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Outros critérios, por Juan Esteves

[ Estúdio Madalena | 12 fev 2010 | 2 Comments | 985 visitas ]

O público precisa de arte? Ou seria a arte que precisa de um público? Ou melhor ainda, a arte é para todos? A arte contemporânea necessita de um significado? Há um significado nela? Ela realmente significa alguma coisa para alguém? Ou será que nada disso é necessário e não precisamos explicar nada! Talvez essas idéias todas não denotem um sentido imediato, contudo amarradas em diversos textos embalam significados importantes que atormentaram por décadas Leo Steinberg, professor e crítico de arte moscovita naturalizado americano, um dos mais importantes do século 20.

Hoje, apesar de mais de três décadas de sua publicação, Outros critérios – Confrontos com a arte do século XX (Cosac Naify, 2008) ainda é um livro de extrema importância, em que pese as mudanças que ocorreram na arte contemporânea mundial. Alterações que nem sempre, diga-se de passagem, são positivas. Mutações que nem mesmo se parecem como tal, como o aforismo que diz ser preciso mudar para se manter tudo igual. São treze ensaios, escritos entre 1955 e 1972, que para esta edição brasileira teve um prefácio especial elaborado pelo autor, que aos 88 anos ainda tem a energia de rever partes deles, numa espécie de alerta aos seus leitores mais jovens ou prosélitos.

Essa introdução denota atenção a certas revisões, como por exemplo os esboços de Picasso para a obra Le Demoiselles (na primeira edição o escritor lista 18 apenas, agora corrigindo para além do milhar). Emprego de expressões que à sua época faziam sentido e que, para ele, hoje, não fazem mais – como “homem de letras”, que distinguia os bacharéis em meio à multidão da arte. Hoje, apenas homens! Apesar de, às vezes, sentir-se irritado com as transformações, Steinberg matreiramente recorre a James Joyce (1882-1941) e diz que “A culpa é da história” (“It seems history is to blame”, em Ulysses).

As alterações de início servem apenas de alerta, pois o texto mantém sua versão original. Também o autor discute a transição intelectual e moral destas mais de três décadas que distam de seu lançamento. Uma delas, observa a mudança nos costumes da tal burguesia quando se questiona, por exemplo, se a opção sexual de Michelangelo Buonarroti é importante ou não para compreensão de sua obra. Quando a vida privada deve ser mantida como tal ou quando ela é um fator de interrogação no conteúdo artístico. Steinberg vai além num contraponto genial: nos anos 60 era mais fácil se discutir socialmente a vida sexual do que uma experiência religiosa. Hoje, parece que mudamos.

Entre esses embates – sugeridos pela passagem do tempo e pela alternância de conceitos morais e éticos – ainda se encontra mais viva do que nunca a ótica de um pensador privilegiado. A edição brasileira, ainda que tardia, é significativa e pertinente, pois mesmo com alguns highlights na arte internacional, a grande maioria da arte brasileira ainda carece de um alcance mais vantajoso, seja em sua literatura ou na ocupação de espaços significativos.

Estes “outros critérios” analisados por Steinberg, surgiram primeiramente numa edição da revista americana Artforum, em 1972, na forma de artigos. Estes, por sua vez, vieram de uma palestra feita alguns anos antes, em 1968, no MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, Estados Unidos. O fotógrafo John Coplans (1920-2003), na época editor da revista, pediu um texto a Steinberg, então professor de História da Arte na Renascença da Hunter College. Este mandou um extrato de “Other Criteria”. Na verdade, o título dos artigos publicados foi outro: “Reflections on the State of Art Criticism”.

Para a historiadora da arte Katy Siegel, também professora na Hunter e colaboradora da Artforum, os artigos de Steinberg visavam uma maneira do mesmo se opor a uma crítica formalista, notadamente praticada pelo famoso crítico de arte Clement Greenberg (1909-1994). Ela cita as palavras de Steinberg sobre a pressão sentida pela influência do importante crítico: “Greenberg dizia que, para uma pessoa inteligente, a preocupação com a obra de arte simplesmente não existe”. Para o autor, naquela ocasião, uma geração de jovens críticos foi influenciada por Greenberg: Rosalind Krauss (antes de se virar contra o mestre) e Michel Fried, entre outros.

