Home » Entrevistas, Featured

Entrevista: Patricia Gouvêa

[ f508 | 20 abr 2010 | 7 Comments | 2.242 visitas ]

Quem conhece o trabalho fotográfico de Patricia Gouvêa, fundadora e diretora do Ateliê da Imagem Espaço Cultural, no Rio de Janeiro, nem imagina que sua primeira paixão foi o cinema. Durante a adolescência, Patricia registrava os eventos que vivia, como festas e viagens, com uma grande filmadora VHS. Quando completou 17 anos, foi estudar na Alemanha e não pôde levar a filmadora porque era muito pesada. Os pais, então, lhe deram sua primeira câmera fotográfica, uma Nikon FM2. A câmera, que a fotógrafa tem até hoje, foi sua melhor companheira de viagem e a responsável por trazê-la definitivamente para o mundo da fotografia.

Patricia Gouvea_Serie Fenda
Foto: Patricia Gouvêa. Da série Fenda

Sua obra fotográfica reúne trabalhos bastante gráficos, outros minimalistas, sendo a sutileza um ponto em comum entre todos eles. A série Transe segue uma linha diferente, mais voltada para a “estética da fé”. Qual foi o caminho trilhado pela fotógrafa Patricia Gouvêa?
Quando voltei da Alemanha, a Embrafilme havia sido fechada pelo governo Collor. Resolvi prestar vestibular para o curso de jornalismo e passei para a turma da ECO/UFRJ que iniciava-se no segundo semestre do ano. Durante o primeiro semestre, fiz um curso com o Walter Firmo na antiga FotoRiografia e fotografei várias festas populares brasileiras. Desta experiência surgiu meu primeiro ensaio fotográfico, intitulado Transe, que na verdade não é sobre a fé, mas sobre o transe do corpo em momentos de êxtase. Meu trabalho começou assim, nas ruas e nas viagens. Com o pretexto de fotografar, fui a lugares inimagináveis, entrei na casa das pessoas… A fotografia passou a ser minha grande companheira, o meu violão de bolso. Quando percebi, estava trabalhando com fotografia, antes de completar a faculdade. Com alguns amigos que conheci no curso do Walter, fundamos, em 1995, a Agência Foto In Cena, que depois se dividiu e veio a ser o Ateliê da Imagem em 1999. Em 1997, fui selecionada para o Curso Abril de Jornalismo em Revistas. Enveredei por este mundo editorial até o ano de 2000, quando comecei a ficar meio insatisfeita em só fazer imagens para ilustrar as ideias dos editores.

Eu já estava pensando e pesquisando sobre “tempo” e fazendo as primeiras fotografias da série Imagens Posteriores. Esta experiência mudou radicalmente a minha forma de ver a fotografia. Em 2002, a série foi premiada como melhor portfólio no Encuentros Abiertos de Fotografía da Argentina, maior festival latino-americano do gênero. Fui convidada para várias exposições, abandonei meus “freelas” nas revistas e passei a me dedicar ao meu trabalho autoral e ao Ateliê da Imagem, que já estava crescendo e absorvendo boa parte do meu tempo. Foi muito importante para mim, nesta época, o grupo de estudos de projetos em arte que frequentei durante 3 anos, sob orientação do João Wesley de Souza. Ele me ajudou a dar forma a muitas ideias e me apresentou artistas e autores fundamentais.

Patricia Gouvea_Serie CorpoSignificante (2)
Foto: Patricia Gouvêa. Da série Corpo Significante

Qual a leitura que você faz do seu trabalho hoje?
Atualmente, estou em um processo de avaliação da minha caminhada. Este ano, completo 15 anos de trabalho intenso e, por causa disso, tenho revisto imagens antigas, os meus cadernos com ideias anotadas – algumas que tomaram forma, outras que esperam seu momento ainda. Esta pergunta de como vejo meu trabalho hoje é justamente meu maior desafio no momento.

Para cada ideia e investigação sobre a imagem eu procuro a melhor forma e a mídia mais apropriada. Às vezes escolho a fotografia, às vezes o vídeo, um objeto ou a escrita. Eu acho que meu olho é treinado na fotografia, mas eu sinto necessidade de buscar outros meios para me expressar.

Patricia Gouvea_Serie_IN_NATURA
Foto: Patricia Gouvêa. Da série In Natura

O Ateliê da Imagem é um espaço de reflexão e prática fotográfica que acaba de completar 10 anos. Como você administra o tempo necessário para o seu trabalho autoral e a direção do Ateliê?
Meu processo de trabalho é um pouco caótico. Já tentei, mas não consigo organizar uma parte do dia para cada coisa, pois é um fluxo de pensamento e produção que caminham juntos. Minha vida e meu trabalho estão intimamente relacionados – muitos amigos acabam sendo parceiros de trabalho e professores do Ateliê. Talvez o Ateliê tenha me forçado a ter disciplina, pois são muitas frentes para organizar e concretizar – cursos, galeria, eventos – e as dificuldades são muito grandes para manter um espaço cultural ativo. Mas a imagem é mesmo uma paixão, e é isso que me move a continuar fazendo tanta coisa. O que acontece, normalmente, é que chega um momento em que essa energia acaba e aí preciso fazer uma viagem para reabastecer meu espírito, meus olhos, meu coração.

