Colecionando fotografias
Toda coleção envolve dois fatores básicos: o amor pelo objeto e a paixão pela aquisição. No caso das instituições, o foco recai sobre a preservação, historicamente falando, e o acesso do acervo ao público adquire caráter mais cultural e menos pessoal. A fotografia nas últimas décadas, se tornou um destes objetos, que no mercado internacional é capaz de movimentar milhões de dólares. Com isso, vem também a exposição à mídia de grandes vendas, personagens famosos, e também os grandes escândalos, que envolvem compra e vendas de imagens falsas, levando a ribalta nomes de conhecidos marchands e grandes intituições.
No Brasil, as coleções de fotografia – excetuando as “históricas”, como a da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, cujo interesse principal é a mémoria – tanto das instituições públicas quanto dos particulares, são relativamente recentes, não ultrapassando os últimos 50 anos e, diferentemente das coleções europeias e americanas, são de caráter mais modesto, não atingindo cifras milionárias.
Somente num leilão promovido em Amsterdam, Holanda, pela Sotheby’s em janeiro de 2005, foi arrecadado perto de US$1,5 milhão apenas com fotografias (muitas delas de obscuros fotógrafos holandeses). Imagens de fotógrafos como o brasileiro Sebastião Salgado alcançaram US$20 mil , e de fotógrafos como o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) , mesmo sem a assinatura do autor, chegaram aos quase US$160 mil.
De certa forma ainda é pouco, se pensarmos nos milhões amealhados por Andreas Gursky em 2007 com seu díptico “99 cent II” leiloado na Sotheby’s, nada menos que US$ 3.346.456,00. Mais interessante, foi a terceira cópia vendida. Em maio de 2006 na mesma Sotheby’s a obra saiu por US$2.25 milhões e em novembro, na Philips de Pury & Company, de Nova York, chegou a US$2.48 milhões. E o que não dizer de Richard Prince e sua foto que reproduz um outdoor de propaganda, ter levado US$1.248 milhão na Christie’s.
Obras de outros brasileiros, como Vik Muniz , Mário Cravo Neto ou Miguel Rio Branco, são bem aceitas nos leilões, mas, o volume ainda é pequeno, se comparado ao volume internacional, explica Kátia Leite Barbosa, representante da Sotheby’s, no Rio de Janeiro. Neste rol, é preciso registrar que Muniz mantém uma larga margem de valores com relação aos demais, com obra que rondam os US$300 mil, ou muito mais, quando se tratam de polípticos.
É necessário notar, no entanto, quanto estes leilões sofrem interferência de galeristas interessados em inflar seus preços. Peter Macgill, da Pace-Macgill Gallery foi um deles quando começou a pagar cifras próximas do milhão. “White Angel Breadline”, da fotógrafa Dorothea Lange, foi comprada por ele na Sotheby’s por US$822,400 em 2007. Alguns fotógrafos que ele vende hoje em sua galeria: Dieter Appelt, Richard Avedon, Harry Callahan, Walker Evans, Robert Frank. Josef Koudelka, Richard Misrach e Irving Penn, o crème de la crème da fotografia.
Muitos colecionadores particulares mantêm um foco bem definido em suas coleções. É o caso do paulistano Cliff Li, que foi proprietário da galeria Paul Mitchel e um dos sócios na Leica Gallery, em São Paulo, que durou apenas 3 anos, infelizmente. A maior parte de seu acervo (de mais de 400 imagens) tem como tema o glamour, apesar do mesmo confessar ter “uma queda pelo fotógrafo Mario Cravo Neto” , de quem tem oito imagens. Tem nomes como César Barreto, Cássio Vasconcellos. Marcel Gautherot, Bob Gruen e Peter Beard entre outros importantes.
Li começou a comprar imagens há 20 anos, por causa da primeira galeria, anexa ao seu restaurante Tomato, mas seu principal impulso, é a imagem que lhe emociona. Acompanha leilões internacionais e mantém estreito o contato com o mercado nacional e internacional. A paixão do empresário por fotografia é tamanha, que se tornou fotógrafo amador e, ainda é capaz de se entusiasmar com a compra de uma foto de Alfred Eisenstaedt, nos arquivos da revista LIFE, por apenas US$50. As cópias de imagens famosas do arquivo da revista são disponibilizadas na internet a preços baratos.
