagem estampada em O Cruzeiro chegou a dificultar a vida da mãe-de-santo Riso da Plataforma, protagonista da história que narra o “ritual da iniciação” no candomblé. Ela foi hostilizada pelos seus pares por ser condescendente com a reportagem, apesar de uma vida inteira dedicada a religião.

Tacca refaz o percurso em busca dos sobreviventes da reportagem, esclarecendo o que aconteceu com eles à época, entrevistando filhos e amigos, retomando textos publicados à época, bem como dirimindo uma sucessão de erros, publicados por muitos autores desde então.

A partir de pesquisa de campo com personagens encontrados, descendentes de outros já desaparecidos e coadjuvantes que acompanharam o período, o antropólogo levanta material iconográfico e bibliografia inédita, além de conduzir o leitor a uma verdadeira aula de pesquisa antropológica. Tacca também revive, de maneira didática, o que era o fotojornalismo das revistas de entretenimento da segunda metade do século 20. Material farto para qualquer um que tenha interesse histórico pelo tema, não precisando ser especialista em nenhuma das abordagens.

Tanto Medeiros quanto Clouzot representavam publicações que, guardadas as proporções, foram as líderes de sua época e traziam um certo sensacionalismo em seu conteúdo (basta ler os títulos das duas matérias). A Paris Match foi criada em 1949 por Jean Prouvost. O nome veio do jornal semanal Match que pertencia a ele desde 1938. Originalmente era dedicado aos esportes, mas foi tranformado numa revista de notícias e entretenimento.

Durante a Segunda Guerra, o jornal deixou de ser publicado, reaparecendo em 1949 já com o nome Paris Match. O formato era semelhante a americana LIFE: combinação de muita foto e notícias. A primeira edição, publicada em 25 de março de 1949, trouxe o ex-primeiro ministro inglês Winston Churchill na capa (dois anos depois ele voltaria a ser o lider inglês, até 1955). Até o final dos anos 50, a revista fez muito sucesso, mas o surgimento de outras revistas e a competição com a televisão provocou uma queda nas vendas. Em 1958 tirava 800 mil cópias, reduzidas para menos de 600 mil em 1975.

O Cruzeiro aparece como a primeira revista de circulação nacional em 10 de novembro de 1928, editada pela Empresa Gráfica Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Curiosamente, seus primeiros números, por questões de qualidade, foram impressos na Argentina. A revista existiu de 1928 até 1978 e era o que chamamos hoje de “revista de variedades”. Como a maioria das semanais atuais, um balaio que misturava publicidade e notícias, reportagens interessantes com matérias pagas, que ora adulavam ora detonavam políticos da ocasião, dependendo de suas conveniências.

Como a francesa, também imitava a americana LIFE. No início apresentou um layout diferente do comum, no Brasil, com imagens grandes e abertas em página inteira. Suas concorrentes eram Careta, A Cigarra, Para Todos e a Fon-Fon!, entre outras. Apesar da circulação nacional, a revista era bem ligada ao Rio de Janeiro e tirava 48 mil exemplares em 1942, chegando a 300 mil em 1949. Foi nela que, já aos 14 anos, Millôr Fernandes assinava sua antológica coluna com pseudônimo de Vão Gogo.

A fórmula da dupla “fotógrafo e repórter” ficou famosa com o francês Jean Manzon (1915-1990) e o paulista David Nasser (1917-1980), em meados dos anos 40. Sucesso que seria repetido mais tarde com a Manchete. Há quem diga que a expansão de grupos fortes como Abril e Bloch, bem como o maior alcance da televisão, contribuiram para o fim da revista. A pesquisadora Nadja Peregrino em seu livro O Cruzeiro, a evolução da fotorreportagem (Dazibao,1991), levanta a questão da revista perder público por abusar de matérias pagas.

