“As fronteiras que a arte se impõe”, parte 1
Esses dias li uma matéria na Bravo, sobre Lady Gaga (como ela tem sido citada aqui no blog, não?), em que Dudu Bertholini, estilista da Neon, dizia: “O século 20 foi marcado por correntes estéticas que predominaram numa década ou outra, de tal mandeira que, ao bater o olho, somos capazes de reconhecer uma imagem dos anos 40 ou 60. Hoje em dia, no entanto, está tudo misturado”.
Separar as coisas, etiquetá-las e defini-las são hábitos de profissinais de almoxarifado, mas também do meio artístico – numa postura bem Opus Dei, se me permite o pitaco. De umas dácada para cá, graças a Deus, estas definições vão ficando cada vez mais translúcidas. Recentemente, numa troca de e-mails com Pio Figueiroa, o menino da Cia de Foto falou sobre “as fronteiras que a arte se impõe”. Decidi transcrever um trecho aqui, porque é demais:
Ando meio pirado e fã com as coisas de Paulo Bruscky. Aquilo que ele fez em 80, ou antes, vai ficando melhor a cada dia. Quando ele trabalhava no Hospital Agamenon Magalhães, observou que umas 10h30 da manhã, as luzes dos reflexos dos carros, que passavam pela rua, entravam pela janela de sua sala. Ele então mediu a mancha que a luz fazia na parede e encomendou uma moldura. Pronto: a partir daí tinha uma obra (fotográfica) na parede pública de seu trabalho. Um dia, na época da ditadura, quando ele estava preso, o guardinha, inconformado com as teorias do preso doidão, disse: “Quer dizer que se eu pegar um pedaço desse piso daqui e puser na parede, é arte?”. Bruscky respondeu: “Rapaz, se você colocar, não. Agora, se eu colocar, aí sim é arte”. Foi bem a Vanguarda Russa que começou a desrespeitar essas fronteiras que a arte se impõe. Lá no começo so século 20, os russos misturavam pintura com fotografia, arquitetura e texto, sem muito pensar sobre onde estavam, a que grupo pertenciam. Do lado de cá do muro, só em 60 é que os amigos minimalistas ou os Matta-Klarkes, Robert Smithissons da vida, começaram, também, a desreispeitar tais fronteiras impostas, as expressões, pelos chatos dos modernistas.
Pensando em tudo isso, me deparei recentemente com dois artistas: o poeta brasileiro Ricardo Domeneck e o fotógrafo alemão Timo Klos. Eles me chamaram muito a atenção, não somente pela delicadeza dos seus trabalhos, mas porque ambos desafiam a própria mídia escolhida – e, principalmente, o paradigma do tempo dentro delas. No vídeo, o paradigma da narrativa dentro de um espaço de tempo e, na foto, o paradigma do congelamento do tempo no espaço.
Timo Klos é um jovem fotógrafo alemão de 26 anos. Seu trabalho Orr consiste no registro de seus últimos dias junto com a namorada (que se chama Orr), na Finlândia. Timo fotografou momentos aparentemente nada espetaculares (um cigarro de menta fumado na rua, um banho quente), enquanto eles durassem, gerando imagens com exposições de até 9 horas. A premissa de Timo é basicamente de tempo em movimento mas, no lugar de optar pela obviedade (no caso, fazer um vídeo), ele tomou a interessante de decisão de colocar à mídia serviço de sua ideia, e não o contrário. Resultado: ele desafia não somente a narrativa, como também o próprio fazer artístico. Seus auto-retratos acabam virando auto-video-retratos. E mais: a ideia de que você tira uma foto para congelar um momento, no trabalho de Timo, é destruida. É o próprio Timo quem explica: “Quanto mais eu queria captar um momento, menos ele aparecia na foto”.
Essas fotos foram incluídas na última Talent Issue, da Foam.
No caminho inverso, temos o brasileiro Ricardo Domeneck. Ricardo começou suas experimentações audiovisuais em 2005, a convite da TV Cultura, quando fez “Garganta com texto“. A partir daí, ele começou a fazer retratos em video: meninos lindos de 20 e poucos anos, habitantes da fauna noturna da deliciosa Berlim, posam para sua camerinha de video. Sem fazer nada. Minutos e minutos.