Hoje, alguns críticos afirmam que Steinberg foi pioneiro numa interpretação pluralista, que ele incorporou a análise formal a um conteúdo emocional, trazendo para estes o contexto histórico e incluindo a própria produção da crítica. O que, na verdade, em latu sensu, se tornou uma prática geral nos anos que se seguiram.

A publicação do artigo na Artforum pegou tanto os historiadores da arte quanto os críticos no contrapé, aqueles que já tinham o formalismo crítico como algo que carecia de uma revisão. Na verdade, um formalismo inadequado para uma arte mais moderna, aquela que surgia nos anos 60 e que tomaria corpo e forma mais consistentes na década de 70, passando a incorporar a fotografia de maneira mais frequente. É neste fluxo que estão suas melhores digressões, uma das primeiras voltadas para o jovem artista Jasper Johns, que décadas depois, se tornaria o ícone da arte americana e um dos mais importantes na arte mundial.

“Jasper Johns: Os sete primeiros anos de sua arte” foi publicado originalmente na revista Metro, em 1962. Para versão brasileira, a avaliação da literatura crítica anterior foi revista e ampliada. No mais, o ensaio é o mesmo, concluído em 1961. A nota no rodapé, alerta que “1961” é o marco para referências ao trabalho “recente” de Johns. Portanto, apesar de pertinente à vida do artista americano, nascido em 1930, algumas comparações se tornam necessariamente carentes de uma nova angulação diante da projeção da obra de Johns nos últimos anos.

No que é pertinente à fotografia, esta carência é principalmente sobre sua relação próxima com Robert Rauschemberg (1925-2008) que seria interessante. Curiosamente em uma das obras do artista, exposta no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, um retrato de Johns passa desapercebido, entre tantas fotografias utilizadas em suas belíssimas litografias. Absurdamente, não há nenhuma indicação na legenda. A mostra, imperdível, fica em cartaz até 21 de fevereiro.

Ainda no ensaio, temos uma referência pinçada já no primeiro parágrafo deste texto: a arte precisa significar alguma coisa? Uma referência a obra “Liar” (mentiroso), produzida por Johns em 1961, a grosso modo, uma tela abstrata com a palavra escrita e seu reflexo. Steinberg pergunta se é necessário que isso tenha um significado. Seria apenas um dispositivo útil? Ou é apenas uma pintura com um “pouquinho de provocação dadá ”.

Contudo, para o historiador, somos sofisticados demais para aceitar a provocação de uma palavrinha.

Os argumentos de Steinberg são fortes. Não no sentido de destruição de seu conteúdo, mas na sua construção. Não se direcionam a gerar polêmicas, mas sim, contra elas. Para o crítico brasileiro Thiago Mesquita, o historiador busca uma redefinição não formalista da arte moderna. “Tenta voltar-se às obras, entender os elementos com que elas lidam e entender as questões mais inocentes que estas obras suscitam”. O próprio Steinberg, num texto recente, declarou: “Hoje, me sinto mais formalista do que qualquer outro.”

A questão de Johns utilizar em sua obra temas banais como letras, bandeiras, cabides, é de certa forma metafórica. Ele faz uma pergunta: por que teria o artista escolhido temas de um desinteresse tão agressivo? Para o crítico, o percurso desenvolvido por um jovem artista (não podemos esquecer que o rabugento Johns tinha apenas trinta anos) é como tatear o caminho num quarto escuro atulhado de coisas. Quando ele começa andar, tropeça no sofá de outra pessoa, muda de direção para colidir com a cômoda de alguém, depois tromba com uma mesa de trabalho que não pode ser desarrumada. Tudo tem seu uso e seu usuário.