Patricia Gouvea_Serie ImagensPosteriores
Foto: Patricia Gouvêa. Da série Imagens Posteriores

Como uma das participantes da Rede de Produtores Culturais da Fotografia do Brasil, quais são as suas expectativas com relação ao encontro da REDE que acontecerá em Brasília no final de maio? Inscrita nos grupos de trabalho (GTs) sobre “Políticas públicas para fomento, pesquisa e difusão da fotografia”, “O ensino da fotografia”, “Meios de difusão e canais de comunicação”, “Projeto sócio-cultural e formato da Rede”, sua carga de responsabilidade e envolvimento é enorme com o projeto. Você acredita que a fotografia brasileira, após a formação da REDE, obterá mais respeito e visibilidade?
Esta organização da REDE é um acontecimento muito lindo para a fotografia brasileira. Lembro que durante o 1º Fórum Latino-Americano de Fotografia, em 2007, sugeri ao então presidente da Funarte, Celso Frateschi, que fosse feito um mapeamento das iniciativas culturais da fotografia brasileira e que essa informação fosse disponibilizada em um site, promovendo a integração nacional dos produtores e fotógrafos. Ele chegou a sugerir um encontro para isso, mas saiu do cargo e o assunto ficou adormecido.

Até que o Iatã (Cannabrava) convocou uma reunião no último Paraty em Foco, aproveitando o fato de que muitos destes produtores culturais estariam lá. Agora, a REDE está se concretizando e acredito que ela será um marco na evolução das relações nacionais entre todos os campos e saberes que a fotografia envolve e em sua consolidação como um importante vetor na política cultural do governo brasileiro, como é o cinema atualmente, por exemplo. Aqui no Rio, eu e o Milton Guran estamos organizando um pré-encontro no dia 27 de abril, no Ateliê, para discutirmos ideias e propostas com aqueles que não poderão ir a Brasília.

Ainda bem que não é a Funarte que está promovendo este mapeamento e sim nós mesmos, pois isto está fortalecendo as relações e o sentido de coletividade, que é a principal coisa em questão para mim. Não tenho informação de nenhum movimento similar em outro país, o que faz a REDE se destacar também internacionalmente.

Patricia Gouvea_Serie ImagensLiquidas
Foto: Patricia Gouvêa. Da série Imagens Líquidas

Recentemente, o Canal Contemporâneo recusou-se a divulgar a exposição Alquimia, do fotógrafo Guy Veloso, alegando que as fotografias fossem documentais e não artísticas, e que, sendo assim, o material fugia ao foco de trabalho do Canal. Qual a sua visão sobre isso? O trabalho Alquimia, mesmo que seguindo uma linha mais documental, não teria uma estética e um discurso que o aproximam do autoral?

Sinceramente, eu só pude lamentar esta posição do Canal, informar os meus colegas sobre o ocorrido e cancelar minha assinatura. Esta “ideia” sobre a fotografia para mim é velha demais, não tenho mais energia para isso. Estas divisões entre arte, documento, memória, autoria, imagem técnica, etc, são cada vez mais fluidas e, no meu ponto de vista, tudo depende da proposta pela qual um trabalho será mostrado, da concepção da curadoria, como o conceito será vivenciado e experimentado pelo público. Eu tenho sempre este cuidado, aqui na galeria do Ateliê, e achei preconceituosa a postura do Canal em relação ao trabalho do Guy, pois quando enviamos material para lá são apenas 3 imagens que vão representando o trabalho do artista. Como é possível julgar o trabalho de um artista por 3 imagens?

Patricia Gouvea_Serie ImagensLiquidas (2)
Foto: Patricia Gouvêa. Da série Imagens Líquidas

A sua “melhor foto“, publicada em nosso blog, veio acompanhada de um texto bastante emotivo. Sua produção é sempre permeada por essa carga emocional?
Eu acho que a arte precisa tocar as pessoas. Se uma pessoa sai minimamente transformada de uma experiência artística, pensando sobre o que ela ouviu ou viu, aquela obra cumpriu o seu papel. A arte também me transformou muito. Ter passado alguns meses na Alemanha com 17 anos de idade, conhecendo, de graça, as coleções dos grandes museus, a sede da Bauhaus, indo em concertos de música clássica nas igrejas desativadas, mudou completamente a minha vida, pois vim de uma família que não tinha este conhecimento e não podia me incentivar. Se uma criança é incentivada no contato com a arte desde cedo ela vai crescer e circular naturalmente neste mundo. Não vai achar que arte contemporânea é um bicho de sete cabeças.