Carl, por Ricardo Domeneck
O instigante deste trabalho de Ricardo é que ele dá de ombros da máxima “luz, câmera, ação!”, tirando a última da lista quando aperta o on da sua câmera. A narrativa ganha nuances ligados à poesia. O vídeo se aproxima do estilo de retratistas tipo Imogen Cunningham. E a mistureba de referências é tão fluida quanto a própria trajetória artística de Ricardo – que mora em Berlim, onde e de onde escreve seus livros (Carta aos anfíbios; e a cadela sem logos e Sons: Arranjo: Garganta, publicados pela Cosac Naify), é tradutor, performer, um dos donos da festa Shade INC e editor da revista Hilda. Sobre esse hábito modernista de classificar as obras de arte com nomes óbvios, Ricardo diz: “Quem me interessa é a galera que trabalha entre os gêneros, misturando referências, os inclassificáveis. Eles são importantes para mim como gente, como pessoa, como bicho humano, não só como ‘artista’, essa palavra esquisita”.
Ken Pratt, editor da revista inglesa Wound, descreveu a pesquisa dele assim: “Uma parte do fascínio exercido pelo do trabalho de Domeneck é a recusa de ser uma coisa ou outra. Às vezes, o trabalho é tão estático quanto uma pintura e, mesmo que não seja um momento congelado, ainda assim a obra é baseada no tempo. Outras vezes, a extrema quietude dos pequenos momentos é amplificada, em parte pela recusa de colocar elementos estranhos dentro da cena. Isso é, talvez, uma coisa exclusiva da poesia, com sua dicotomia intrínseca, de que algo que é vivido também luta para ser documentado em forma de – ou passado para – texto”.
Portrait of Heinrich, por Ricardo Domeneck
Quando perguntei a Ricardo, recentemente, em quem ele pensava quando criava seus vídeo-retratos, as respostas não podiam ser mais coerentes com essa confluência de mídias – e a lista inclui desde o coreógrafo mineiro Klaus Vianna, ao fotógrafo alemão documental do século 19, August Sander: “(…) Talvez haja [nos vídeo-retratos] um diálogo com fotógrafos germânicos como Walter Pfeiffer, Wolfgang Tillmans, Juergen Teller e Heinz Peter Knes. Há uma certa tradição do ‘realismo’ aqui na Alemanha que por certo me influenciou muito”.
E o realismo de Ricardo é, na verdade, a documentação da esfera privada, o que o aproxima, no discurso, de trabalhos como os de Nan Goldin. Mas isso é o que se vê. Ricardo ainda inclui mais uma camada aí: o direito de não significar. Perguntei a ele onde ele queria chegar com esses video-retratos, porque eu vejo muitas possibilidades de entendimento deles: a obra que analisa o fazer artístico; o lirismo puro e simples, do belo-pelo-belo-e-daí?; e, no fim, beeeem sutil, a questão da homossexualidade. Bueno, se ninguém conhece o autor da obra (no caso, Ricardo), não dá pra saber se quem filmou foi um homem heterossexual, um homem gay, uma mulher heterossexual, uma mulher gay, ou o próprio retratado.
E ele encerrou nossa conversa assim: “Uma das coisas de que mais gosto quando faço estes retratos é justamente o silêncio. Como trabalho primordialmente com palavras, sendo poeta e escritor, às vezes eu me canso imensamente delas; estes retratos são como um momento de quietude. É por isso que evito falar muito sobre eles, porque eles têm um equilíbrio muito delicado, eu penso, que seria fácil afogar com palavras. Há esta relação entre tempo e espaço, confundindo fotografia e vídeo; há uma certa abordagem muito levemente erótica, talvez, mas no fundo são só momentos de “aproximação” do outro. Nesses vídeos, eu sempre tive muito prazer na busca justamente da delicadeza, da fragilidade, do quieto, como nos trabalhos de Leonilson, por exemplo, uma espécie de lirismo que não tem medo de ser apenas singelo e nada mais“.
Essa coisa do direito de não querer dizer nada, de criar uma obra apenas para o deleite, é um tópico que sempre rende discussões calorosas aqui no Estúdio. A premissa de Ricardo nos levou a conversas sobre os trabalhos de Marina Abramovic e Damien Hirst; Jéssica Mangaba e Breno Rotatori e muitos outros. Mas isso é assunto para um próximo post. Aguarde cena dos próximos capítulos!!
