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Robert Polidori, por Juan Esteves

[ Estúdio Madalena | 22 jan 2010 | No Comment | 808 visitas ]

No dia 26 de abril de 1986, técnicos e engenheiros da usina atômica de Chernobyl (cidade ao norte da Ucrânia), estavam fazendo um teste de segurança no reator nº 4 . A ideia era ver até aonde o reator aguentaria em caso de uma falha de energia. Ou melhor, se o resfriamento do reator se sustentaria. O que não se esperava aconteceu: Os preparativos dos testes desestabilizaram o reator, mas o engenheiro de plantão e o engenheiro chefe resolveram ir adiante. O resultado desta irresponsabilidade, o maior acidente nuclear da história, ainda reflete mais de vinte anos depois.

Capa de <em>Zones of exclusio – Pripyat and Chernobyl</em>, de Robert Polidori

Capa de Zones of exclusio – Pripyat and Chernobyl, de Robert Polidori

É essa reverberação que foi transformada em imagens pela câmera de grande formato do fotógrafo canadense Robert Polidori, e trazida à luz neste estonteante livro Zones of Exclusion – Pripyat and Chernobyl, de 2003. Obra com requinte igual ao seu Havana, publicado pela mesma editora, a Steidl. Em 1967, quando tinha apenas 17 anos, Gerhard Steidel começou trabalhando como designer e impressor e em 1972 publicou o primeiro livro pela sua editora, Befragung zur documenta (ou “Questionando a Documenta”).

Pripyat é a cidade próxima a Chernobyl onde moravam a maioria das pessoas que trabalhavam ou dependiam da usina para viver .Toda região num raio de 30 km teve que ser evacuada e esta área ficou chamada “Zona de Exclusão”. Excetuando algumas poucas pessoas que controlam o que havia sobrado da usina (o último reator foi desligado em 2000) , somente às pessoas idosas foi dada a permissão (oficial) de retornarem a suas casas, ou para o que sobrou delas.

Foto: Robert Polidori

Foto: Robert Polidori

Após o acidente, as autoridades transportaram os moradores para Slavutych, cidade a 45 Km de Pripyat. Para lá também foram cientistas e trabalhadores da usina. Ainda hoje a cidade é controlada por guardas em seu perímetro urbano. Em 2005 contava com 25 mil habitantes aproximadamente. Em janeiro de 2009, Viktor Yushchenko, presidente da Ucrânia, e Alexander Lukashenko, presidente de Belarus (Bielorrússia) assinaram um acordo para facilitar o trânsito de especialistas, inclusive estrangeiros, entre a cidade e a nova usina Chernobyl.

As imagens de Polidori, produzidas em maio de 2001, são de um requinte técnico que, em conjunto com a realidade quase inimaginável, tornam-se próximas do que seria uma “realidade construída”, para se usar um termo de análise. A diferença deste fotógrafo para os outros como Jeff Wall e Philip- Lorca di Corcia, é que Polidori não criou nada, não imaginou nada, não usou casting nenhum. Suas imagens são verdadeiras e a cada página ficam mais desconcertantes em virtude da magnitude do evento.

Logo após o reator de Chernobyl ter se tornado instável, deficiências de engenharia básica e ações atrapalhadas dos operadores levaram a uma explosão, seguida de uma onda radioativa. Uma outra explosão levou para os ares o teto do edifício da usina. Combustível e pedaços da estrutura em chamas criaram múltiplos incêndios. Grandes partículas cairam na vizinhança e uma nuvem radioativa ganhou a atmosfera e foi carregada pelo vento, se espalhando pela Ucrânia, Belarus, Rússia e outros lugares da Europa.

Pelas fotografias Polidori confronta o leitor a cada página, perguntando qual o preço de buscar esta tecnologia. São escolas onde as cadeiras e estantes estão amontoadas, se destacando das paredes descascadas que diferenciam um abandono comum. Os restos de construções se espalham pelos gramados e pela mata do entorno, lembrando a ameaça que atinge também a natureza.

Foto: Robert Polidori

Foto: Robert Polidori

Os hospitais fantasmas de suas fotos (que até mesmo nos remetem a realidade de muitas cidades brasilerias descuidadas pelo poder público) parecem mais recentes, como as raras imagens que vimos dos ataques americanos no Iraque. A “exclusão” das imagens de Polidori está muito longe daquelas frequentemente adocicadas e montadas que, para o leitor desatento – ou para aquele que se deixa iludir – simulam uma realidade inexistente.

A ausência da presença humana na maioria das imagens é que nos confronta com algo muito maior e mais complexo – e também, mais desesperador. Embora, às vezes, parece que vamos ver um corpo na página seguinte, como nas boas imagens de fotojornalistas como James Nachtwey, Alexandra Boulat (1962-2007), Ron Haviv ou Antonin Kratochvil.

As poucas pessoas que aparecem são os técnicos que ficaram cuidando do “sarcófago”, uma estrutura de concreto que enterrou o plutônio radioativo juntamente com o lixo e detritos de metal, entre uma quantidade enorme de combustível. Mais de 200 toneladas de urânio e uma tonelada de plutônio estão lá embaixo, como uma bomba relógio, aguardando uma solução melhor.

Polidori não nos deixa esquecer que tudo isso não acabou. Sua denúncia através de imagens imaculadas encontra eco nos trabalhos, nos quais a arte imaginada encontra a realidade não imaginada, como o do fotógrafo californiano Richard Misrach e suas imagens dos campos de testes nucleares nos desertos americanos. Não foram apenas os ucranianos que cometeram estes absurdos.

Sobre seu livro anterior, Havana, escrevi que Polidori procurava extrair não somente a arquitetura que existiu, mas de certa forma, nos incitava a descobrir as almas que vagam por estes vestígios. Há em suas imagens esta sensação. Vemos um hospital destruído, mas as imagens nos levam a imaginar médicos e enfermeiras trabalhando como se o lapso do tempo não existisse. Nas carteiras das escolas abandonadas podemos “ver” os alunos estudando.

Mais de 116 mil pessoas foram obrigadas a deixar Pripyat nos 10 dias que se seguiram ao acidente. O esforço de recolocar os moradores não foi completo. Mesmo com a radiação, muitos deles retornaram para buscar seus pertences, levando de volta consigo objetos contaminados. No total, mais de 350 mil pessoas tiveram que sair de lá, e desde 1995 elas estão voltando aos lugares inseguros. O problema é que, para eles, não se trata apenas de radioatividade. A situação econômica os obriga a retornar, e eles se alimentam de peixes, gado e frutas silvestres contaminados. A pobreza e o drama ecológico conspiram para empurrá-los de volta. Até mesmo os jovens retornaram em grandes quantidades, e uma parte significativa deles votou pela reabertura da usina em 2002.

Rios contaminados, cemitérios de carros e casas fantasmas em torno da região, registrados pelo grande formato acurado que realça as nuances das cores desbotadas. Detalhes produzidos pela película de fino grão que expelem as veias e cortes da destruição, não são apenas objetos inanimados. São um libelo em favor de uma herança melhor, um alerta para humanidade. Este mesmo alerta escrito na lousa de uma escola abandonada de uma das fotos. “Não há mais volta. Adeus. Pripyat, 28 abril 1986″.

Zones of exclusion – Pripyat and Chernobyl, livro de fotografias de Robert Polidori. Editora Steidl. ISBN3-88243-021-1. Freebok: freebook@freebook.com.br

- Texto publicado em maio de 2006, no Fotosite, e atualizado para o blog do PEF.

Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.

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