Ver as pinturas no lugar do assunto é realmente possível? Para Steinberg, meio século de formalismo não conseguiu afirmar que sim. Para provar seu ponto de vista ele enumera cerca de oito temas em torno das escolhas de Jasper Johns, até 1958 (ano de sua primeira exposição pública) e discute cada caso atentamente. Infelizmente, como é um livro priorizando seu conteúdo escrito, as imagens a que o autor recorre padecem de uma impressão e de um papel que permitissem ao leitor, não familiarizado com as obras citadas, conhecer em mais detalhes as tais referências.

Em “Outros Critérios”, nome homônimo de um capítulo, o autor resolve se divertir ao comentar o mercado de arte, baseado numa reportagem da revista de economia americana Fortune, originalmente uma palestra no Museu de Arte Moderna de Nova York-MoMA. Para os jornalistas, discorre Steinberg: “Há três tipos de oportunidade de investimentos: os grandes mestres, pinturas que se classificam abaixo dos grandes mestres e aqueles sujeitos a especulação ou valorização. Todos investimentos para o futuro”. Onde outrora havia o romantismo do colecionador, entra o investidor. Para o crítico, a mudança de certa forma é encorajadora: “Arte é um investimento!”, diz ele.

Como estas colocações se referem principalmente a arte de vanguarda (embora naquele tempo, e hoje, seja difícil alcançar um consenso na definição de “vanguarda”) alerta o crítico que tal atitude marcou uma virada histórica na cultura moderna. Pela primeira vez uma arte , para ele “recentemente americanizada”, é associada a dinheiro grosso. Seria maravilhoso poder ler um texto de Steinberg sobre os preços alcançados por fotografias de Andreas Gursky ou Richard Prince. Também ele teria um infarte ao saber dos preços incompreensíveis das serigrafias de Isabel Milhazes.

A grande mudança no cenário artístico de Nova York acontece com Robert Rauschenberg, no início dos anos 50. Para Steinberg, enquanto o expressionismo abstrato celebrava suas vitórias, Rauschemberg propunha uma grande tela chapada. Uma nova ordem, uma nova experiência para se lidar. Também o mesmo analisa outras experiências propostas pelo grande artista, como as exposicões ao sol de papeis sensíveis, entre outras que envolviam fotografias e seus derivados.

(Ainda na mostra do Tomie Ohtake, um ótimo filme onde ele aparece emulsionando suas fotografias a pinceladas, bem como o depoimento do fotógrafo Cristopher Rauschemberg, filho do artista. Já no site Lens Culture, tem uma interessante matéria, envolvendo Eugene Atget (1857-1927)).

Depois de sua praia mais próxima, e seus vizinhos novaiorquinos, o autor se aventura aos comentários sobre o artista malaguenho Pablo Picasso (1881-1973). Seu ponto de partida são as figuras deitadas, que dormem sendo observadas, um dos assuntos recorrentes na obra do artista. Entre outras coisas, passeia pela biografia e cronologia do pintor, analisando aquarelas, gravuras e esboços do mestre.

Steinberg avalia que o tema “Observador e adormecido” é retomado pelo artista por volta de 1920, e localiza a recorrência em alguns de seus trabalhos. Inclusive, encontra nelas o alter ego de Picasso. Para o crítico – que, não podemos esquecer, também é historiador – estas reuniões de adormecidos e observadores ocorrem também na arte antiga, representando encontros inesperados ou deleitáveis: “Ninfas sonolentas são descobertas por sátiros lascivos”. Contudo, afirma ainda que os artistas do Renascimento complicaram os destinos do sono.

Ao longo das páginas, fica claro que os argumentos colocados por Steinberg são multi-facetados. Para a historiadora Katy Siegel, o crítico nunca pretendeu ter uma visão única, onipresente, queria “ser pluralista para eliminar todo pluralismo”. De certa forma, ele nunca legislou fora das preocupações mais formais, mas apenas contra aquelas que eram baseadas somente nisso. E é por este caminho, mais expandido, que ele amalgama Rodin com Monet ou De Kooning com Jackson Pollock, no correr de outras tantas deliciosas páginas.

