A importância de ser Otto Stupakoff
O nome de barão foi herdado do avô russo. Contudo, Otto Stupakoff brincou mesmo foi nas ruas de São Paulo, no antigo Tatuapé, um bairro muito diferente dos dias de hoje. Adolescente, foi aprender fotografia em Pasadena, próximo a Los Angeles, nos Estados Unidos – onde aprendeu mais sobre arte do que como se revela um filme. Ficou famoso no Brasil e, depois, no cenário internacional da então fervilhante “fashion photography” das décadas de 50 à 70, quando ganhou e perdeu muito dinheiro.
Na Europa e Estados Unidos, era a época de Helmut Newton (1920-2004), David Bailey, Frank Horvat, Arthur Elgort, e reinando absolutos, Richard Avedon (1923-2004) e Irving Penn (1917-2009). Stupakoff não fez feio. Pelo contrário, brilhou muito e tornou-se amigo de alguns destes ícones, com quem manteve contato por muito tempo, passadas longas décadas e muitas reviravoltas na sua vida profissional e pessoal.
Vamos deixar de lado o sucesso brasileiro e internacional daqueles anos (quando foi mais que celebrado) e caminhar para mais perto dos dias de hoje, quando completamos um ano de sua morte prematura. Merecidamente, Otto retomou, em 2005, seu reconhecimento abaixo do trópico com um belo livro Otto Stupakoff (Cosac Naify, com organização de Rubens Fernandes Junior) e Sequências (Instituto Moreira Salles, 2009).
Celebrações justas, ainda que tardias. Depois de brilhar em revistas como Vogue e Harper’s Bazaar, por algumas décadas, é necessário dizer que quando retornou ao Brasil, nos anos 80, ele foi completamente ignorado pelo editoral brasileiro, o que o fez retornar infeliz para os Estados Unidos.
Sim: Otto foi ignorado por editores caipiras, estes mesmos que ainda hoje adoram jogar confetes em fotógrafos internacionais que nem conhecem, adoram dizer que viajam para Nova York, gabando-se de intimidades que não desfrutam, posando de grande personalidade, quando no fundo eram e continuam tacanhos.
Mas, ainda distante do glamour que só viria alguns anos depois, em seu começo no primeiro mundo Otto, para não passar fome, deu aulas de fotografia na Parson School Design, de Nova York (era 1967). Ficou ensinando por um ano, martelando seu bordão: “Não vejam livros de fotografia! Fotógrafo deve ler muito. Ir muito ao cinema, ver pinturas, e escutar muita música. Tudo menos livros de foto”.
Se estava certo? Talvez. Ainda que, paradoxalmente, é o que ele veio produzindo nestes últimos anos, com Rio Erótico (Aperture, 2006), com a monografia de 2005 e com a edição póstuma de 2009. O lançamento da edição, feito no Rio de Janeiro, pareceu ser uma maneira de dar o troco às grandes revistas paulistas – muito embora tenha sido lá que o fotógrafo começou a ficar conhecido. Otto também deixou inacabado um belíssimo livro sobre as jovens nas ruas do Camboja, ainda por publicar.
Nestas necessárias retrospectivas, para quem quer rememorar imagens, ou para quem quer conhecer a obra deste grande mestre, estão fotografias de moda, retratos de celebridades, snapshots, retratos de familiares… Mais de 50 anos de estrada com uma câmera na mão. Todas tratadas com seu jeito único de ser, além de importantes entrevistas, com declarações igualmente únicas e que, com o tempo, ele foi modificando aqui e ali.
Stupakoff costumava declarar que a primeira imagem de moda genuinamente brasileira era sua: a modelo Duda Cavalcanti, uma top da época, que vestia um modelo do estilista paraense Dener Pamplona de Abreu, o famoso Dener (1937-1978). Na sua memória, a locação: o terraço da casa do pintor carioca Heitor dos Prazeres (1988-1966), no Rio de Janeiro , lá pelo distante ano de 1955.
Entende-se a sugestão de não ver livros ou revistas de fotografia. Hoje em dia, como naquela época, se copia mais do que se cria. Basta entrar em qualquer redação de revista de moda para se ver as tais “referências” penduradas na parede. Tais “sugestões” não poupam nem mesmo consagrados fotógrafos, infelizmente. Basta abrir qualquer revista do gênero.