A coleção do banqueiro Edemar Cid Ferreira informava ter mais de 3000 mil imagens, a maioria delas de autores estrangeiros, entre eles alguns de fama mundial, como Robert Mapplethorpe, Man Ray, Julia Margaret Cameron e Helmut Newton, adquiridas em leilões das casas Sotheby’s e Christie’s, cujos valores oscilavam de US$15 mil a US$ 300 mil em média, de acordo com a data e raridade da foto.
Uma intervenção em seu banco fez com que parte de sua coleção fosse transferida em novembro de 2005, por decisão judicial, ao Museu de Arte Contemporânea da USP e ao Museu Paulista – ambos mantêm a guarda e a administração provisória ainda sem definição. Segundo a curadora Helouise Costa, o acervo fotográfico hoje no MAC, oriundo desta coleção mantém cerca de 1450 imagens, um apanhado significativo da fotografia a partir segunda metade do século 19 até hoje. As imagens foram divididas para os dois museus de acordo com suas especificidades.
Diferente no tema e principalmente nos valores, a coleção do professor Rubens Fernandes Junior, Diretor da Faculdade de Comunicação da FAAP – que chegou a ser consultor de Cid Ferreira – é centrada nos cartões postais fotográficos, produzidos no fim do século XIX e início do XX, cujos custos variam de 50 a 300 reais, de acordo com a raridade de cada um.
O acervo de Fernandes Junior, iniciado por causa de uma tese de mestrado e pela sua afinidade com o exercício de crítico e curador, atinge números que também impressionam: cerca de mais de 8 mil postais, de fotógrafos como Marc Ferrez a Guilherme Gaensly, entre outros gigantes dos primórdios da fotografia, que dividem o acervo com imagens relacionadas as ferrovias. Ele ainda mantém um acervo de mais de 200 fotografias, de nomes importantes, como Cravo Neto, Eustáquio Neves, Geraldo de Barros, Alair Gomes e German Lorca, entre outros. A maioria delas, através de trocas com o próprio autor.
“A fotografia é um bom investimento”, diz Fernandes Junior. Ele cita o caso da revista americana Blind Spot – que disponibiliza uma tiragem limitada da imagem da capa. “Anos atrás, uma dessas imagens, do brasileiro Vik Muniz, era vendida a 600 reais, hoje aumentou pelo menos 10 vezes mais”, completa Fernandes Junior.
Joaquim Paiva, diplomata brasileiro que, além de fotógrafo, mantém uma coleção conhecida e que já virou livro “Visões e Alumbramentos ” (Edição Brasil Connects,2002), com a parte contemporânea brasileira de seu acervo, que contempla artistas de várias épocas.
Em 1978, quando trabalhava na Venezuela, Paiva comprou uma imagem da americana Diane Arbus e deu início a coleção que tem mais de 2500 imagens, de fotógrafos do mundo inteiro, entre eles Carlos Moreira, Sebastião Salgado, Iatã Canabrava e Claudio Edinger. Paiva, não acompanha os leilões, nem o mercado internacional. Prefere conhecer pessoalmente o fotógrafo, através de mostras e eventos, e se não for possível, pelos livros.
O diplomata, que também é ensaísta e tradutor – é sua a primeira versão em português de “On Photography”, de Susan Sontag (1933-2004) – afirma que “a fotografia sugere a fantasia de um mundo ideal. A ilusão de que se pode reter o tempo e guardar as lembranças”. Por isso, também compra pelo impulso daquilo que o emociona.
O publicitário Mario Cohen, que também é dealer de fotografias, prefere não revelar a quantidade de imagens que tem. É um colecionador que não identificou ainda o motivo de suas compras, mas acha “simplista” dizer que compra somente aquilo que gosta. “Se tivesse que escolher um fotógrafo para justificar, seria o francês Jacques-Henri Lartigue (1894-1986) , principalmente suas fotografias feitas na Riviera francesa na década de 1920 e 30″. Dos contemporâneos, a sua preferência recai sobre o japonês Daido Moriyama.
Cohen adquiriu sua primeira imagem no interior do México, no fim dos anos 1970, não de uma galeria, mas de um comerciante de secos e molhados. ” Nem ele sabia que se vendiam fotografias, nem eu que se compravam. Comprei um objeto que me encantou”, revela. Comprando basicamente no exterior, ele dizia que há cinco anos o mercado nacional ainda era insípido, mas promissor: “Os compradores estão amadurecendo rapidamente”. Do seu acervo, ainda surgem pérolas como Marcel Gautherot e Pierre Verger. O aumento das galerias que comercializam fotografias parecem confirmar seu prognóstico.
