Diane Arbus, por Juan Esteves
É difícil não começar a história de Diane Arbus pelo seu fim. Suas imagens estão intrinsicamente ligadas a ele: Diane se matou aos 48 anos, em 1971. Da sua vida incomum extraiu um cânone de imagens que tornaram-se um legado extraordinário à história da fotografia, uma ponte entre a antropologia e a arte.
Diane Nemerov nasceu numa rica família judia e desde pequena viveu as diferenças da sua posição social. Os avós paternos não eram da mesma casta que os maternos. Uma questão de hierarquia, não só judaica mas social, na livre América do início do século 20.
Sua biografia “não autorizada” foi escrita por Patricia Bosworth, ex-modelo da fotógrafa. Suas filhas e o seu marido, o também fotógrafo Allan Arbus, não deram depoimento, muito menos autorizaram o uso de suas imagens pessoais. As poucas conhecidas foram cedidas pelo irmão, o poeta Howard Nemerov (1920-1991) e por amigos.
De Algernon Black (1901-1993), seu professor na Ethical Culture Fildston School, de Nova York, Diane aprendeu que os mitos não são inventados, mas sim inspirados. Também aprendeu que eles vêm das mesmas fontes dos sonhos: “Um sonho é uma coisa pessoal. O mito é o sonho da sociedade e se preocupa com os mistérios da vida. Não se pode interpretar as imagens concretamente”. Paradoxalmente, foi isso que ela tentou em sua curta existência.
Diane conheceu Allan Arbus na loja de seus pais, onde ele trabalhava, e lá iniciaram um romance que a influenciaria até mesmo em seu modo de vestir: aboliu as roupas caras, não usava meias, nem mesmo se depilava. Alguns amigos diziam que também não usava desodorante e que tinha um odor “peculiar”. Em 1941, casou-se ainda menor de idade numa simples cerimônia judaica. Seu empenho foi tanto, que chegou a aprender a cozinhar com as amigas. De presente da mãe, ela ganhou roupas por 5 anos e uma empregada por um ano.
Allan Arbus havia se tornado fotógrafo do exército americano em 1940. Depois de sua baixa, seguiu a carreira na publicidade e editorial. Os Arbus trabalharam para várias revistas e a entrada de Diane no mundo da moda, como assistente do marido, iria impulsionar sua carreira, ao mesmo tempo que a tornaria infeliz. A “frivolidade” do meio deixava-a mais deprimida do que nunca. Era um dilema estar trabalhando como assistente e cuidar da casa.
A parceria com Diane era fundamental para o resultado das fotos de Allan. Ela foi muito mais que uma assistente: era produtora, diretora de criação, stylist e cenógrafa. Isso levaria ao sucesso da dupla – para alguns historiadores, no entanto, a participação do casal não foi tão relevante assim.
Mesmo com o sucesso no editorial e na publicidade, Diane abandonou a fotografia de moda – por absoluta incompatibilidade – e passou a se dedicar ao próprio pensamento. É depois deste momento que ela resolve procurar a austríaca Lisette Model (1901-1933), para estudar. O apoio da consagrada fotógrafa aliviaria a culpa pelo seu gosto pelo “estranho”, que sempre a atormentara.
Nas aulas com Model, ela percebeu que seu “lado negro”, “esta atração pelo mal”, pelo estranho, eram reações que deveriam ser canalizadas para fotografias. Ela encontrou na fotógrafa uma mentora, no sentido amplo da palavra. A origem similar das duas as aproximou ainda mais: Model também vinha de família rica e ambas se arruinaram.
Marvin Israel (1924-1984), diretor de arte e artista plástico, e o fotógrafo Richard Avedon (1923-2004) tiveram grande influência sobre fotógrafa. Através de Israel, Diane conseguiu fazer vários trabalhos autorais para Squire e depois para a Bazaar (que, na época, representava o que havia de melhor no editoral. Ainda hoje, é considerada uma das melhores revistas de moda do mundo).
Admiradora confessa de Avedon, a recíproca era verdadeira. O grande fotógrafo também a admirava e sempre declarou isso. Distantes não só em seus personagens, Diane se importava mais com os ” freaks” e retratar implicava numa relação mais longa. No oposto, para Avedon tudo acontecia rapidamente. Perguntado como tinha a sido a sessão de fotos, costuma dizer que não se lembrava.
Retratar os estranhos era um modo de admirar as pessoas que desafiavam as convenções, como ela mesma desafiava. Voltar à infância, quando esses “anormais” eram mantidos à distância. Essa “proteção”, que funcionava muito mais como repressão em sua cabeça, seria recorrente. Tímida, ao fotografar era o oposto. Foi expulsa de muitos lugares, devido a sua insistência. Uma grande mudança em seu trabalho se deu quando ela trocou o formato da câmera. Dizia que não aguentava mais a granulação do 35mm. A princípio ela mudou para uma Roleiflex 6X6, e depois para uma Mamya, também 6X6.
Diane Arbus dizia que, quanto mais difícil, melhor a imagem, e que assim também afastava seus clones. Queria a exclusividade do formato quadrado e um flash acoplado diretamente. Tinha crises quando via imagens semelhantes. A mudança no formato, com imagens definidas, causou uma grande transformação, conceitual e pessoal. A realidade era mais “pulsante”.
A separação de Allan foi negativa. Havia o conflito das responsabilidades de criar as filhas (Doon e Amy) e o trabalho e, embora sentisse ciúme das relações do ex-marido, colecionava uma série delas. Era comum fotografar sexo grupal, embora ela não o achasse erótico. Dizia que não tinha significado. Também era adepta do sexo casual, tendo uma infinidade de parceiros, até mesmo desconhecidos, segundo declarações suas e de seus amigos mais chegados.
