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Etnofoco | Interculturalidade e experiência humana

[ f508 | 14 mai 2010 | 7 Comments | 4.416 visitas ]

No mês de abril, o curta-metragem Cinzas Sagradas na Era de Kali, produzido pelo coletivo brasiliense Etnofoco, foi exibido no Musée du Quay Branly, em Paris, durante o colóquio internacional “Reflexão sobre imagens para uma combinação da fotografia e do filme”. Cinzas Sagradas na Era de Kali é produto de uma pesquisa de dez anos realizada pelo fotógrafo Olivier Boëls e pela antropóloga Lena Tosta, fundadores do Etnofoco, com os ascetas hindus heterodoxos, os sadhus nagas e aghoris. Por meio da associação do vídeo com a fotografia e a etnografia, o Etnofoco sugere uma reflexão acerca da hibridização de linguagens e das especificidades das imagens fixas e animadas, temas que permearam o colóquio em Paris.

01.Naga Sadhus
Naga sadhus fazem demonstração de poderio bélico. © etnofoco

02.one foto
A fotografia do guru é instrumento de darshan, aprendizado através da imagem.  © etnofoco

Como surgiu a oportunidade de participar do colóquio? Como foi a recepção do público ao trabalho?
A oportunidade surgiu durante um congresso, a reunião dos antropólogos do Mercosul (RAM) de 2007. Participamos de uma oficina de etnofotografia coordenada por Sylvaine Conord (CNRS, Universidade de Paris, Nanterre) e Luiz Eduardo Achutti com uma apresentação de uma primeira edição de Kali Yuga. A apresentação tocou a professora Conord e já naquele momento foi feito o convite para participar da seleção para o evento.

A recepção foi estrondosa. Entre elogios e críticas, nosso trabalho foi certamente o mais debatido do colóquio. É claro que o mérito não é só nosso ou de nossos parceiros da Olho Filmes, é também dos nossos sujeitos de pesquisa – os sadhus – cuja percepção de mundo é tão única e dissidente – e tão pouco familiar – que naturalmente gera debate.

03.Maharaj Amar Bharti Samadhi
Maharaj Amar Bharti em samadhi, estado de não-dualidade. © etnofoco

04.lente tantrika do HARI bharti

Através de sua lente tântrica, Hari Bharti lança um olhar sobre nossa era contemporânea. © etnofoco

Quem são os sadhus nagas e aghoris?
Os sadhus nagas e aghoris são os iogues extremos que sempre povoaram nossas Índias imaginárias. Praticantes de uma sabedoria tradicional em que a transgressão é bem-vinda, esses descendentes da “sabedoria louca” dos legendários 84 mahasiddhas vivem no corpo o objetivo de transcender toda dualidade: a dor, a violência, a intoxicação e, em última instância, a morte. Sua filosofia de vida, algumas vezes chamada de não-dualismo radical, é relativista, vivencial e está sempre aberta a ser reinventada, por isso quisemos ver como eles a atualizam no nosso mundo contemporâneo.

05.web of life
Teia da vida. © etnofoco

Quais foram as contribuições do Etnofoco para o colóquio, que reuniu etnólogos, sociólogos, artistas e historiadores da imagem em uma reflexão sobre a articulação das imagens fixas e animadas e a hibridização de linguagens?
Outros trabalhos tem outros méritos, o nosso foi de apresentar uma produção imagética autoral e compartilhada, cujo processo de aprendizado com os sujeitos se expressa nas mudanças de escolhas editoriais e na hibridização de linguagens. Na medida em que fomos conhecendo melhor nossos principais interlocutores, fomos repensando nossa maneira de representá-los. Inicialmente, propusemos a fotografia em preto e branco porque o PB casa bem com uma leitura do mundo simbólico deles, em que as cinzas são o elemento central. A hibridização das linguagens foi sugerida pela leitura que eles fazem do sagrado na contemporaneidade: vivemos em Kali Yuga, a era da degradação, do enaltecimento dos ritmos e dos sentidos. Assim, para representar melhor a multiplicidade, a sensorialidade e até o caos dessa era, passamos para a fotografia em cor, com um ritmo acelerado de narração de texto e imagem, até chegar a uma linguagem quase de videoclipe. Em seguida, inspirados pela idéia de darshan (algo como o aprendizado através da visão de uma presença sagrada), finalizamos com uma edição de imagens sem narração de Maharaj Amar Bharti, guru praticante da austeridade de manter o braço levantado, que adotou a pesquisa e participou ativamente na concepção e edição do material. Tal edição foi feita com o propósito de utilizar a fotografia da mesma maneira em que ela foi assimilada ao mundo dos sadhus: como um darshan. Aprendemos com eles, portanto, que o colorido e o caótico também podem espelhar o sagrado e, assim como o corpo do guru, a imagem evoca essa presença.