Num mundo onde fotografias de estantes de supermercados chegam aos patamares dos milhões de dólares em casas de leilões como Sotheby’s ou Christie’s – onde floreios inconsistentes e cafonas em serigrafias alcançam alguns milhares de reais, e onde curadores assinam convites com fontes maiores daquelas empregadas nos nomes dos artistas – a leitura de Steinberg ainda é fundamental. Mesmo através destas nefastas mudanças, dos desvios do verdadeiro sentido da arte, ou para ser mais moderno, do vazio que institucionaliza exposições de grande vulto, suas avaliações são mais que pertinentes, nos fazem olhar para trás, mas nos revelam o que está lá na frente, mesmo que possamos não gostar do que iremos ver.

Leo Steinberg. Foto: Divulgação

Leo Steinberg. Foto: Pamela Blackwel/Divulgação

Sobre Steinberg
Leo Steinberg, nasceu em Moscou, mas passou sua infância em Berlim. Em 1933 se mudou para Londres, onde ficou até 1940. Após a Segunda Guerra, refugiou-se em Nova York. Foi nesta cidade, no Institute of Fine Arts da Universidade de Nova York que, em 1960, defendeu seu doutorado, cuja tese foi sobre o arquiteto italiano Francesco Borromini (1599-1667). Entre 1962 e 1975, lecionou história da arte na Universidade Cidade de Nova York. Hoje, leciona na Universidade da Pensilvânia.

É um conhecedor da arte renascentista, da arte barroca e do século XX. Entre os personagens de seus estudos estão Filippo Lippi, Mantegna, Michelangelo, Pontormo, Guercino, Rembrandt, Jan Steen, Velázquez, além de Picasso, Jasper Johns e Robert Rauschenberg. Nada menos que 500 anos de história da arte, fazem parte do range de sua pesquisa e pensamento.

Crítico prestigiado, está ao lado de Clement Greenberg e Harold Rosenberg (1906-1988) no panteão da crítica moderna. No livro The painted world (1975), do polêmico romancista americano Tom Wolfe, os três críticos são listados como mais importantes dos que nomes como Pollock, De Kooning ou Jasper Johns. Para o autor, eles eram mais importantes para arte do que os artistas. Único vivo entre os três, Steinberg é, sem dúvida, uma das personalidades mais influentes na arte mundial e para o pensamento crítico.

Outros Critérios – Confrontos com a arte do século XX, de Leo Steinberg. Editora Cosac Naify. Apresentação de Cecília Cotrim.

Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.

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2 Comments »

  • Márcio Ramos said:

    Vamos ler Steinberg e quem sabe entender ou tenta entender por que "fotografias de estantes de supermercados chegam aos patamares dos milhões de dólares", fora outras tantas bobagens que levam o rótulo de "arte" (há mais de 50 anos), para serem esquecidas assim que seus especuladores apontarem o dedo ou seus dolares para outros "investimentos". Vivemos em uma época muito complicada…

    Salve!

  • juan esteves said:

    Caro Márcio,
    creio que nem mesmo Steinberg poderia explicar o que acontece, e me parece que você está muito bem informado, pois são os tais especuladores que determinam os caminhos! Como ficou evidente com o valor alcançado pelo "outdoor Malrboro" do Prince, anos atrás…. preço levantado artificialmente por seu galerista. E como leilões quase sempre divulgam valores diferentes do que os reais, as galerias (ou seus dealers ) não fogem a regra…. resta separar o jôio do trigo….
    E, verdade seja, dita…. não podemos achar ruim que as fotografias alcancem tais patamares, muito pelo contrário…queremos todos ganhar melhor pelo que produzimos… e, de preferência, sem adular ninguém…. melhor ainda… Sem aturar ninguém!
    saludos!!

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