Uma lágrima feliz para José Mindlin
“Je ne fais rien san gayeté”*
Montagne
Não li as notícias do final de semana e ontem me deparo com o programa da TV Cultura, Roda Viva, reapresentando a última entrevista com José Mindlin, por conta de sua morte no último domingo, aos 95 anos de idade!
Retratar pessoas de quem gostamos, tenho falado, é uma via de duas mãos. Nos envolvemos com elas, passamos a admirá-las mais (e, em certos casos, até mesmo nos decepcionamos) com sua presença próxima. Vem sendo assim desde o meu primeiro retrato publicado em jornal.
Aquela sensação efêmera típica, que a imagem fotográfica carrega em seu conteúdo, bate diretamente nos retratos. E, não precisa ser um profissional como eu. Mesmo outros fotógrafos sentem isso, e até mesmo aqueles que não o são. A representação do humano, ocupação e preocupação fotográfica desde seus primóridos possue este condão.
Sempre penso sobre essa fragilidade quando um retratado passa a não existir mais no mundo real, criando o paradoxo da imagem que é efêmera mas que irá resistir aos tempos como objeto físico, uma cópia fotográfica, um arquivo no HD, uma impressão em livro, na memória daqueles que o admiram. José Mindlin ficará para sempre na minha memória, aliás ele nunca saiu dela!
Retratei José Mindlin em três ou quatro ocasiões nos últimos 20 anos, todas elas em sua biblioteca, nos fundos de sua bela casa no Campo Belo, em São Paulo. A primeira para a Folha de S.Paulo(1990) e a última para o livro “São Paulo en mouvement” publicado na França em 2005. A frase de Montaigne (Michel de, 1533-1592) acima está reproduzida em sua entrevista feita pela diplomata francesa Anne Louyot, minha parceira na publicação.
Em todas as ocasiões tive a felicidade de passear pela biblioteca guiado pelo dono. Como também trabalho com livros imaginem o prazer de tal “trabalho”. Um verdadeiro aprendizado, imensurável. Na verdade, toda vez que surgia esta “pauta” não era mesmo um trabalho, era uma alegria enorme. Esperava ansioso a oportunidade de rever a biblioteca, de conversar com José Mindlin, simplesmente poder ouví-lo. O menor dos livros se tornava um objeto apaixonante em suas mãos!A frase mais simples, uma lição de vida!
Ele sempre buscava um livro que pudesse agradar seu visitante, como se não fosse já suficiente estar ali respirando toda aquela biblioteca, aquelas edições raras, as matrizes de xilogravuras que ficavam expostas “displicentes” sobre as estantes baixas que corriam pelas janelas. Podia-se ver uma belíssima matriz da Renina Katz e pela janela, o lindo jardim. Certa vez me mostrou sua antiga carteirinha de identidade do jornal O Estado de S.Paulo.
Em 1993 tive um surpresa quando recebi em meu estúdio uma caixa com 6 edições facsímile da Verde “Revista Mensal de Arte e Cultura”, publicação de 1929, de Cataguazes, Minas Gerais (http://www.nossacasa.net/arte/texto.asp?texto=66) . No interior textos de Affonso Arinos, Mario de Andrade, Guilherme de Almeida, Ascanio Lopes.
Na dedicatória: “Ao caro Juan, que gosta das mesmas coisas que eu” Dai para frente, poderia ser o maior metido do mundo! Estava escrito! Ficou escrito! Escrito por José Mindlin! Mas, toda vez que isso me subia a cabeça, lembrava da modéstia incondicional do próprio e, felizmente, me recolhia a minha insignificância.
Nestes anos José Mindlin nunca deixou de agradecer pelos retratos, e quase sempre o fazia enviando um livro de presente,como o belo “Uma vida entre Livros, Reencontros com o tempo” (edusp-cia das letras, 1997) que traz projeto gráfico de sua filha Diana Mindlin, fotografias de livros, feitas por sua neta, a fotógrafa Lúcia Mindlin Loeb, e fotografias de encadernações feitas por Rosely Nakagawa.
José Mindlin era tão modesto e educado que chegava a colocar “ esperando que goste” nas dedicatórias. Como se isso não fosse possível, vindo de um homem que foi admirável por construir algo tão valioso ( sua biblioteca que ficará na USP), que se posicionou contra a ditadura declaradamente com muita coragem ( caso Vladimir Herzog) e sempre lutou pela arte brasileira ( sua campanha com o MASP e Bolsa Vitae) e tantas outras coisas importantíssimas na nossa cultura, um legado que construiu com muita alegria! Como seu próprio moto “Je ne fais rien san gayeté”
* “Não faço nada sem alegria”. Tradução do amigo, fotógrafo e também bibliófilo Eduardo Muylaert.
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Ah, Juan, eu não tive a oportunidade de conversar com José Mindlin (por pura timidez, confesso), mas compartiho com você o prazer de ter estado em sua biblioteca. Também gravei na memória seu jardim de plantas tropicais e sua figura cheia de delicadeza e leve alegria. E o bom cheiro de livros raros, acomodados nesta espécie de templo sagrado que Mindlin criou. Hoje também foi o dia em que falei sobre isto no meu modesto blog.
Sem dúvida Mônica, tudo ali era especial, do dono ao ambiente! Deveria ter falado com ele
! Vou ler p blog! grato pelo comentário! abs!
Oi Juan, tudo bem?
Que delícia esse texto e mais ainda o assunto.
Existem algumas pessoas inspiradas em cada época, e elas se transformam em um rumo para muitas!
Nunca estive nessa biblioteca, nem conheci o José Mindlin, mas acredita que só saber que existia me deixava feliz?!
Para mim livros são companheiros, gosto muito de ler.
Ainda bem que vai ter uma continuação na USP.
beijo grande
Obrigado a todos pelas palavras!
Oi Lucila! Saudade! Nos desencontramos na sua belíssima exposição " Paisagens Silenciosas " na Caixa Federal. E, é como a querida Alice Ruiz disse no texto da sua mostra " (…) A poesia nos convida a olhar de outro jeito". Os outros livros, prosas, contos, romances, também nos convidam a multiplicar nosso olhar. Saber que tem gente como Mindlin sempre foi e será um conforto! Grato pelo seu sensível comentário!
Beijos!
Hola, Interesante, no va a continuar con este artнculo?
Gracias
Dougles
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