As idiossincrasias aumentaram e a preocupação com o destino de sua obra também. A partir da mostra New Documents, no MoMA, com a curadoria de John Szarkowski (1925-2007) – a quem estaria muito ligada –, os convites para expor, entrevistas e palestras aumentaram. Até mesmo os trabalhos. Szarkowski e Marvin Israel foram os primeiros a reconhecer seu talento.
Preocupada com seus personagens e, muitas vezes, interagindo com eles, Diane podia ser pervesa e manipuladora. Fotografou a escritora Jaqueline Susan (1918-1974), na época a rainha das histórias de sexo, de biquíni, no colo do marido. Nada exagerado para os dias de hoje, mas com efeito potente no final dos anos 60. Segundo o marido de Susan, Diane disse que a imagem era só para seu portifólio!
Com o sucesso no MoMA, vieram outras exposições e o reconhecimento. Suas imagens, juntamente com as de Gary Winogrand (1928-1984), Lee Friedlander e até mesmo Model (integrantes da chamada “Escola de Nova York”), foram marcos definitivos que mudaram a fotografia documental. Seus retratos formaram um novo cânone, ao transformar em arte a vida comum do homem moderno e ao expor as mazelas do establishment que, entre outras coisas, tenta renegar a anormalidade e esconder o estranho.
Deprimida (desde a infância ), Diane não lidava com a fama direito e rejeitava importantes convites de galerias e museus. Seu medo era ficar conhecida como a fotógrafa dos “freaks”. Era difícil lidar com a incompreensão da dimensão da sua obra. Também se queixava do seu trabalho com os deficientes mentais (reunidos no livro Untitled), sua última obra – não encontrava o eixo. Na verdade, os seus personagens eram impossíveis de serem manipulados. E isso a incomodava.
Diane foi encontrada em seu banheiro, com cortes nos pulsos. Oficialmente, a causa da morte foi dada como envenamento por barbitúricos. Quem a encontrou foi Marvin Israel, uma das poucas pessoas em que ela se apoiava.
*Texto publicado na Revista Fotosite de março de 2005 e atualizado fevereiro de 2010 para o Paraty em Foco.
**Agradecimentos especiais ao amigo, fotógrafo e bibliófilo Eduardo Muylaert que, em 2005, me emprestou o livro da Bosworth, mesmo correndo o risco de não recebê-lo de volta!
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta, todas as sextas-feiras, textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.
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Considero o trabalho da Diane Arbus fenomenal e uma grande inspiração. Muito bom artigo.
Uma corrreção ela morreu com 48 anos.Diane nasceu em 1923,portanto em 1971 tinha 48.
boa matéria.
abs.Armando Prado
Nossa Armando…é mesmo 48 anos! Obrigado pela atenção de sempre!!! Que mancada nossa! Vou olhar e ver se cometi o mesmo erro na revista. Perdão aos demais leitores! Vamos corrigir!
Fui ver o porquê do colossal erro de aritmética e o máximo que chegamos é a idade que ela casou…que foi aos 42. Boa observação meu caro, porque é muito pertinente! Gostaria de ter mais leitores assim.
Curiosamente na checagem das datas me deparei com uma bela imagem dela ainda criança, num site interessante, o da Jewish Virtual Library e o texto sobre ela é escrito pelo Daniel Oppenheimer.
abraços!
juan
Nossa…. Armando! novamente!!! " casou aos 42…" pior ainda… Desculpem-me! Essa leitura dinâmica tá um horror! casou-se em 1942, aos 18 anos…. Conheço umas duas pessoas que ao lerem isso…vão se divertir muito!
abraços
Armando, o Juan manda os textos para o Estúdio Madalena, que lê e edita tudo o que os colaboradores nos enviam. Então, nesse caso, a falha foi nossa! Foi mal, Juan!
Maravilhoso o artigo de Juan Esteves!!!. Sou admiradora de Diane Arbus. Vera Ferro
Un artículo tan completo que contagia la intensidad descriptiva de una artista como la Arbus. A pesar de la limitación de la lengua portuguesa debo decir que resultó pleno para quienes admiramos su trabajo. Felicitaciones
Alo Juan,
"Aposentei-me do stress" das grandes capitais, estou morando em Paraty e trabalhando como recepcionista bilíngue.
Não sei em que pé estão os preparativos para o próximo Paraty em Foco, mas gostaria de colaborar na organização e/ou produção do evento.
Irene,
Gracias por tu aténcion! Sí, la contagiosidad esta en su obra! en su unicidad! saludos!
juan esteves
Julio, acredito que na home page do Paraty em foco, vc encontrará detalhes da programação. Deve ter um link para fazer contato com a produção do Festival. Quem sabe há uma maneira para sua participação! abs
good points and the details are more specific than somewhere else, thanks.
- Mark
POr que afinal diane se matou?
Podemos imaginar vários motivos, mas principalmente incompatibilidade:
incompatibilidade com a vida
incompatibilidade com a família
incompatibilidade com a mesmice da fotografia
incompatibilidade com os editores imbecis de revistas de moda
incompatibilidade com os galeristas caipiras
incompatibilidade com curadores incompetentes
incompatibilidade com jornalistas ignorantes
incompatibilidade com o marido chato
incompatibilidade com a câmera que não funcionava as vezes
incompatibilidade com os freaks que fotografava
incompatibilidade com os normais que fotografava
incompatibilidadecom os mediocres que fotografava
incompatibilidade com o pouco que se pagava por uma imagem na época…
incompatibilidade
incompatibilidade
incompatibilidade
abs
Juan Esteves
e principalmente incompatibilidade com os críticos!
Eh Armando,tá corrigindo o que?pois já está escrito que ela morreu aos 48 anos.Sua vontade de calular foi tanta,que esqueceu de ler..
digo..calcular.
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