Fotografia em revista, por Juan Esteves
Sem dúvida, um beijo na boca entre duas mulheres não escandalizam mais como aconteceu em 1973 entre Maria Bethânia e Gal Costa durante um show, imagem registrada por J.Ferreira Silva. Também, os seios à mostra da jovem Gal na imagem do mesmo ano, feita pela fotógrafa Marisa Alvarez Lima, são fichinha perto dos mesmos mostrados décadas depois pela cantora durante um show ao vivo. O corpo muda, a realidade muda, os fotógrafos mudam e a fotografia, principalmente, continua a mudar, é o que mostra Fotografia em Revista, publicado pela FAAP e Editora Abril.
Quase 60 anos de imagens publicadas em revistas como ELLE, Estilo, Manequim, Claudia, Nova, Quatro Rodas, Veja, Playboy e Realidade, entre outras, foram editadas e selecionadas pelo curador e professor Rubens Fernandes Junior, Diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado, com a ajuda de Thomaz Souto Corrêa e Carlos Grassetti (ambos da Editora Abril), para o livro e a exposição – que ficou de maio a julho de 2009 no Museu de Arte Brasileira.
Apesar do cabotinismo de Roberto Civita, dirigente da editora, em sua apresentação – “a mais fascinante seleção de imagens publicadas na imprensa brasileira nos últimos 60 anos” – a publicação traz fotografias para todos os gostos. Das fantásticas reportagens da excelente e saudosa Realidade, às elaboradas ilustrações para a culinária da revista Claudia. Das históricas imagens da outrora brilhante revista Veja, aos efêmeros corpos nus que um dia frequentaram as páginas de Playboy. Dos espetaculares lances esportivos de Placar às pasteurizadas imagens de Nova e VIP.
A publicação por sua característica inerente é quase saudosista. Afinal, entre tantas imagens, vemos personagens que sumiram, retratados por fotógrafos que também desapareceram. As mudanças da atualidade acentuam a melancólica idéia de que este já foi um país melhor. Contudo, boa parte da história contemporânea brasileira, seus acertos e mazelas estão ali presentes, fotografadas ora com muita maestria, ora de maneira medíocre, não importa o gênero. Imagens que ficaram para sempre, e outras que precisamos de legenda para saber do que se trata. Personagens permanentes e outros esquecidos, que hoje só existem – ou são lembrados – na publicação.
Agrupando imagens por autor, parte da mais antiga para a mais recente do mesmo. Para os editores isso ajuda a notar o percurso de cada fotógrafo, bem como de sua linguagem. Entretanto, nem sempre o caminho mostrado pode ser considerado como uma evolução do mesmo. Infelizmente em alguns momentos, justamente o contrário é que fica acentuado.
As reproduções em pequeno formato das páginas das revistas também revelam que o design gráfico registra o mesmo sintoma, a começar pelo próprio livro que exibe um diafragma de objetiva como um logo. Nada mais estereotipado. Mas, em certos momentos vemos que o espaço da imagem foi muito maior e a diagramação mais ousada. Em outros vemos que, com o passar dos anos certos fotógrafos estacionaram no seu maneirismo, enquanto outros permaneceram com o viço inabalado.
É interessante notar que enquanto muitos políticos sumiram da cena, certos fotógrafos também. Simplesmente mudaram de ofício, abandonaram a carreira ou passaram a fotografar menos. Caso de Antonio Ribeiro, um dos melhores fotógrafos brasileiros, que saiu da Veja no início dos anos 90 para uma carreira internacional de sucesso na agência francesa Gamma. Vivendo em Paris, Ribeiro hoje praticamente só escreve para sua antiga revista. Também há aqueles que pararam de fotografar em troca de uma função burocrática e nunca mais sairam dela.
Otto Stupakoff, David Drew Zingg, George Love, J.B.Scalco ou Flávio Cannalonga, que morreram ao longo destas décadas, deixaram imagens eternas em nosso imaginário. É uma pena que a publicação falhe no registro biográfico dos autores. Quem quiser saber “quem está fazendo o quê” – ou se simplesmente saber se fulano está vivo – tem que apelar para pesquisa noutro lugar.
O saudosismo presente em imagens como o retrato do artista plástico Wesley Duke Lee, feito por Claudia Andujar em 1970 para extinta revista Setenta nos faz pensar que a arte contemporânea carece de grandes criadores como ele. Por certo as imagens do então sindicalista Lula, feitas por Pedro Martinelli em 1979, nos fazem questionar como foi possível ele ter se tornado presidente da república. Os retratos de José Sarney e de Zélia Cardoso de Mello, registrados por Orlando Brito e o de Fernando Collor de Mello, feito por Claudio Versiani, geniais fotógrafos que passaram pela editora, nos mostram que, às vezes, a nossa história é mesmo uma enorme piada, ainda que muito bem realizada fotograficamente.