Discordando do fotógrafo, acredito que conhecer bons livros de fotografia é fundamental na formação de um “vocabulário” fotográfico autêntico. Até porque, não faria sentido este texto ser escrito, se assim não o fosse. Nem mesmo ele ter publicado os dele que, através não só de imagens, mas também de sua vasta cultura sobre arte e fotografia, transmitem sua obra exemplar aos incautos que por ventura a desconhecem.
Stupakoff não foi apenas um grande fotógrafo. Assim como outros poucos, também foi responsável pela formação intelectual de muitos profissionais. Entre seus aforismos e parábolas, recomendava que o ideal era seguir o caminho mais difícil: Ao entrar numa floresta, escolha o rumo mais escuro! Sem indicação, aquele mais difícil! Se você for talentoso, encontrará uma pérola, no lugar do dragão!” . Ou melhor, aquela originalidade tão procurada (e tão dificil de ser encontrada).
Difícil mesmo, quando a maioria hoje prefere o mais fácil, aquele impensado, simplesmente copiado. Pode-se abrir qualquer revista importante de moda (ou geral) brasileira e quase não perceber a mudança de créditos das imagens. Numa referência mais recente, em suas últimas entrevistas, citava seus últimos alunos, que deixavam a sala de aula antes da aula terminar. Um dos inúmeros absurdos que aprendeu a suportar em seus últimos anos.
Muito do “mito” Stupakoff se deve a uma brasileira. Lá pelo início dos anos 70, o fotógrafo conheceu Beatriz Feitler (1938-1982)* , diretora de arte da Bazaar, onde ele produziu ensaios mensais por cinco anos. “Ela foi a melhor diretora de arte com quem trabalhei”. Naquela época, as revistas eram muito, mas muito mesmo, diferentes do que são hoje: “O fotógrafo escolhia a moda. Aprovava os detalhes antes, para só depois ir para a direção de arte. A edição de moda só via o trabalho pronto”. Pode parecer inverossímil para quem fotografa hoje. Mas ele garantia a veracidade da declaração!
Para Otto Stupakoff o momento da foto era sagrado. “Só modelo e fotógrafo podem compartilhar!”. Nos seus últimos anos costumava dizer: “A tal produtora de moda quer segurar no tripé, olhar na câmera, ver o polaroid. Parece representante do diretor de arte!”. Podemos estender o raciocínio para a mania recente de querer olhar no visor da câmera digital. Nada mais chato e insuportável (e inútil)!
Para provar seu ponto de vista sobre o momento criativo único do fotógrafo, Otto dizia que, se não fosse assim, todos assistentes seriam bons fotógrafos – o que, segundo ele, quase nunca acontecia. Provavelmente ele estava certo, contando as raras exceções, que sabemos existir. É só pegar o exemplo do grande Hiro, que foi assistente de Richard Avedon, e que há muito tempo é um dos grandes da fotografia internacional. Idiossincrasias de Stupakoff? Sem dúvida! Mas ele podia! E como!
Este respeito ao criador pode-se entender também nas palavras de outro grande profissional com experiência internacional , o catalão J.R.Duran, quando ele fala que, mais que um diretor de arte, o que importa numa revista é um diretor de criação, coisa que nas revistas brasileiras não temos. Para Duran, Stupakoff “é um maestro, maestro da fotografía, da elegância e do savoir vivre” (depoimento de 2005). Duran, entre raros fotógrafos autorais do meio, é de uma geração adiante que soube aproveitar o caminho aberto por Otto.
A ”importância de ser Otto Stupakoff” – parafraseando Wilde – é reconhecida por outros grandes profissionais: “Qualquer fotógrafo que sobreviva mais de quarenta anos na profissão, além de ter que ser um gênio, é um herói!” (depoimento de 2005), disse o fotógrafo carioca Claudio Edinger, outro com larga experiência no exterior, autor de uma dezena de bons livros.
Para o paulista Cristiano Mascaro, cronista maior da cidade de São Paulo, “Otto, assim como outros fotógrafos talentosos, me indicaram um caminho e fizeram com que eu tivesse certeza de que valia a pena dedicar-me à nobre profissão” (depoimento de 2005). Em dias de egocentrismos descarados e de narcisismos explícitos, são declarações que iluminam ainda mais uma verdadeira estrela.
Na sua primeira monografia, uma ainda pequeníssima reverência ao grande talento e pioneirismo de Stupakoff, estão imagens de referência, como as banhistas em Baden-Baden, o retrato do dramaturgo Harold Pinter ao lado de Vivian Merchant, a belíssima gravadora Maria Bonomi e um genial portrait do roteirista Tom Stoppard.