Muitos colecionadores brasileiros, como Paiva, não acompanham leilões. No entanto, estes se tornam um fonte boa para aquisições, embora também com números de autores e cifras ainda bem acanhados em relação aos do exterior, assim como a sua frequência. Não que não tentem, por exemplo a Bolsa de Arte promoveu um com ótimos resultados em agosto de 2008. Entretanto, a exclusividade ficou neste e passaram a agregar fotografias em outros leilões que vendem outras obras de arte e design, tudo junto. Mas a galeria Bergamin, em São Paulo, do mesmo proprietário, vem expondo e vendendo imagens fotográficas, como a belíssima mostra de Alair Gomes deste ano.
Outra face do colecionismo é a praticada pelos museus, fundações e até mesmo pelo governo. Embora, em alguns casos, estejam aquém de muitos colecionadores particulares, quanto ao número de obras e investimento financeiro, mas tem o importante papel do fomento, seja quando criam coleções, possibilitando assim o acesso as gerações futuras, e quando fazem as mesmas excursionarem para fora de sua sede, tornando os fotógrafos mais conhecidos.
A coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo tem nomes importantes como Cristiano Mascaro e Mario Cravo Neto. Com números insignificantes, apesar de abrigar constantemente mostras de fotografia, dificilmente promove aquisições. Aberta no mês passado, a mostra “Raízes” do fotógrafo paranaense Valdir Cruz, é uma exceção. As trinta imagens em grande formato foram adquiridas pelo Governo do Estado, e passaram a fazer parte do acervo dos Palácios do Governo, além de patrocinar um belo livro (já comentado aqui neste blog).
Uma das mais importantes é a coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que tem como foco a arte contemporânea brasileira, a partir da segunda metade do século XX. O acervo contava em 2005 com pouco mais de 700 fotografias, de autores como Thomaz Farkas, Ding Musa, Geraldo de Barros, Madalena Schwartz e Carlos Goldbgrub entre outros. Muitas delas podem ser vistas pelo acervo online.
Rejane Cintrão, ex-curadora executiva, disse que o MAM passou a introduzir fotografias no acervo, a partir da I Trienal de Fotografia , de 1980, e da I Quadrienal de Fotografia,de 1985, ambas realizadas pelo museu e que tiveram apenas uma edição. Depois destes eventos, vários fotógrafos doaram imagens. Após a mostra “Identidade/não identidade: a fotografia brasileira atual “de 1997, muitas das obras passaram a integrar a coleção.
Um grande impulso foi o Clube dos Colecionadores de Fotografia criado em 2000. Um exemplar da tiragem fica para o museu . O MAM mantém seu acervo através de projetos , convênios e parcerias, que fornecem recursos para conservação do acervo e montagem das exposições. Para Rejane Cintrão “os museus devem adquirir coleções , mas com um olhar curatorial, para evitar coleções dispersivas”.
O último inventário do MAM, foi o de 2001-2007 e informava que apenas 1636 obras passaram a integrar seu acervo desde 2000, número composto de pinturas, esculturas, gravuras e fotografias. Só fotografias e colagens de Otto Stupakoff foram 73, doadas pelo próprio artista à instituição. Outras 52 fotografias do paraense Luiz Braga foram doadas pelo Banco Itaú. As 40 imagens da série Cityscapes do carioca Claudio Edinger foram adquiridas através de um fundo para aquisição de obras para o acervo, via Stefanini Consultoria e Assessoria em Informática.
Em 2009, a fila de espera para entrar no Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM de São Paulo era enorme, e isso se deve a expansão da imagem fotográfica em diferentes mídias e o aumento das exposições importantes. O atual curador do clube, o fotógrafo Eder Chiodetto, foi responsável por exposições fotográficas de grande repercussão, não somente no MAM mas em outras instituições. Isso atrai os colecionadores e nova iniciativas.
Uma das mais recentes é a criação de um clube semelhante no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) do Recife, organizado pelo fotógrafo Alexandre Belém e a antropóloga Georgia Quintas. Na edição de 2010, em andamento, nomes como Claudia Jaguaribe, Rodrigo Braga e Tiago Santana entre outros. A primeira edição será com apenas 30 sócios, a ficha de inscrição e a lista de nomes e preço está no site da instituição.
Igualmente importante, a coleção Pirelli-MASP, do Museu de Arte de São Paulo, que conta no seu Conselho com Fernandes Junior e Cohen, é patrocinada pela empresa italiana Pirelli. Abre aquisições anualmente. Entretanto, como as demais instituições, o valor pago pelas imagens chega a ser simbólico, mal dando, em alguns casos, para pagar as cópias feitas pelos fotógrafos.
