A poética de Lucille Kanzawa
Escreve Lucille Kanzawa que, quando o telefone tocava e do outro lado da linha se ouvia um incompreensível japonês, ela logo deduzia que era alguém da comunidade à procura de seu pai. Conta o escritor Diógenes Moura que fotografia, além de uma linguagem é um símbolo para o não esquecimento. Convergências afetivas, fotografia e memória sempre andaram juntas, e ganham espaço neste livro, reminicências de uma vida familiar, de uma sociedade em particular e da existência de uma fotógrafa.
A autora, que se apega fortemente a sua ancestralidade, também viajou o mundo nos muitos anos em que voava como comissária. Mas, para esta edição, sobre a peculiar sociedade oriental Yuba, no interior de São Paulo, debruçou-se durante 7 anos, em meio a outras viagens para o Marrocos ou Índia, colaborações para extinta revista Terra. Foi esta mesma publicação que traria seu primeiro ensaio sobre a comunidade, ainda em 2004.
O japonês Isamu Yuba, de 19 anos, desembarcou no Brasil em 1926. Depois de 9 anos, comprou 40 alqueires de terra em Guaraçai, e formou uma comunidade, baseada em preceitos interessantes, criados por seu avô Saizaburu Yuba no Japão do século 19. O objetivo? Uma área agrícola sem proprietários e sem dinheiro circulando.
A experiência não deu certo com o fundador, mas o neto conseguiu reunir cerca de 300 pessoas e formar, então, a maior granja da América Latina. Em 1956, o grupo se dividiu. Isamu e mais 90 pessoas mudaram-se para o bairro Primeira Aliança, na zona rural de Mirandópolis, cidade onde a fotógrafa nasceu. Hoje, existem apenas 61 remanescentes da experiência coletiva de seu fundador, que morreu em 1976.
Sendo óbvio, não dá para desassociar a convergência da tradição na obra da fotógrafa de seu próprio páthos. Afinal, seu contato com a comunidade se deu quando ainda era crianca, e seu pai, médico, atendeu os seguidores de Isamu por 44 anos gratuitamente. A busca pela proximidade ancestral é inerente ao oriental e é representada em sua arte de maneira múltipla, seja através das econômicas linhas dos Haicais, nas xilogravuras do Ukiyo–e ou nas fotografias de ontem e de hoje.
Mas não se engane pelo registro documental explícito, pois há muito de construção neste belo livro. Assim como um poema do gênero tanka, formado por fonemas planejados, a estrutura de Yuba também é. A começar pela capa, em sua concepção gráfica, com papel diferenciado e títulos gravados em anagrama e no alfabeto latino, bem como a tradução dos textos para o japonês está do final para o início, com imagens monocromáticas e coloridas amalgamando informação e poesia em rara harmonia.
Como estrofes, as atividades se desenrolam de modo a um crescendo. Assim como é extraordinário que um shamisen tire tanta harmonia em tão poucas cordas, a pequena comunidade rende à fotógrafa em pouco mais de 60 imagens uma interessante leitura, traduzida no seu cotidiano, na sua intimidade doméstica, nos esportes, no trabalho, na convivência da arte e no belos portraits.
Serviço
Yuba, de Lucille Kanzawa
Textos: Diógenes Moura e Xavier Bartaburu
Direção de arte de Kelly Sato
Editora Terra Virgem – isbn978-85-85981-56-3
Lançamento do livro
Dia 01 de maio, das 11h às 14h
Pinacoteca do Estado – Praça da Luz, 2, Centro, São Paulo, SP. Tel.: +55 11 3324.1000.
Apresentação do balé Yuba, as 12 hs. (única apresentação, com duração de 30 minutos, coreografia de Akiko Ohara).
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.
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Adorei o que vc. escreveu sobre a minha talentosa e querida amiga Lucille e a incrível comunidade Yuba, aliás ambas me deixam ainda mais orgulhosa de ser brasileira!
Que saudades do fim de semana que passei lá no ano passado…
Saudações nipo-paulistas,
Flavia Liz Di Paolo
Isso me emociona…
Depois de muitas fotos aí está a Lucille com um livro necessário. As coisas do Yuba merecem
ser divulgadas mais e mais.
Só quem conhece a comunidade sabe a força que isso tem.
Parabéns a Lucille e a Comunidade Yuba, um centro de cultura daqui.
Fred/outono/10 – Mirandópolis/SP.
Lucille concretiza um sonho cuja maturação foi solitária, vencendo adversidades, submetendo-se a provas que ela jamais imaginaria existirem neste meio… Seu potencial é infindável, assim como sua sensibilidade, que consegue fazer com que símbolos iconográficos e escritos interajam de forma tão bela e magnífica. Lucille, foi uma honra te acompanhar, ainda que algumas ruas de distância e com intervalos de tempo, acompanhar tua trajetória… Teu pai sequer tem palavras para expressar todo orgulho que igualmente sente no momento! Parabéns! Mag e Victor Hiero
Toda vez que se fala de Yuba uma vez mais, é saber de possibilidades. Lucille ajuda a lembrar isso abrindo espaços do presente para o futuro. Seu trabalho fotográfico é poesia e cinema.
Desnecessário dizer que tudo o que a Lucille faz é feito com primor. Estou orgulhosa de ser sua amiga. Desejo muito sucesso.
Vandira de Oliveira
Um trabalho que emana silêncio…maravilha! Parabéns à Lucille pela dedicação, respeito e carinho tão impregnados em suas fotografias…
Lucille quando dispara, tem a câmera diante dos seus olhos, mas seu verdadeiro olhar vem do coração.
Mandou bem Magui!!!
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