Este texto foi escrito por Adelaide Ivánova, Pio Figueiroa, Talita Virgínia, Paula Castro, Silvana Medeiros, Inti Queiroz, Ricardo Domeneck e Cindy Sherman.
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Lembro-me de uma fotografia que envolve dois fotógrafos. O fotojornalista e umbom retratista. Já havia terminado a segunda grande guerra… Acho que sim… Cercada de escombros, uma senhora posa para o fotógrafo que improvisou um fundo infinito simples. Reconheço de imediato, candura no olhar da fotografada e a calma zen do fotógrafo retratista.
Bem, mas se fosse somente aquela fotografia da senhora tendo o fundo infinito e o fotógrafo retratista e câmera de grande formato como testemunhas, não teria me arrancado lágrimas e jamais eu teria me apaixonado por pessoas que estavam naquela fotografia tão cheia amor.
Mas de onde surgiu, o que me provocou tanta emoção, tanto amor por aquelas pessoas desconhecidas? A segunda fotografia que entrou para a história. A do fotojornalista. Aquela fotografia que enquadra tudo, todo o plano conjunto, envolvendo fotógrafo, fundo infinito de pano de branco duvidoso, senhora e escombros gigantescos, testemunhas inertes da maldade humana.
É justamente na fotografia do fotojornalista, no segundo ou primeiro acionar de obturador – não sei quem dos dois acionou primeiro suas tarefas de eternizar bons momentos – que consigo ver a alma humana cheia de amor e esperança, mesmo eu sabendo que todos os três personagens vivos, naqueles instantes de pós dor, que escaparam por um triz, celebravam a sua maneira, a vida futura para a posteridade. E através do instante decisivo, a felicidade de uma nova era estava eternizada por um olho poético que via tudo…
Gostei da Obra coletiva, acho que pode dar um beloo samba levar isto ao Paraty em Foco (a discussão)!
vamos em frente!
Gostaria de lembrar também o trabalho de Eve Sussman que esteve por aqui no Itaú cultural
ano passado.O trabalho mostra um video de 9 minutos, chamado 89 seconds at Alcázar no
qual ela mostra os minutos que antecedem Velázquez preparando a familia real para
pintar o famoso quadro as Meninas.Nada acontece e tudo acontece.
abs.Armando Prado.
"Essa coisa do direito de não querer dizer nada, de criar uma obra apenas para o deleite…"
Penso ser este o maior objetivo da pessoa que procura meios para se expressar, e no caso da fotografia não é diferente. O deleite é de quem?
Sinto que equipamento e técnica, quando passam a fazer parte do fotógrafo, incorporam-se ao seu fazer fotográfico. Existem, mas é como se não existissem e se for assim, deixam o fotógrafo livre para criar sua própria linguagem, possibilitando sua expressão pessoal, daquilo que carrega dentro de si, através das imagens assim produzidas, e penso que para seu próprio deleite. Se a gente perguntar o significado da imagem, isso não importa. O importante é o resultado onde se identifica e que reflete o sentimento de satisfação do autor.
A partir daí outras questões surgem com as diversas leituras, quando a linguagem ganha vida, quando penetra – ou não – no mundo interno de cada espectador que sente seus sentimentos, que discute e racionaliza – ou não.
Quantas vezes apresentamos um trabalho onde a nossa foto preferida é rejeitada? E tempos depois aquela imagem cai no imaginário de outras pessoas e vem a tona como um grande trabalho? Quantos possuem trabalhos não aceitos pelo inconsciente coletivo e jamais serão veiculados?
"Essa coisa do direito de não querer dizer nada…” prá quem?
Se a pessoa conseguiu se expressar, estando satisfeita com aquela imagem, penso que este fato deveria ser comemorado pela própria pessoa, pelo fato “de criar uma obra apenas para o deleite”… do próprio autor, e porque seria diferente?
Bem esoterico o texto e as imagens, perfeito para as galerias hermeticas dos "grandes centros" de cultura.
No infindável abismo da memória do homem moderno se encontra um rico universo imagético que está inscrito em velhos manuscritos com suas imagens enigmáticas e charadas linguisticas. Muitos destes criadores procuraram remeter seus trabalhos para uma época lendária onde se encontrariam as origens de sua arte e a fonte de sua sabedoria.
