A cor mais brasileira!, por Juan Esteves
Pelo Brasil, já passaram grandes artistas como o holandês Frans Post (1612-1680) ou o alemão Johann Rugendas (1802-1858), apenas para citar alguns cujo deslumbramento pela nossa cor ficou registrado em pinturas, desenhos e litografias essenciais.
Na história contemporânea, a fotografia tomou o papel dos desenhistas com fotógrafos como os americanos George Leary Love (1937-1995) e David Drew Zingg (1923-2000). Contudo, uma inglesa chamada Maureen Bisilliat aqui desembarcou, em 1952, e mudou para sempre os conceitos da fotografia, do documentarismo, do fotojornalismo e da arte brasileira.
De origem irlandesa, Sheila Maureen nasceu no vilarejo de Englefield Green, em Surrey, sudoeste da Inglaterra, em 1931. O sobrenome Bisilliat adotado – já como fotógrafa – veio de seu segundo marido, o francês Jacques Bisilliat, com quem tocou a charmosa galeria de arte popular “O Bode”, na rua Bela Cintra, em São Paulo, entre 1972 e 1992.
Como alguns dos mais importantes fotógrafos, Maureen Bisilliat começou pela arte. Já estava morando no Brasil quando, em 1955, seguiu para Paris, para estudar com o francês André Lothe (1885-1962), expoente do Movimento Cubista e que, entre outras coisas, foi professor de Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Bresson reputaria ao artista tudo que sabia sobre fotografia.
Em Paris, Maureen e a amiga Henrieta Michelson se sentiram em casa. “Fomos muito bem recebidas, pois até então, o ateliê não tinha grandes expressões definidas nas artes plásticas. Chegamos sem vícios, sem imitações”, conta. Mas Lothe era muito rígido e seco, e não poupava críticas aos alunos. A necessidade de contrapor a severidade do mestre a levou aos Estados Unidos. Foi estudar com o russo Morris Kantor (1896-1974) na Art Students League of New York .
Com mais de cem anos, a “Art League” abrigou artistas de renome – entre eles, Cy Twombly e Robert Rauschenberg (1925-2008). A escola, que existe até hoje, é famosa por unir amadores com artistas profissionais e continua sendo um nome importante na vida artística da cidade.
“Na Art League havia uma liberdade muito maior de expressão, mas não era uma farra! Se a Paris do tempo de Lothe era aquela de Jean Paul Sartre (1905-1980), para nós, jovens, o mundo se abria! New York era outro mundo também! Você ia ao East Side e encontrava com de Kooning (Willem, 1904-1997) tomando cerveja! E não era num lugar badalado! Noutro bar qualquer, Monk (Thelonious, 1917-1982) tocava! ”.
Para Maureen, naquela época o jovem tinha o direito de ser um aprendiz. A fotógrafa explica melhor: “Visitei o ateliê de Lasar Segall (1891-1957). Ele colocou os meus desenhos no chão e olhou demoradamente. O Segall dava seu tempo, olhava e opinava! Hoje não existe mais isso. Hoje todo mundo já tem que saber ser produtor!”
No final da década de 50, foi estudar com o italiano Karl Plattner (1918-1986) num ateliê no bairro do Sumaré, em São Paulo. O artista veio para o Brasil na esteira da Bienal de 1953 (II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo). No ateliê, foi colega de duas grandes artistas: a alemã Gisela Eichbaum (1920-1996) e a italiana Maria Bonomi, que por aqui também se radicaram.
Se considerando “desenraizada”, acabou se naturalizando em 1963. Vestindo sempre longas saias, sandálias e encharpes, um leve sotaque bretão a destaca como alguém de fora, embora poucas pessoas entendem de cultura brasileira como ela. Poucas têm raízes tão profundas plantadas aqui.
Ela justifica o abandono da pintura e o início de um trabalho fotográfico que a tornaria reconhecida no Brasil e no exterior: “Fiquei sem saber o que dizer a uma tela branca!”. Perdeu a arte, ganhou a fotografia? Difícil afirmar. Seu documentarismo tem muito de artístico e seu fotojornalismo não era apenas informativo. Suas reportagens instigavam, provocavam estese através de um viés até o momento muito pouco explorado: aquele cuja cor é uma forma e um conceito. Também o inusitado de suas pesquisas e suas explorações cromáticas ainda hoje desconcertam os menos familiarizados com seu poderoso vocabulário imagético.
