Sertão sem fim, por Juan Esteves
Há algumas décadas na liderança editorial, após de ter criado sua própria editora e se tornar um best-seller inconteste em livros de fotografia – são mais de 40 publicados – o catarinense Araquém Alcântara festeja seus quase 40 anos de profissão voltando-se para suas raízes cromáticas e dedica mais uma edição inteira ao preto e branco: Sertão sem fim, lançado no último dia 15, em São Paulo.

Não é simples rever tonalidades de cinza para quem passou a maior parte do tempo trabalhando o espectro da cor e todas suas nuances – primeiro nos tradicionais cromos, depois no vasto range digital –, e produzir uma retomada à película monocromática*, encontrada nas 176 páginas de mais um portentoso e bem impresso livro, com 90 imponentes imagens.
(*O primeiro livro de Araquém Alcântara, lançado nos anos 80, foi totalmente em branco e preto, impresso numa acanhada brochura e chamava-se Santos. O livro (hoje esgotado) era uma visão da cidade paulista, que o fotógrafo adotou e onde começou sua carreira. Em 1992, ele publicaria, com o mesmo nome, uma versão mais alentada, mesclada em cor. O segundo livro em p&b foi Brasileiros, de 2004).

Segundo o autor, as imagens de Sertão sem fim foram geradas em filme rápido tradicional, com câmera mecânica e lentes fixas. Alcântara também produz uma obra cuja maior parte das imagens são inéditas, difícil tarefa para quem já publicou tantos livros. No entanto, parte do mérito desta muito bem cuidada edição deve-se também à parceria com Eder Chiodetto, fotógrafo, crítico e curador que, além do texto de apresentação, participa da edição das imagens. (Chiodetto foi responsável por mostras que marcaram o ano de 2009: Olhar e fingir – a coleção M+M Auer, no MAM de São Paulo e A invenção de um mundo, com obras da Maison Européenne de la Photographie no Itaú Cultural, entre outras).
O distanciamento crítico das imagens, revisto por alguém sem envolvimento passional com elas, torna o resultado mais interessante. Não há histórias pessoais que desviam o caminho da edição mais aguda, aquelas que lidam subliminarmente com as fotografias e por consequência não atingem o leitor menos arraigado à temática ou aos meandros de seu fio condutor. O resultado é um conjunto que surpreende até mesmo os familiarizados com a sintaxe de Alcântara e suas extensas monografias.

A pós-produção digital, às vezes exagerada, reforça os carregados tons de cinzas e pretos, mas não compromete seu conteúdo. Pelo contrário, serve de suporte para o autor conduzir seu corolário, o que fica explícito em poderosas imagens desde o início. Um confronto que, paradoxalmente, extrai da dureza do sertão brasileiro uma ampla poesia gráfica, cujo conjunto impresso em papel italiano Garda Pat é digno de nota.
A dosagem entre natureza externa, rica, brilhante e gráfica faz o contraponto com os interiores de penumbra ou chiaroscuro que ressaltam o assombro humano. O mesmo relato que dignifica o mundo exterior, traduz em poucas nuances tonais o embate diário do habitante sertanejo. As rugas encontradas nos rostos têm o mesmo fio cortante daquelas vistas nas montanhas.

Embutido em grande parte de sua obra e discurso pessoal, Alcântara volta mais uma vez ao seu caráter messiânico, o qual – como não poderia ser diferente – faz parte da liturgia sertaneja. A revisão do mediano sertão não produz mais uma publicação do gênero, e sim algo cujo caráter próprio e contundente é ressaltado a priori. A figura do vaqueiro que já começava a nausear, de tão repetida, adquire contornos frescos, retoma sua pompa, se inscreve novamente em sua circunstância peculiar.
Em seu percurso, estão o norte de Minas Gerais, os interiores de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Bahia e Ceará. Segundo o fotógrafo, lugares intocados, que não se encontram no mapa, rasgados pela fome, pela seca, pela luz dura e impiedosa. Foram dois anos de trabalho, um deles apenas na preparação da edição, que traz um projeto gráfico de Victor Burton surpreendentemente limpo, sem suas tradicionais firulas.
O sertão de Araquém Alcântara “é um sertão circular”, como bem aponta Eder Chiodetto. É um território simbólico, como atenta em seu poético texto. Também é peculiar e único, como escreve Walnice Nogueira Galvão.
Walnice é professora de literatura comparada e, entre outras coisas, tem em seu currículo a edição crítica de dois pesos pesados da literatura nacional: Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909) e Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1908-1967). Não bastasse estas credenciais (que sacramentam a publicação de Alcântara), Walnice também já publicou cinco livros sobre Guimarães Rosa, além de outros trinta títulos.

No livro de Alcântara, a professora discursa amealhando diferentes publicações e iconografias substanciosas, que se tornam um prazer à parte: o belo retrato de Euclides da Cunha, feito em 1903 e pertencente ao centro da memória da Academia Brasileira de Letras, e o retrato (infelizmente sem crédito) do cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981) dirigindo Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964.
Sertão sem fim é um conjunto, que se torna um excelente guia dos sertões, das artes e da boa literatura brasileira.
Serviço
Sertão sem fim, da Editora Terra Brasil. Formato: 30 cm x 31 cm. Tiragem: três 3 mil exemplares. Preço: R$ 120 (capa dura) ou R$ 140 (edição de luxo). O livro foi patrocinado pela empresa Qualicorp.
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog. Para ler outros livros de Araquém Alcântara, resenhados por Juan Esteves, clique aqui.
Todas as fotos deste post são de Araquém Alcântara.
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