Mais Brasília: expo coletiva na Casa da Luz Vermelha
A história do fotógrafo Kazuo Okubo está irremediavelmente entrelaçada à fotografia, desde o seu nascimento, em agosto de 1959. Após se casarem, os pais de Kazuo se mudaram de São Paulo para o Núcleo Bandeirante (DF). O pai, alfaiate, começou a aprender fotografia e a trabalhar para um laboratório. Pouco depois, com a mudança para Taguatinga (DF), montou seu próprio negócio: o Cine Foto Okubo. Adolescente, Kazuo ainda não tinha se envolvido com a fotografia. Até que certo dia, um cliente chegou em sua casa pedindo que fizesse umas fotos. Como seu pai estava fora, em uma pescaria, ele mesmo pegou os equipamentos e atendeu ao pedido. As fotos ganharam a aprovação do pai, que passou a encarregar Kazuo, então com 15 anos, de alguns aniversários, velórios e casamentos. Em 1979, Kazuo foi para Uberlândia (MG) cursar Engenharia Mecânica. Dois anos depois, voltou para Brasília, decidido a estudar Administração, e teve que dividir seu tempo entre a faculdade e a loja de fotografia, que passou às suas mãos pouco tempo depois, com a morte do pai. Kazuo trabalhou intensamente durante 7 anos no Cine Foto, fotografando casamentos nos fins de semana. Com o Plano Collor, a loja foi à falência. Kazuo atribui a este fato sua imersão na profissão de fotógrafo. Após muitos anos no mercado de publicidade, Kazuo tem se voltado ao mercado de arte e inaugurou, em novembro de 2009, a galeria A Casa da Luz Vermelha, que recebe a partir desta terça-feira a exposição A Casa se Mostra*.
Foto: Kazuo Okubo. Da exposição A Casa se Mostra
Quando começa o seu trabalho como fotógrafo publicitário?
Eu assisti a algumas palestras em uma feira de fotografia, entre elas, uma do fotógrafo Sérgio Jorge, que trabalhava para a Honda, Antártica, Schincariol, entre outras empresas. Passei a ir ao estúdio dele para assistir à produção das fotos e comecei a prestar atenção ao que ele fazia. Quando chegava no meu estúdio, eu experimentava. Fui tomando gosto pela coisa e comecei a cansar de fotografar casamentos.
Foto: Thomas Farkas. Da exposição A Casa se Mostra
Antigamente, no mercado de publicidade, o fotógrafo era quem se preocupava com a luz, com toda a construção da imagem, sem deixar tanto para a pós-produção. Ainda existe esse fotógrafo?
Eu não consigo ficar horas na frente do computador fazendo tratamento de imagem. A pessoa que faz esse trabalho tem uma determinada formação. Tem que saber desenhar, ter uma boa noção de direção de arte, ter criatividade, e muitos entendem de luz. Atualmente, o fotógrafo publicitário é um captador. Tem orçamentos em que o 3D e o Photoshop são mais caros que o clique. Hoje, o fotógrafo é aquele que capta partes. No entanto, existem bons captadores de imagem, outros não. Por exemplo, se a foto pede um garoto na praia, tenho que saber dirigir o menino, saber fazer, em estúdio, uma luz parecida com a luz que se teria na praia, etc. Acho que o Photoshop é uma grande ferramenta, mas tem que ser usado com bom senso. O que o Photoshop faz é o que o fotógrafo fazia antes. O melhor fotógrafo é o mais mentiroso, é o que consegue deixar o observador confuso, sem saber se a pessoa estava realmente no local ou não.

Foto: Tiago Santana. Da exposição A Casa se Mostra
Você ainda acredita no mercado publicitário?
Existe um mercado de publicidade e existem muitas pessoas que vivem desse mercado. Aqui, em Brasília, muita coisa está sendo feita. A cidade é um dos principais mercados do Brasil em questão de faturamento publicitário, estando à frente do Rio de Janeiro, por exemplo. Como fotógrafo, não sinto mais que o clique final é meu. Eu tenho “sócios”. Antigamente, quando se fazia um cromo, esperávamos o sol nascer e etc. Hoje, alguém faz a foto do sol nascendo e eu fotografo o modelo no estúdio às 14h.
O que você tem a dizer sobre a relação fotógrafo/editor de imagem?
Eu sei que faço um clique para vender uma ideia que o diretor de arte criou, que, por sua vez, ouviu o pedido do cliente. Eu me sinto fazendo pedaços, às vezes, mas não sofro mais por isso.

