O acidente e o incidente
O fotógrafo inglês Matt Stuart está em cartaz na galeria KK Outlet, em Londres, com o trabalho Look both ways. Matt clicou, durante oito anos, as ruas de Londres – em fotos que são, segundo ele, “felizes acidentes”. Matt perambula pela ruas da capital da Inglaterra com sua Leica, clicando o que acontece em sua frente. O resultado são imagens simpáticas, daquelas que dão uma piscadela para o espectador.
Mas o que mais dá “vontade de conversar sobre”, em relação ao trabalho de Matt, é a colocação que ele fez em entrevista ao site da Dazed. Nela, ele deixa claro que “nenhuma das fotos foi produzida. Se tivessem sido, eu não teria levado oito anos para reunir este material”. Dá para entender mais o seu ponto de partida – e as ideias que defende –, quando ele explica que decidiu virar fotógrafo depois que ganhou do pai dois livros – um de Robert Frank e outro de Henri Cartier-Bresson.
O que Stuart defende, é exatamente aquilo a que Bob Wolfenson dá de ombros: “Sou da turma da mentira”. Calma. Antes de você achar que Bob sofre daquela síndrome que a pessoa mente sem nem sentir (Pseudolalia é o nome, a gente olhou no Wikipedia!), explica-se:
Na seção “A foto que eu queria ter feito”, que Alexandre Belém publicou ontem no seu Olhavê, Bob elege um clique de Ruth Orkin como a imagem que ele queria ter sido o autor. E explica suas razões: “(…) há um moralismo na busca da intangível verdade. Ruth Orkin anteviu a cena, sacou a câmera e pediu a girl americana que passasse de novo. Teatro puro, fotografia genial, nada fora do lugar”.
Dividir a fotografia em apenas dois times (e sempre tentar derrubar o adversário para a segunda a divisão) é um hábito meio “Opus dei” da fotografia contemporânea, que se auto-flagela com questionamentos que não levam à próxima rodada.
Por exemplo: discutir o fator “espontaneidade” dos cliques de Robert Doisneau quase tirou o mérito do fotógrafo e de suas imagens, que são sempre um gol de placa.
Aí fica impossível de não nos perguntarmos: o método importa, se não é ele que aparece na foto?
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Gostaria de lembrar a série do Alexandre Orion, Metabiotica!! bem pertinente aos dois assuntos…
Também, palmas para o Bob!! Poucos fotógrafos assumem o que pensam! Menos ainda, o fazem de maneira tão corajosa e honesta!
[...] This post was mentioned on Twitter by Raquel Santos, Ivo Sangaloito. Ivo Sangaloito said: texto sobre fotografia produzida vs. não produzida, que o ivetão fez no blog do paraty em foco http://migre.me/jq5O agora vou nebulizar xau. [...]
Creio que na fotografia as coisas dependem muito da proposta. Se a proposta é produzir o resultado, que seja honesto dessa forma. Se for retratar o acidental, que a honestidade do click impere também.
Não existe imagem "verdadeira". Uma imagem, foto, é sempre uma ficção da realidade.
Alguem ai quer definir realidade?
Uma foto produzida pode definir muito melhor uma determinada "realidade" enquanto uma foto sem ser "produzida" pode ser interpretada de maneira totalmente ambigua, preconceituosa, etc.
O grande Boris Kossoy deixa isso bem CLARO em sua trilogia (genial): Fotografia & Historia; Realidades e Ficções na Trama Fotografica; Os Tempos da Fotografia, o Efemero e o Perpetuo.
Viva Mr, Bobsom, quando fala a verdade dizendo: "Sou da turma da mentira".
Namaste.
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