Em 1960, ela foi a Valdívia, no sul do Chile, cobrir um terremoto para o jornal The New York Times. Depois de muito trabalho, os doze rolos de filmes que fez nunca chegaram ao seu editor em Santiago. “Curiosamente… vinte anos depois, reencontrei a pessoa que deveria ter recebido. Ela me contou que eles chegaram sete anos depois que enviei”. Uma das estranhezas da vida de uma fotógrafa que se habituou entre pajés, sertanejos matutos e com o sincretismo religioso – e, mesmo assim, ela ainda levanta as sobrancelhas, ao contar estas histórias.
De volta ao Brasil, começou fotogrando nus em casa, um hábito já dos tempos de estudante de arte, até que um amigo mineiro, José Olimpio Borges, lhe deu um exemplar de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1908-1967). “O Olimpio me disse: não sei se você vai compreender…”, lembra a fotógrafa, rindo. De fato, Maureen não só compreendeu, mas traduziu o livro de Rosa, em imagens que viraram A João Guimarães Rosa (Gráficos Brunner, 1967 -Ed. Diá 1987), fruto das viagens por Minas Gerais até 1963.
Ao trabalhar com Marcelo Tassara, fazendo um “tabletop” (imagens para animação), em 1962, foi levada pelo jornalista Audálio Dantas para a revista Quatro Rodas. Foram mais de dez anos – contando também o tempo da antológica revista Realidade – viajando pelo Brasil. Nas publicações, apareciam colegas como a suíça Claudia Andujar, o italiano Luigi Mamprin (1921-1995) e o carioca Walter FIrmo.
Um projeto paralelo, que ela chamou de “Equivalências Fotográficas” – que não tem nenhuma semelhança com os Equivalentes de Alfred Stieglitz (1864-1946) – foi posteriormente transformado em livros e envolveu a obra de escritores como Euclides da Cunha (Sertões, Luz e Trevas, Editora Raízes,1983), João Cabral de Melo Neto (O cão sem plumas, Ed.Nova Fronteira, 1984) e Jorge Amado (Bahia Amada Amado, Empresa das Artes, 1996), entre outros.
Uma necessidade de experimentação sempre marcou os trabalhos de Maureen Bisilliat. Disto, surgiram filmes como A João Guimarães Rosa, de 1969, em co-autoria com Marcelo Tassara; Yaô/Iniciação de Filho de Santo, de 1976, exibido na Bienal de Arte de São Paulo; Xingu-Terra, de 1979, longa-metragem rodado na aldeia Mehinaku e Turista Aprendiz, de 1985, baseado no livro de Mário de Andrade.
Distante do fotojornalismo, mas não do documental, em 1972 Maureen Bisilliat inicia uma relação de alguns anos com os irmãos Villas Bôas, visitando a região do Xingu com frequência, até 1977. Além do filme, a instalação na XIII Bienal de São Paulo, em 1975, também publicou a obra-prima Xingu-Terra (Ed.Cultura,1979), editado posteriormente em outros cinco países.
Marco da bibliografia fotográfica, Xingu-Terra conseguiu um feito histórico, de trazer a poesia visual ao documentarismo. É um livro extremamente bonito, bem editado e, ao mesmo tempo, repleto de informações. Maureen lida com a cor como poucos fotógrafos são capazes, motivo pelo qual, passados quase trinta anos de sua publicação, ainda não conseguiu ser superado em seu gênero.
Com o livro Sertões Luz e Trevas, a fotógrafa também marcaria sua obra no experimentalismo. Ousando mais que no anterior, criou também uma linguagem difícil de ser superada. Maureen revela que “As “distorções” das imagens foram feitas em uma noite. “Depois, eu pegava as ampliações em preto e branco e as refotografava – com a lente macro – na luz do dia, usando filmes para luz de tungstênio e vice-versa. Aí, colocava as imagens na água e fotografava novamente…”. Um exemplo, para quem teima em cultuar o tal do Photoshop.