Em 2009 o MASP informava ter 280 autores com 1042 obras no total da coleção, que está na sua 17ª edição, desde que começou em 1990. Para cada lote de aquisições é feito um catálogo. O professor e pesquisador Boris Kossoy , um dos mais respeitados pesquisadores da fotografia – e também membro do conselho da mesma – escreveu que “o conjunto tem consistência e uma identidade”. Em 2006 a coleção foi tornada pública com consulta pela internet, a “eColeção”.
Embora o MASP seja um museu de prestígio mundial pela qualidade de sua pinacoteca, financeiramente está há anos luz de seus parceiros do primeiro mundo: Lá em 1984, por exemplo, o J.Paul Getty Museum, nos Estados Unidos, comprou de uma vez só, através de vários marchands e em segredo, 18.000 fotografias de autores importantes, desembolsando perto de US$40 milhões, o que representava menos de 25% de seu orçamento total para aquisições.
O Getty Museum leva tão a sério sua coleção que publicou o livro “A Guide to preventive Conservation of Photograph” (Getty Conservation Institute, 2003), escrito pelo francês Bertrand Lavéndrine. Mais de 30 anos de uma pesquisa contínua em preservação de imagens, que sintetiza tudo que há no gênero internacionalmente. Seu autor trabalha no CRCDG (Centre de Recherches sur la Conservation des Documents Graphiques, de Paris, um dos mais importantes do mundo.
É inegável que ter imagens na coleção de um museu importante também dá reconhecimento ao fotógrafo. Por isso, no Brasil, essa relação perdura num contexto quase amador, com pagamentos simbólicos em sua grande maioria. As empresas no Brasil tem a participação muito pequena na difusão das coleções fotográficas, enquanto no exterior, essa cultura esta mais disseminada tanto no setor institucional quanto no privado o que permite boa remuneração ao artista além do prestígio inerente.
Casos como a The Gilman Paper Company Collection, Ford Motor Company Collection e The Chase Manhanttan Collection , ratificam o envolvimento substancial com as artes visuais por parte das indústrias nos Estados Unidos, e isso sem a tal lei de incentivo fiscal, que no Brasil foi e é responsável por muita coisa boa, mas também por boa parte do lixo publicado ou expostoem galerias e museus.
Uma das tentativas de “profissionalizar” a questão da aquisição, foi feita pela Fundação Cultural de Curitiba, que através das Bienais de Fotografia de 1996 ,1998 e 2000, organizadas pelo fotógrafo Orlando Azevedo, montou o Museu da Fotografia Cidade de Curitiba, com um acervo de mais de 2000 imagens de brasileiros.
Contudo, “O esforço inicial foi diluído e abandonado” revela Azevedo, e a Bienal de Fotografia que contava com um orçamento de 350 mil reais, tornou-se a Mostra de Imagética (realizada por Ricardo Ribenboim e Eduardo Brandão), e depois desaparaceu de vez. “Apesar de ter um orçamento quatro vezes maior, a Imagética não avançou nas aquisições, e não deu visibilidade maior ao acervo, tornando o evento provinciano, sem expressão qualitativa ou numérica “, completa Azevedo.
No exterior, os colecionadores particulares não ficam atrás. Umas das expressões é o cantor Elton John. Sua coleção , de cifras milionárias, já virou um luxoso livro, publicado pela Editora Rizzoli. Em 2004 ele colocou 79 imagens a venda num leilão da Christie’s de Nova York e conseguiu vender 73, pondo no bolso cerca de US$ 900 mil. Muitos anos antes, em 1990, o também cantor Grahan Nash, já tinha colocado a venda sua coleção toda, na maioria contemporâneos europeus, na Sotheby’s por nada menos que US$ 10 milhões.
Alguns colecionadores deixam a esfera particular e criam fundações. Caso da empresaria alemã Ydessa Hendeles, que começou seu acervo com apenas 60 imagens de seu conterrâneo August Sander (1876-1964), que fizeram parte de seu famoso livro “O Rosto da nossa época”, de 1929, condenado e censurado pelos nazistas. Em 2005 apenas este conjunto estava cotado acima dos US$ 3 milhões. Cifras que com certeza subiram nos últimos 5 anos. No caso de Hendeles, adquirir fotografias envolve mais do que comprar por beleza. Para ela, “as imagens contam histórias, exploram idéias”. Judia, nascida na Alemanha em 1948 , mas criada no Canadá, foi lá, que em 1988 ergueu a Ydessa Hendeles Art Foudation, em Toronto.