Stupakoff também retratou um jovem Tom Jobim, um aristocrático retrato do artista plástico Wesley Duke Lee – a quem o fotógrafo credita sua afeição pela arte –, o presidente americano Richard Nixon com a filha Julie e o escritor Truman Capote. Estes dois últimos retratos foram vertidos da cor original para o preto e branco. Imagens que valem muito serem vistas. Imagens que valem a pena uma pausa, respirar fundo e… Começar tudo de novo!
*A brasileira Beatriz Feitler, além de cuidar da arte da famosa Harper’s Bazaar, foi diretora de arte da Rolling Stone, e redesenhou a revista três vezes. O antológico volume do décimo aniversário da revista, de 1977, foi preparado por ela, que trouxe um ensaio fenomenal de Annie Leibovitz. Seu último trabalho foi reformular a revista Vanity Fair, cujo primeiro volume saiu um ano após sua prematura morte.
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.
Veja mais posts de Estúdio Madalena










Maravilhoso.
Um gigante da fotografia brasileira, declarando-se a outro gigante. Lindo.
bjs,
Muito bom…… ele teria ficado contente com o seu elogio ! Alem de fototgrafo foi uma grande pessoa !
Thank you
Bico Stupakoff
bel hommage à ton père, bravo Bico !!!!
Caro Bico, you are welcome!
Eu disse para sua irmã Kitty, lá no IMS quando da abertura da belíssima mostra do seu pai, ele foi uma das, se não a maior influência no meu trabalho! Serei um eterno devedor não somente pela sua estética mas por tudo que ouvi dele, por tudo que aprendi com ele sobre fotografia e sobre a vida!
A foto do spa de Baden-Baden está emoldurada na parede da minha casa e olho para ela todos os dias sem me cansar! Uma lembrança de que ainda tenho muito a caminhar para me tornar um bom fotógrafo e poder fazer uma foto assim um dia! Obrigado pela visita! Um abraço fraternal!
Aproveito para corrigir a chamada, e dizer que a matéria original foi publicada na revista Fotografe, de 2005, reproduzida com uma redução no Fotosite, em 2006, do qual este texto foi atualizado. Uma versão maior, quase integral da revista, foi publicada no Pictura Pixel ainda em abril de 2009 como homenagem ao Otto, com apoio do editor Claudio Versiani.
Juan,
Sobre o Otto, digo apenas que foi o meu primeiro ídolo brasileiro na fotografia de moda; e continua sendo!
Sobre seu texto…
"Otto foi ignorado por editores caipiras, estes mesmos que ainda hoje adoram jogar confetes em fotógrafos internacionais que nem conhecem, adoram dizer que viajam para Nova York, gabando-se de intimidades que não desfrutam, posando de grande personalidade, quando no fundo eram e continuam tacanhos."
Juan, que frase maravilhosa! É impressionante como, mesmo sem estar naquele "mundinho", sua percepção é absolutamente contundente. As caipironas feias que se auto-intitulam donas do estilo, sempre voltam para os agroboys ou se casam com um mauricinho-lama para poder manter o seu hipster-lifestyle. Perdem o empreguinho na editora e submergem. Mal sabem escrever o próprio nome.
Bravo.
Clicio Barroso
no instituto moreira salles fizemos um hotsite especial sobre o otto. aos interessados:http://ims.uol.com.br/hs/ottostupakoff/ottostupak…
abs e parabéns pelo texto
Clicio, obrigado, mais uma vez! E por ampliar a idéia!!
Otto me contou uma história de uma redação de uma destas revistas…( não vou dizer seu nome francês para não me comprometer…). Ele fotografou uma moça que vendia flores da rua, ao lado do flat onde ele morava no Itaim e mostrou na redação:
-modetes da redação: " que bonita, charmosa, chic! onde foi feita a foto?
-Otto : "na frente do meu flat, no Itaim, ela vende flores…"
-Modetes: Ahhhh bem que vi que ela tinha um pé na cozinha…."
Semanas depois, Otto ainda inconformado monta outra foto com a mesma moça, só que usa seu apartamento parisiense como fundo no sistema.
Modetes: Que linda, charmosa, chiquérrima! "Onde é esta foto??
Otto: "minha vizinha em Paris"
Modetes: Logo vi… esse charme parisiense que ela tem… táva na cara que era européia…chic!!
