Cinco perguntas para Marcia Foletto

© Foto de Marcia Foletto. Exército revista crianças na entrada da favela Santa Marta. Rio de Janeiro, 1994.
Hoje, às 19h, o Projeto Sexta-Livre, do Ateliê da Imagem, traz a fotojornalista Marcia Foletto para conversar com o público e exibir cerca de 150 fotografias de ensaios pessoais, publicados ou não, que mostram o homem na sua luta diária pela sobrevivência. Gaúcha de Santa Maria e radicada no Rio de Janeiro, Marcia trabalha para o jornal O Globo desde 1991. Em 1995, recebeu o Prêmio FINEP de Fotojornalismo por uma foto de crianças sendo revistadas por soldados do Exército, em uma favela carioca. A fotógrafa venceu também o Prêmio CNT de Fotojornalismo duas vezes e participou de várias exposições coletivas e individuais. Leia a seguir uma entrevista com a fotojornalista Marcia Foletto:
FR: Nessa projeção você pretende mostrar um panorama dos seus 20 anos de carreira, qual foi o critério de escolha das imagens?
É, 20 anos de carreira são alguns milhares de fotogramas… Escolhi imagens de acontecimentos importantes neste período e boas fotografias que marcaram acontecimentos. Vou mostrar uma retrospectiva com o que eu considero mais interessante e também alguns ensaios pessoais que venho desenvolvendo.
FR: Como você vê essa mudança de paradigma da fotografia do analógico para o digital?
Lembro que quando as primeiras câmeras digitais chegaram na redação eu tentei fugir delas. Me assustava a idéia da fotografia não ter um veículo concreto, paupável como o negativo. Também tinha medo de não conseguir armazenar a produção e perder arquivos com fotos importantes. Coisa do passado. A qualidade da fotografia digital hoje mostra que os negativos eram limitados em alguns aspectos. Hoje temos mais velocidade, capacidade e facilidade de manusear arquivos digitais. A espera angustiante pelo revelação do filme, a fotometragem errada, a economia de material, o fim disso tudo foi positivo para o fotógrafo. De resto, a câmera não mudou, a relação com o que se vai fotografar não mudou e a ética também não mudou.
FR: Uma retrospectiva é um momento de rever sua própria trajetória, o que mais te marcou no fotojornalismo?
Uma coisa que fui aprendendo nestes anos todos foi a importância de ficar invisível na cena. Interferir o mínimo possível na imagem, fazer com que sua presença não seja percebida. Quanto menos o fotógrafo for notado, mais interessante e autêntica será a fotografia. Isso nem sempre é possível no trabalho intenso e estressante do jornal, mas é uma busca. Mas é claro que alguns momentos deixam marcas. É impossível não chorar com uma mãe que perdeu o filho ou reagir ao ver uma criança em situação degradante.
FR: Como você vê a situação dos fotojornalistas hoje no Brasil, mercado de trabalho, salário, etc?
A grande discussão hoje é a atuação dos “fotógrafos leitores”. O avanço da tecnologia digital democratizou o acesso as câmeras fotográficas. É difícil encontrar alguém que não tenha uma câmera, nem que seja no celular. Acontece, tem alguém fazendo um clic. Isso é bom por um lado, pois conseguimos imagens de qualquer acontecimento. O mundo inteiro recebeu uma enxurrada de imagens dos atentados ao WTC, inclusive a do primeiro avião batendo na torre. Por outro lado, os jornais e agências já contam com estes “fotógrafos de ocasião” e deixam de contratar ou enviar seus profissionais. Às vezes deixam até de publicar uma boa fotografia de alguém da equipe para apenas prestigiar a do leitor. Como consequência, o fotógrafo é desvalorizado, os salários são baixos e é pouco o investimento em equipamentos. É difícil encontrar um caminho neste quadro, mas acho que os fotógrafos devem buscar um trabalho diferenciado e assim como pautas mais elaboradas.
FR: Você tem algum projeto em andamento?
Tenho tocado paralelamente ao jornal um projeto já antigo sobre “filas” e um outro novo, que estou desenvolvendo em comunidades carentes, sobre o uso diverso, incompleto ou não tradicional dos materiais na construção nas casas.

© Foto de Marcia Foletto. Helicóptero da polícia é abatido a tiros por traficantes. Rio de Janeiro, 2009.
O Ateliê da Imagem fica na Av. Pasteur, 453. Urca, Rio de Janeiro. Telefone: 2541-6930. Entrada franca.
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