Na minha dissertação de mestrado eu decidi arriscar e fazer uma introdução bastante pessoal, partindo do meu trabalho (a série Imagens Posteriores) e das reflexões que ele me trouxe sobre o tempo na imagem. Abro minha dissertação com uma carta que uma grande amiga me enviou quando sua avó estava morrendo e onde ela falava sobre os lençóis do tempo, as gavetinhas da memória, os pequenos objetos que ela estava recolhendo na casa da avó e que a faziam viajar no tempo e ser criança de novo. Eu pensei: em vez de falar de Marcel Proust, de Deleuze, de Bergson nesta introdução, de apresentar as “bases teóricas” como é a norma na academia, eu vou colocar esta carta, pois eu estou escrevendo para refletir sobre o que me move, estou escrevendo para os meus amigos e para aqueles que puderem se identificar com isso. Eu sabia que poderia me dar mal, mas eu não sei fazer de outra forma. E não é que deu certo? Foi o primeiro ponto elogiado pela banca examinadora.

Patricia Gouvea_Serie Exercicios_de_ArteLudica
Foto: Patricia Gouvêa. Da série Exercícios de Arte Lúdica

Quais os projetos futuros do Ateliê da Imagem e de Patricia Gouvêa?
Planejamos realizar novamente, no ano que vem, o Máquinas de Luz: 1º Fórum das Imagens Técnicas, projeto que idealizei e coordenei ano passado e que marcou os 10 anos do Ateliê, e torná-lo um projeto bienal. Temos também um outro projeto a ser realizado no Itaú Cultural, estamos apenas aguardando a confirmação. A galeria do Ateliê está se firmando no circuito de arte do Rio e já estamos com programação fechada até o ano que vem. Em 2010, teremos uma exposição da Colômbia, uma da Argentina e outra da Itália. O projeto Sexta-Livre completou 10 anos e já é um ponto de encontro quinzenal para artistas, fotógrafos e estudantes. Estamos caminhando para diversificar os cursos mais teóricos e de pensamento sobre a imagem.

Este ano será lançado o livro da minha pesquisa de mestrado, Membranas de Luz: os tempos na imagem contemporânea, pela Azougue Editorial. E para comemorar meus 15 anos de fotografia, estou finalizando o projeto do livro sobre a série Imagens Posteriores, que terá um texto da pesquisadora e crítica colombiana Maria Iovino. Tenho um projeto de exposição para o fim do ano, site novo e meus diários filmados da Índia e Nepal, viagem que fiz agora em dezembro de 2009 e janeiro de 2010, que estão quase prontos, saindo do forno…

Por Júlia Salustiano | f/508

Veja mais posts de f508

Não gostei!Gostei! (Saldo de votos: -1, Total de votos: 1.)
Loading ... Loading ...




7 Comments »

  • Fotoclube f/508 said:

    [...] aqui a entrevista, publicada no blog do Paraty em Foco. Tags: Ateliê da Imagem Espaço Cultural, blog [...]

  • Tweets that mention Paraty em Foco 2010 » Blog Archive » Entrevista: Patricia Gouvêa -- Topsy.com said:

    [...] This post was mentioned on Twitter by christian brandão, 6º Paraty em Foco and DoBem_News, iatã cannabrava. iatã cannabrava said: mais um post imbatível do @f508 no blog do @paratyemfoco: entrevista com patricia gouvêa, do ateliê da imagem http://migre.me/yaDX [...]

  • juan esteves said:

    Em 2002 tive o prazer de participar juntamente com Patrica e Guto Araujo, de exposições na Pinacoteca Benedicto Calixto, no programa de editais da instituição. Naquela ocasião já dava pra notar que a fotógrafa ia longe! Parabéns pela entrevista! Lucidez e arte nem sempre são coisas que andam juntas e Patrícia esbanja as duas!
    Abraços!
    Juan

  • Liliane Schwob said:

    Bela entrevista Patrícia!! Estimulante e consistente!!
    beijos, Liliane Schwob

  • iatã Cannabrava said:

    Confesso que sou fã da Patricia, poucos conseguem administrar tão bem uma carreira artística e tocar um projeto do porte do Atelie da Imagem, mantendo o brilho nos dois. Parabéns Patricia

  • Patricia Gouvêa said:

    Ai gente que emoção… Super obrigada pela força!

  • Marcos Monnerat said:

    Que bom ter te visto hoje no Jardim Botânico! Parabéns por todo esse sucesso e pela maturidade artística que tem alcançado.Bravo, ich bin sehr stolz auf dich!

Leave your response!

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Be nice. Keep it clean. Stay on topic. No spam.

You can use these tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

This is a Gravatar-enabled weblog. To get your own globally-recognized-avatar, please register at Gravatar.

Realização

Patrocínio

Parceiros

Apoio