Algumas imagens revelam também que certos gêneros ainda continuam imbatíveis em seus arrojados registros. Sejam os indígenas de Claudia Andujar, Luigi Mamprin ou Rosa Gauditano; os artistas de Jean Solari, Bubby Costa ou Armando Rozário; as peladas de Antonio Guerreiro, Paulo Rocha ou Márcia Ramalho; a moda de Isabel Garcia e os retratos de Lew Parrella e Eduardo Simões, apenas para citar alguns. No entanto, outros autores (especialmente aqueles da área de entretenimento) se tornaram tão datados e similares que fica difícil distinguir a autoria.
Mas nem tudo de bom que passou pela Abril parou no tempo ou se burocratizou. Luis Crispino, J.R.Duran, Luiz Garrido, Ricardo Beliel, Clicio, Rui Mendes, Egberto Nogueira, Claudio Edinger, Cris Bierrenbach, Izan Petterle, Luciano Candisani, Marcio Scavone e Cristiano Mascaro, entre outros que não aparecem no livro, provaram – e ainda provam – que para produzir uma boa publicação é necessário um profissional de talento. E este, não depende de modismos e nem piora com o tempo.
Fotografia em Revista – Edição Faap/Editora Abril.
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.
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Grande Juan.
Belo texto, como sempre.
A expo eu não vi, mas o livro é um documento muito importante da nossa, quase sempre triste, história.
O genial é puro exagero do amigo.
Gde ab.
claudio, obrigado pela visita e pelo comentário!!
Mais que merecido Claudio!
E, seja dito, um dos poucos documentos a reunir esta quantidade de informação. É claro que por virtude do espaço outros excelentes profissionais não tiveram a justa menção, mas estão lá! Também, mais uma grande pesquisa produzida pelo mestre Rubens Fernandes Junior, um dos poucos a mapear com dignidade a nossa história!
abraço!
Também não ví a exposição, mas pelos nomes citados (e, infelizmente, os não presentes na mostra) é possível avaliar que foi um grande exposição. E cabe uma pergunta: por que não mostra-la em outras cidades do Brasil?….O mais difícil já foi feito…..Coisas da nossa, como disse o Claudio Versiani, quase sempre triste história.
Juan, parabéns pelo texto.
abs
Americo Vermelho
Pois é Americo, obrigado pela leitura e comentário e principalmente pela sugestão! A mostra circulando pelo Brasil seria uma ótima oportunidade, já que o material está pronto. Fica ai a proposta ao Rubens Fernandes Junior!
Aproveitando os "nomes citados" repassei a listagem e gostaria de emendar o post e incluir outros importante: Olívio Lamas (1948-2007), Pisco del Gaiso, Ricardo Chaves, Leonid Streliaev, José Pinto, Feco Hamburger, Armando Prado,Ricardo Teles, Sergio Sade, Ronaldo Kotscho, Salomon Cytynowicz, Jorge Rosemberg, Ivson, Vânia Toledo, e… (imperdoável gap da minha parte ) meus mestres queridos Walter Firmo, German Lorca, Maureen Bisilliat e Luiz Humberto, entre mais de 150 fotógrafos.
Também, além dos presentes na mostra e livro, passaram pelas páginas da Abril outros grandes profissionais, cujas imagens não foram arquivadas ou se perderam no Dedoc da empresa ( é…se perderam mesmo…) , não permitindo sua localização na pesquisa.
abraços!
Juan
[...] This post was mentioned on Twitter by iatã cannabrava, Alexandre Urch. Alexandre Urch said: RT @iatas: juan esteves no blog do paraty, sobre o livro fotografia em revista: http://bit.ly/97twPQ [...]
Achamos bem interessante o post, parabéns!
Falando em fotografia, a Sony lançou recentemente a campanha "Distâncias", falando sobre as novas câmeras Sony Cyber-shot. A campanha foi produzida por uma equipe inteira brasileira depois de muito anos, e foi gravada com as próprias câmeras semi-profissionais da marca.
Nós fizemos os bastidores de toda a campanha que foi grava na Itália e no Egíto, da uma passada no nosso site e assista!
http://www.avesso.com.br
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Grande abraço,
Programa Avesso.
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