Mesmo sendo o Otto um "raconteur" de primeira… mas, conhecendo certa modetes, acho que é mesmo verdade… e que ele era mesmo capaz de fazer isso, ah! isso ele era!
abraços!
Juan apesar de não te conhecer, gostaria de parabenizar pelo ótimo texto.
Afinal, tive o grande prazer de assistir o Otto em boa parte de seus últimos trabalhos, após o retorno ao Brasil, lá por 2001. E posso assinar em baixo, que tudo que escreveu é a mais pura verdade.
Não foram poucas as vezes que fiquei ao telefone, ouvindo o mestre se lamentar com a falta de competência e compreensão de editoras, produtoras, diretores de arte, etc… Pois suas idéias transcendiam infinitamente o universo atual de produção, criação e finalização.
Mas pior do que isso, acredito que após sua partida, foi como os mesmos, ainda tiveram a coragem de se pronunciar, como se tivessem super ajudado, ou até suportado, alguém que jamais disse precisar disso. Pois apesar sua "solidão" final, uma coisa que Otto sempre fez questão de manter, foi sua dignidade.
Sou eternamente agradecido, por ter tido a chance de ter estado em contato, com alguém que realmente representa a história da fotografia brasileira e porque não dizer do mundo. Além disso, como disse Bico (que também não conheci), além de um excelente fotógrafo, foi um grande homem.
Salve Otto!!! Obrigado…
abs
Marcelo Naddeo
Naddeo, obrigado pelo comentário! Posso dizer que conhecendo seu trabalho como fotógrafo, que acompanho pela Trip, vc é uma daquelas exceções de assistentes a que me refiro acima no texto! Parabéns pelo seu trabalho! Tenho certeza que Otto está lá olhando e feliz!
Isso que vc diz é verdade, teve gente que ainda achou que fez muito, quando foi mesmo o contrário! Mas estes, meu caríssimo o mundo vai esquecer. Um grande mestre como Otto, jamais será esquecido!
Abraços!
Coincidentemente, visitei a exposicao do Otto neste ultimo fim de semana, no IMS aqui em Poços de Caldas… GENIAL!!!
Caro Juan , como sempre texto impecável e cheio de informação.
Vale lembrar a revista Setenta editada pela editora abril com direção de arte da Bia Feitler
e uma matéria de moda com fotos do Otto em Salvador.Vale uma visita ao DEDOC Editora
Abril.
Abs. Armando Prado
Obrigado pelo comentáriio Armando!!
Muito bem lembrado! A revista Setenta, como o título diz, foi lançada pela Abril em maio de 1970, logo depois da Placar. Foi uma espécie de revista de moda experimental, segundo o pesquisador Rubens Fernandes Junior, desenhada pela Bea Feitler, que entre outras coisas trouxe para a revista o fotógrafo Bill King.
Otto também colaborou para outras revistas . Algumas destas imagens podem ser vistas no livro Fotografia em Revista, da FAAP-ABril, já comentado por mim aqui no blog e daonde eu tirei estas informações. Algumas imagens geniais de moda para revista Claudia de dezembro de 1963 e um nu da atriz Angelina Muniz para Playboy de julho de 1980 fazem parte da publicação.
Juan , a Bea Feitler vale um post só dela.Lembrei do livro que ela fez , sobre Lartigue
editado por Richard Avedon Diary of a Century. Viking press 1970 .Acho que foi o primeiro
livro publicado com a obra do Lartigue.
abs.Armando Prado
Sim Armando, merece não só um post, merece muito mais diante da tremenda importância de seu trabalho. A revista Mitsubishi, editada por Fernando Paiva, deu uma bela capa com ela, acho que no ano passado. A foto da capa: O retrato dela, feito por outro mestre sagrado da fotografia Antonio Guerreiro!
Vamos ver se conseguimos que o Paiva nos empreste a matéria!!
Como super leiga atrás de conhecer mais o trabalho do Otto,seu post foi maravilhoso. Mais que informar passou o sentimento e o brilho por trás de cada foto que vi até agora do Otto.Obrigada! =D
[...] nesta coluna em abril de 2010, no texto em homenagem ao querido Otto Stupakoff (1935-2009) (http://paratyemfoco.com/blog/2010/04/a-importancia-de-ser-otto-stupakoff/ ). O destaque fica por conta de um grande material muito pouco conhecido: o projeto da revista [...]
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