No Brasil, alguns bancos como o Itaú e o Unibanco, (que se uniram e formaram um só grupo em 2009 ) também se envolvem, mantendo instituições culturais que tem como parte do interesse a fotografia. O Itaú Cultural mantém inclusive um acervo on-line, com fotógrafos contemporâneos, que pode ser visto a qualquer momento na Enciclopédia de Artes Visuais, com imagens e biografia do fotógrafo.
O Itau Também investiu em 2007 na formatação de um evento cultural internacional, o Fórum Latino Americano de Fotografia de São Paulo, que este ano fará sua segunda versão. Há mostras periódicas do acervo, bem como um programa de estímulo para jovens fotógrafos, que são coordenados por críticos e curadores importantes.
O Instituto Moreira Salles, instituição que foi ligada ao antigo Unibanco, é uma das que mais investe em fotografia. Com números astronômicos, cerca de mais de 300 mil imagens, é o maior acervo no Brasil de fotografia do século XIX, afirma Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto. O IMS conta com uma equipe de onze pessoas, cuidando diretamente da coleção, e uma reserva técnica de fazer inveja a muito museu nacional e internacional.
O grande acervo, que também contempla imagens da primeira metade do século XX, e outros fotógrafos mais contemporâneos, é formado por doações e aquisições. Entre os highlights está o fotógrafo Marc Ferrez (que o Instituto adquiriu a coleção completa de seu neto Gilberto Ferrez), Claude Lévi-Strauss, com suas imagens de 1935-1937, de quando lecionava na USP, e as obras completas de mestres como Gautherot, Hildegard Rosenthal, Alice Brill e Henri Ballot, Otto Stupakoff , José Medeiros e Maureen Bisiliat entre outros.
É possível, em suas lojas, comprar imagens de alguns autores, ampliadas com padrões museológicos, com preços em torno de apenas 500 reais, para tiragens atuais e ilimitadas de formatos pequenos, ou ser mais modesto na compra de livros que trazem parte desta coleção. O instituto também vende formatos maiores com tiragens limitadas, mas a preços bem menos accessíveis.
Os escândalos Man Ray e Lewis Hine!
Como tudo que envolve altas cifras, o mercado internacional está sujeito a suas mazelas, que de vez em quando atinge proporções milionárias, pondo em dúvida experts e instituições renomadas. Em 1998, o colecionador e marchand alemão Werner Bokelberg, ia ceder seu acervo para uma grande mostra do fotógrafo Man Ray (1890-1976) , e depois vender uma série de cópias consideradas vintage (ampliações de época ) da década de 1940, para o Metropolitan Museum de New York, quando a curadora desconfiou da mesmas. Um exame realizado pela Agfa, empresa alemã, marca do papel utilizado para as cópias, datou a mesmas entre 1992-1993. Resultado: o Museu cancelou mostra e compra.
O caso do fotógrafo Lewis Hine (1874-1940) envolveu o fotógrafo Walter Rosemblum, na época presidente da Photo League, cooperativa que ficou responsável pelas imagens de Hine, desde sua morte. As dúvidas vieram em 1999 quando um colecionador, o físico Michael Mattis mandou fazer testes com suas cópias e se descobriu que as ampliações, assinadas, foram feitas em papéis somente fabricados após a morte do fotógrafo.
Com ampliações e assinaturas falsificadas, possivelmente por Rosemblum, pois era ele que atestava a autenticidade das mesmas, diversos marchands, e casas de leilões fizeram acordos para devolução dos valores pagos pelos clientes, e um acordo confidencial fora da justiça levou o Photo League a criar um fundo de mais de US$ 2 milhões, para reembolsar os compradores. O FBI, envolvido na querela, estima que as cópias da famosa mostra do Brooklin Museum, de 1977, também não sejam vintages.
Alguns marchands brasileiros aprenderam muito com estes eventos e se tornaram precavidos. Procuram vender suas obras com certifcados dos autores, e tentam relacionar as imagens à venda as referências destas registradas em livros. Isso tudo ajuda, mas o que dizer que imagens autênticas que não tem nada disso, ou tiragens manipuladas pelos próprios artistas, ou mais simples ainda, trabalhos de fotógrafos que não fazem limitações a suas tiragens?