No ensaio dos Sertões… estão imagens clássicas dos vaqueiros, copiadas ad nauseum, até hoje, que fazem contraponto com suas experiências. Para a fotógrafa, “as melhores coisas que criamos são as mais explosivas”. Contudo, ela não deixa de lado o criticismo que, na verdade, vale com uma boa lição para todos: “Às vezes, fazemos uma descoberta! E, enquanto é isso, tudo é válido! Mas, quando você quer imitar a descoberta, fica o vazio!”. Por isso, ela deixou de lado o resultado destes experimentos. Como ela diz: “Antes era uma descoberta, se eu continuasse seria apenas mais um efeito”.
As milhares de suas imagens, na maioria cromos, pertencem hoje ao acervo do Instituto Moreira Salles, IMS e estão envolvendo vários de seus pesquisadores na sua digitalização, identificação e catalogação. O livro Maureen Bisilliat Fotografias é uma tentativa de resumir seu vasto trabalho, que não se resume em experimentalismos ou no uso extraordinário da cor, apenas para citar dois aspectos.
Hoje, um pouco distante da imagem fixa e mais próxima de seus vídeos, Maureen não deixa de estar antenada na imagem contemporânea e ainda encontra tempo para participar de projetos como “De olho nos mananciais” de 2008, organizado pelo Estúdio Madalena. No projeto, Maureen coordenou um grupo na aldeia Guarani Krukutu, em São Paulo.
Sobre o futuro da fotografia: “Adorei as imagens de uma menina de treze anos feita com uma digital. Acho estas novas maquininhas interessantes”, diz ela que, logo depois nos brindar com mais um conselho: “A fotografia passa por transformações, mas… não se deve misturar às intenções, mas sim conviver com elas”.
*Texto publicado originalmente na revista Fotografe Melhor de setembro de 2008 e adaptado em 2010.
Serviço
Exposição
Maureen Bisilliat Fotografias – 200 imagens, edição da fotógrafa com colaboração dos curadores do Instituto Moreira Salles
De 02.03 a 04.07
Galeria de Arte do SESI-SP – Av. Paulista, 1313, São Paulo
Tel.: +55 11 3146-7405
Obs.: a mostra traz trabalhos inéditos, que não estiveram na exposição do IMS do Rio de Janeiro. Durante toda a mostra, haverá a projeção de Xingu-Terra.
Livro
Maureen Bisilliat – Fotografias – Edição do Instituto Moreira Salles ISBN: 978-85-86707-45-2. R$ 140,00
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog. Esta semana, excepcionalmente, mandou sua coluna antecipadamente, para divulgar o lançamento da expos de Maureen.
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dia 04/03, quinta-feira, às 18h, a fotógrafa fará uma visita guiada com os visitantes da exposição.
Juan, aquele livro que você me deu com foos da Maureen e frases do Rosa já está com todas as páginas descoladas de tanto visto e admirado. Muito obrigado pelo presente
Juva
Pensei que tinha te emprestado Juva!!
Belo livro colega! Belo livro! Sertões também é extraordinário! Ainda se encontra em algum sebo….
Este novo do IMS reúne quase tudo que Maureen fez! Tem até foto feita no Japão. Os retratos então! uma beleza a parte!
abraço forte colega !
Bela matéria! Maureen Bisilliat é sem dúvida a referência dos brasileiros para a fotografia brasileira.
Parabéns!
Obrigado Rubens! Isso nos lembra aquele documentário em filme que você está planejando há tempos! Abraço!
Juan parabéns muito boa a matéria ! Acabo de voltar da exposição e lendo seu texto aprendi mais um pouco.
abraço,
Luciana Benaduce Figueiredo
Obrigado Luciana! Estamos, todos nós, sempre aprendendo com Maureen!
Juan, parabéns pelas estimulantes matérias! Como londrinense de coração, fiquei feliz em ler "Duas vezes haruo Ohara". O vídeo que segue é uma singela homenagem que fiz aos 100 anos de nascimento do mestre Ohara. Um grande abraço!
[youtube r9H8I2rPLM0 http://www.youtube.com/watch?v=r9H8I2rPLM0 youtube]
Olá Walter! Obrigado! que bacana! Viva Ohara! abs,juan
[...] saber sobre Maureen e sua exposição, na opinião de Juan Esteves, Simonetta Persichetti e Rubens Fernandes [...]
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