Na década de 70, O Cruzeiro retoma um certo fôlego nas mãos do jornalista Alexandre Von Baumgarten, até fechar defitivamente em 78. O jornalista teria um suposto envolvimento com orgãos de informação da ditadura e foi encontrado morto no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, em outubro de 1982. Baumgarten teria sido eliminado pelos militares, em circustâncias até hoje nebulosas, que envolviam alto escalão do Exército. Em fevereiro de 1983 a revista Veja publica que o jornalista teria deixado um documento, de 1981, dando sua morte como certa e acusando dois generais graduados ligados ao SNI.

A história da Paris Match parece guardar outras semelhanças com a publicação brasileira. Em 1976 ela se recuperou quando foi comprada pelo editor Daniel Filipacchi e hoje pertence ao grupo Hachette Filipacchi Medias, que por sua vez pertence ao Lagardère Group, que possui, entre outras coisas, indústrias aeronáuticas que abastecem o mundo militar com aviões e mísseis. Esta – nem tão estranha- combinação de informação e poder militar, na verdade, está nas mãos de pouquíssimos ao redor do planeta. Especula-se que as maior parte das editoras do mundo são controladas por apenas um ou dois grupos.

José Medeiros transformou sua reportagem em Candomblé, publicado em 1957 , onde adicionou cerca de 22 imagens. O livro foi reeditado em 2009 pelo IMS Instituto Moreira Salles (leia resenha aqui), com mais acréscimos . Aliás, as datas entre a reportagem e a publicação do livro frequentemente promovem confusão. Por exemplo, no catálogo da exposição José Medeiros de 1997, com curadoria de Rubens Fernandes Junior, no Itaú Cultural, uma das imagens muitas vezes publicada depois da reportagem original de 1951 aparece com uma legenda datada de 1957. O mesmo erro, segundo Tacca, é visto na edição comemorativa dos 50 anos da Abril, em 2000 – e o que é pior, no próprio livro José Medeiros – 50 anos de fotografia, edição da Funarte, que acompanhava a retrospectiva de 1987.

Foto de José Medeiros

foto de José Medeiros

Clouzot, quando veio ao Brasil para fazer sua reportagem, já era um cineasta conhecido por vários de seus filmes, inclusive um sobre Pablo Picasso. A Paris Match alerta: “Pela primeira vez um branco pode penetrar no santuário dos deuses negros, onde se praticam os ritos sangrentos de iniciação. É a primeira reportagem fotográfica do grande diretor Clouzot”. Publicação com prioridade mundial, segundo a revista. Pelas poucas imagens reproduzidas, podemos notar semelhanças entre os trabalhos. De cara, o fancês sai perdendo – afinal, Medeiros transforma sua matéria em um livro, onde, aliás, orienta o leitor para os procedimentos rituais e nomenclaturas da liturgia africana.

Como o francês, Medeiros também era próximo do cinema, ao qual passou a se dedicar desde 1965. Trabalhou como fotógrafo de filmes importantes como Xica da Silva, de Cacá Diegues e A falecida, de Leon Hirszman, entre outros. Para ele, a reportagem de Paris Match não mostrava o verdadeiro “candomblé”, por isso se dedicou ao assunto. Naquela época, os fotógrafos tinham grande autonomia para suas pautas. Conta o antropólogo que um repórter como Medeiros tinha status de celebridade em qualquer lugar do Brasil.

Fernando de Tacca esclarece que seu objetivo é discutir as mudanças de significação do material colhido, aprofundando a análise das narrativas nos meios impressos em que foram publicadas. No entanto, Imagens do Sagrado é muito mais que isso. Com dois grandes autores e duas grandes revistas, expande o alcance de sua pesquisa para horizontes muito mais largos que o acadêmico . Suas entrevistas, seu roteiro de trabalho, suas anotações de viagem e suas análises antopológicas – e também imagéticas – adornam, antes de tudo, uma narrativa com viés de uma grande reportagem bem feita, que não só esclarecem as duas reportagens originais, como ampliam substancialmente seu entendimento.

Serviço
Imagens do Sagrado – Entre Paris Match e O Cruzeiro, de Fernando de Tacca. Editora da Unicamp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Isbn 978-85-268-0848-5. O livro está à venda no site da Editora da Unicamp, por R$ 40.

Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.

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