Foto: Olivier Böels. Da exposição A Casa se Mostra
E o mercado de arte? O que o levou até ele?
Eu acredito no potencial do mercado de arte. O mercado publicitário de Brasília mudou muito de alguns anos para cá. Desde o caso Marcos Valério, os tribunais estão mais exigentes com as agências, a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) adotou tabelas de referência. E os mercados de fotografia incharam. Meu faturamento começou a cair e eu comecei a pensar em mudanças, em outras possibilidades. O fotógrafo de publicidade é um copiador de layout. Eu faço a foto que o diretor de arte criou e o cliente aprovou, usando meus conhecimentos técnicos. Você é um fotógrafo de pedido. E ao atender às demandas dos outros, passa-se a não atender às suas próprias demandas. Eu comecei a perceber que o trabalho autoral é mais instigante. Isso começou a me dar mais prazer do que uma foto direcionada. Eu percebo que a foto direcionada é necessária na minha vida, é o que me sustenta, mas existe uma fotografia que está me interessando mais. Foi assim que comecei a pesquisar sobre o mercado de arte, sobre colecionismo e a conversar com pessoas como a Rosely (Nakagawa).

Foto: Camillo Righini. Da exposição A Casa se Mostra
Por que a escolha da Rosely Nakagawa para a curadoria d’A Casa da Luz Vermelha?
Porque ela já tem muita experiência no mercado de fotografia de arte. Eu fui para o último deVERsidade e pensei: temos que fazer alguma coisa neste nível. Então, você passa a viver em um meio de pessoas que geram muita informação. Eu tenho muito respeito pela Rosely, que vem desenvolvendo trabalhos fora do Brasil e se demonstrou aberta a colaborar. Comecei a visitar muitas galerias, no Brasil e no exterior, tanto para conhecer sobre o negócio quanto para trazer pessoas para exporem aqui. Estamos buscando várias possibilidades.

Foto: Dorival Moreira. Da exposição A Casa se Mostra
O que você aponta para quem deseja entrar no mercado de arte?
Quando estou fazendo um projeto autoral, desenvolvo algumas dúvidas com relação ao que gosto de fotografar, à qualidade das minhas fotos. Ler portfólio com especialistas pode ajudar nessa busca. Essas pessoas podem dar algumas dicas e nos ajudar a enxergar particularidades do nosso trabalho que não percebemos.

Foto: Isabela Lyrio. Da exposição A Casa se Mostra
*A exposição A Casa se Mostra traz obras de 18 fotógrafos que integram o acervo permanente da galeria: Arthur Monteiro, Beto Barata, Camillo Righini, Carlos Moreira, Cristiano Mascaro, Dorival Moreira, Dudu Schnaider, Isabela Lyrio, João Paulo Barbosa, Jorge Diehl, Kazuo Okubo, Monique Renne, Olivier Böels, Patrick Grosner, Thomaz Farkas, Tiago Santana, Walter Firmo e Zuleika de Souza. Com curadoria de Rosely Nakagawa, a mostra reúne obras documentais e poéticas, produzidas a partir dos anos 1950. Será realizada uma abertura para convidados nesta terça-feira. A mostra pode ser visitada de segunda a sexta, das 10h às 20h, e aos sábados, das 10h às 18h. A Casa da Luz Vermelha fica na ASBAC, em Brasília (SCES Trecho 02 Conjunto 31).
Por Júlia Salustiano
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Gostei de conhecer um pouco da vida e obra de Kazuo. Maravilhosas fotos!
Marta Putz
O Kazuo deixou de lado um ponto importante pois o foco é o trabalho dele e não a galeria, mas vou contribuir.
A vontade de dividir com os fotografos de Brasilia o espaço , a formação e o investimento na formação do fotografo que quer entrar no mercado de arte vem de um empenho pessoal dele. Ele insalou uma impressora para que o fotografo pudesse imprimir suas imagens lá com toda assistencia e qualidade
Ele está investindo muito nesta formação básica tão importante.
Parabens
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