O patriarca do misticismo e da alquimia no "ocidente" – Egito, Grécia Antiga – recebeu o nome de Hermes Trimegisto; na India, País místico por excelencia talvez tenha sido Vyasa, aquele que ditou o maior poema do mundo, o Mahabharata, para Ganeça – a divindade com cabeça de elefante – para transcrever a "historia do mundo". Em todas as culturas a magia, a arte e a especulação a respeito das coisas do mundo e do proprio mundo andaram de mão dadas até que o elo foi rompido da passagem da alquimia para a quimica, lá pelos idos dos séculos 17/18.
A magia não acabou – o mundo e as coisas do mundo pra mim são mágicas, esta cheio de magia, meu universo é feito desta substância, Maya. A ilusão só é ilusão quando confundida com a realidade, a realidade para algumas escolas do pensamento hindu só pode ser atingida em um estado "alterado da consciencia" onde todas as linguagens são insuficientes para expressa-las.
A linguagem obscura e secreta foi uma condição que estes artistas/pensadores encontraram para expressarem as suas impressões. O psicanalista C. G. Jung tentou a vida toda entender a psique atraves principalmente destas obras – no caso aqui os alquimistas da Idade Média. Joseph Campbel, o grande mitologo, seguindo as pegadas de Jung chegou a conclusão que os mitos "morreram", ja não tem mais importancia e nem são entendidos pelo homens do seculo XX, e em uma de suas conferencia transcritas disse que caberá aos artistas forjarem novos mitos.
Vyasa, Hermes Trimegisto, William Blake (o escritor mais controverso de toda a historia da literatura segundo Borges), Schelling, Yeats, James Joyce, Rimbaud, Artaud, Paracelso, Jacob Bohme, Pitagoras, Democrito, Andreas Cellarius, Franciscus Aguilonius, e muitos outros tentaram desvendar os segredos do mundo e das coisas do mundo e em seus processos artisticos acredito que alguns conseguiram desvendar os olhos e ver além, e através de suas obras conseguiram despertar muitos outros para a compreensão e a percepção de outros mundos. Ver é movimento.
Atualmente, as imagens e textos esotericos só dizem respeito – me parece – as galerias hermeticas. As imagens são tão "literais" que ja não dizem nada e necessitam de um texto esoterico ao lado para "valida-las", "explica-las" e "designa-las" qualitativamente.
Talvez o silencio contenha todas as palavras.
Um grande AUM a todos!
Namaste!
Pois é , 'essa coisa do direito de não querer dizer nada' me lembrou de um a frase do fotógrafo americano William Eggleston, no documentário 'William Eggleston in the Real World' . "Whatever it is about pictures, photographs, it's just about impossible to follow up with words. They don't have anything to do with each other." Fora a insistência do diretor , em outros momentos do filme, em fazer ele teorizar seu trabalho. Abraços!
Ô gente, muito boa a discussão, super pertinente, contemporânea, pós-moderna e tal. Só acho bem superficial o julgamento sobre a história da arte, principalmente em relação ao período moderno (mas não apenas – os "ismos" surgiram algum tempo antes).
"Separar as coisas, etiquetá-las e defini-las são hábitos de profissinais de almoxarifado, mas também do meio artístico – numa postura bem Opus Dei, se me permite o pitaco."
Fazer um julgamento como esse significa desprezar a forma como o processo histórico da arte evoluiu e, principalmente, como nos deu a liberdade, hoje, de denominarmo-nos pós-modernos. Estamos, basicamente, fazendo o mesmo que eles: puxando fronteiras, rompendo limites. Ou não? Damo-nos, inclusive, o privilégio de nem mesmo classificar o que fazemos, e chamar de arte qualquer coisa que se proponha como tal. Incrível, não?
Agora, artista que não quer dizer nada… duvideodó.
A Grande Feira de Luciano Trigo, explica muitas coisa sobre artes e desastres impostos nos últimos anos dentro das galerias, etc. Objetivo e seco o que ele escreve e que eu chamo de empulhação tudo aquilo que não emociona ninguém, mas ninguém mesmo. Só o autor, e talvez… Porque muitos autores deixaram de criar para ele, para criar para uma plateia tribalizada. Uma bela criação tem que emocionar. Ou então… Vale a pena a leitura do livro…
[...] mesma tarde, convidei o escritor Ricardo Domeneck (já falamos sobre ele aqui no PEF) a fazer mais umas perguntas pro Heinz. Ricardo foi fotografado por ele quatro anos atrás, para a [...]
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