Por exemplo: galerias no Estados Unidos, como a Gallery 10 G, da consultora de arte e marchand Jill Fortunoff Gerstenblatt vendem obras de Vik Muniz em formatos 8X10” mas seu catálogo raisonée lançado no Brasil no ano passado (alardeado com o primeiro raisonée de um artista vivo brasileiro) só traz referências sobre algumas delas em tamanhos maiores, caso de algumas imagens da série Clayton Days. Ainda temos muito a caminhar, contudo, andamos para frente!
Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.
Veja mais posts de Estúdio Madalena












Um adendo: o próximo leilão da Sotheby;s dia 20 de maio, em Londres trará highlights como Irving Penn ( de 60 a 80 mil libras) Robert Mappelthorpe ( de 40 a 60 mil libras) Rodchenko ( de 15 a 18 mil libras) Peter Beard ( de 30 a 40 mil libras) Weegee ( de 18 a 23 mil libras.) MAs não se espantem com a libra a quase 3 reais… Algumas cópias de Henri Cartier-Bresson está cotado de 3 a 5 mil libras, e uma Diane Arbus entre 7 a 9 mil libras. Preços para muitos bolsos! (dica de Bel Amado)
Valeu Juan, excelente matéria. Só pra lembrar, organizamos o 1º leilão oficial de fotografia realizado pela Bolsa de Arte, em setembro de 2008, um passo importante para o incentivo ao colecionismo, para o reconhecimento e inserção da fotografia no mercado de arte. Esse ano, durante o Festival Paraty em Foco, iremos fazer a 3º edição do leilão de fotografias.
Muito bom Juan, tomei a liberdade de Twittar o link para leitura dos aficionados por colecionismo. Abs
Obrigado Pepe pela colaboração!!.
Aproveitando o comentário da Isabel, os leilões promovidos pelo Paraty tiveram uma grande repercussão. Colecionadores importantes como Joaquim Paiva, entre outros compraram várias obras, e isso mostra quanto o meio está paulatinamente ganhando espaço.
O primeiro leilão que participei foi o do Paraty em Foco em 2009. A experiência foi sensacional. Organização, qualidade das obras e profissionalismo foram a marca. Além do clima ótimo.
Este anos tem mais!
Muito bom ! Matéria com ótimas informações.Na série de documentários feita pela
BBC The Genius Of Photography, tem um capítulo sobre colecionismo com depoimento
do Peter Macgill sobre as fotos do Lewis Hine. Os documentários podem ser vistos no You Tube.
.abs.Juan nos vemos na Capricho Molduras.
[...] A coluna do Juan Esteves da semana passada aproveitou a realização da SP Arte para falar de coleç…. Ainda dentro do assunto, pegamos carona em uma nota do Artinfo, que fala sobre celebridades-colecionadoras. [...]
Pessoal,
Sobre o Clube de Colecionadores de Fotografia do Mamam, mais detalhes podem ser conferidos no link:http://www.mamam.art.br/index.php?option=com_cont…
Na edição 2010, os autores são: Alcir Lacerda (PE), Claudia Jaguaribe (RJ), Ricardo Labastier (PE), Rodrigo Braga (AM) e Tiago Santana (CE).
Matéria muito boa.
Tem trabalho para todo mundo, especulador de tudo que é tipo, trabalho bom trabalho nem muito bom assim, malandros, oportunistas, pilantras, entusiastas, especuladores, amantes honestos da fotografia (poucos), gente comprometida de verdade com a qualidade (pouquissimos), verdadeiros conhecedores ("pouquisissimos") e muitos seguindo a onda…
É preciso fôlego e estômago forte para tudo i$$o.
Como você disse Juan: "Como tudo que envolve altas cifras, o mercado internacional está sujeito a suas mazelas, que de vez em quando atinge proporções milionárias, pondo em dúvida experts e instituições renomadas". Fico sempre em dúvida se são experts mesmo ou apenas mais alguns oportunistas que se valeram de suas "habilidades e posições sociais" para trabalharem nas tais "instituições renomadas" que com o tempo – rápido hoje – vão se descaracterizando e tornando-se verdadeiros "mercadões da arte".
Que apareçam mais colecionadores, mais leilões, mais fotógrafos, mais artistas, galerias e eventos – mesmo porque vão aparecer, cada vez mais e mais…
Ver é violento.
Leave your response!
Últimas da Blogosfera »
Blogs participantes »
Flickr Convidados 2011 »
Flickr Groups » Participe!
Últimos Comentários »
Tags »
+ Vistos »
Realização
Patrocínio
Parceiros
Apoio