06.Samadhi
A morte auspiciosa deste guru, na “noite de Shiva”, foi fotografada a pedido de seus irmãos para manter viva a eficácia de sua presença. © etnofoco

Considerando que a imagem-documento não é possível e que esta representa regimes de verdade – ou como definiria André Rouillé, “a fotografia é a espuma do falso” – como é trabalhada hoje a questão da imagem na antropologia?
Como aqui não teremos espaço para discorrer sobre o estado da arte desse debate, vamos deixar apenas um rastro de como nós lidamos com a questão. A antropologia há muito já abandonou uma noção a priori de real ou o privilégio do observador/pesquisador em acessá-la ou expressá-la. Buscamos inspirar-nos nas noções de real e de visualidade dos sujeitos representados e produzir tentando expressar tais noções em linguagem imagética, textual e sonora. Trabalhamos com a possibilidade de afetar o público com a perspectiva do grupo que estamos pesquisando. Felizmente para nós, tanto a idéia de realidade quanto de visualidade são proeminentes e muito ricas no hinduísmo. A imagem e o mundo sensorial – e até a performance – têm lugar central entre os ascetas hindus. A aparência expressa uma realidade, mesmo que relativa. E a imagem não é vista como representação apenas, ela é efetiva, actante. Por exemplo: acredita-se que a imagem de uma entidade empoderada – seja o guru, o Rio Ganges ou uma visualização mental de uma mandala – pode transformar diretamente a percepção de realidade daquele que a acessa. Tentamos instrumentalizar essa noção na nossa pesquisa.

10. Aghori kitcheri Baba
Aghori sadhus como Kitcheri Baba ingerem ritualmente substâncias consideradas contaminadoras pela ortodoxia hindu: neste caso, carne humana. © etnofoco

08. Kali Yuga
Sadhus em Kali Yuga: Maharaj Amar Bharti e seus discípulos são “dedetizados” durante o festival Kumbha Mela. © etnofoco

Quando e por que decidiram formar o Etnofoco?
Etnofoco nasceu informalmente há dez anos, quando fizemos nossa primeira imersão de um ano na Ásia com sadhus e outros sujeitos humanos. Descobrimos o prazer de trabalhar em parceria e um sonho em comum: produzir pesquisas com produção de imagens que sensibilizem o maior número de pessoas para a abrangência da experiência humana, em todos os meios e mídias possíveis. A produção imagética enriquece a pesquisa antropológica em muitos aspectos, mas talvez o mais importante para a parceria Etnofoco é sua capacidade de conduzir o encantamento da antropologia pelo diálogo intercultural para um público mais amplo que o acadêmico. Por outro lado, a produção de imagens também se enriquece e aprofunda com o uso de metodologias e insights antropológicos.

07.Pes do Guru
Os pés do guru são o farol que conduz o discípulo da escuridão à luz. © etnofoco

09.Maharaj Amar Bharti
Maharaj Amar Bharti em momento de intimidade. © etnofoco

Como funciona o processo de trabalho de vocês?
Todos os estágios de produção são percorridos juntos – do trabalho de campo à edição de fotografia e vídeo, da concepção à finalização do material, que pode ser um filme, uma exposição ou um texto com fotografias. Cada um contribui mais com sua área de expertise, Olivier com a imagem fixa e a edição de imagens, Lena com pesquisa antropológica, edição de imagens, produção de ‘roteiro’ e vídeo. Mas também experimentamos freqüentemente, e com prazer, o lugar do outro no processo. Como a parceria é o nosso mote, contamos também com a valiosa contribuição da Olho Filmes na produção do curta. Estamos agora ativamente procurando outros parceiros – artísticos e financeiros – para a produção do longa-metragem.

Lena Maharaj Olivier
Olivier, Maharaj Amar Bharti e Lena no refúgio do guru. © Amit Dhiman

De que forma se dá a imersão do Etnofoco na comunidade que irá documentar?
A maioria dos trabalhos que produzimos demanda imersão longa e continuada. É preciso reconhecer que os seres humanos e seus mundos imaginários são complexos, assim como é delicada a tarefa de tentar compreendê-los, quanto mais de representá-los. Por isso, na medida do possível, buscamos respeitar o ritmo em que a intimidade acontece e estabelecer laços de dádiva. Acreditamos que seja possível, ao longo do processo de pesquisa e produção de imagens, construir relações de amizade e aprendizado. Para tanto, é preciso abrir nossa casa, nossa intimidade e nossos corações como esperamos que nossos pesquisados façam conosco, além, é claro, de incluir os mais envolvidos no processo de produção e nos lucros simbólicos e reais do trabalho.

Por Júlia Salustiano | f/508

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7 Comments »

  • Fotoclube f/508 said:

    [...] aqui a entrevista completa. Tags: blog do Paraty em Foco, Etnofoco, Lena Tosta, Olivier [...]

  • Gisa Müller said:

    Parabéns amigos pelos belissímo trabalho tão unico com grande conhecimento e olhar de poesia dessa cultura tão magnifica na sua forma de ser.
    Desejo que seu trabalho com os Sadhus possa reverberar aos quatro cantos do globo, levando uma nova visão desse estilo unico e fascinante de vida.

    Com enorme carinho e apreciação
    Gisa Müller

  • Camillo Righini said:

    Olivier,

    maravilha de trabalho! Torço para a concretização do longa.
    Abração,

    Camillo Righini

  • Marcelo Dischinger said:

    Parabéns pelo belo trabalho!

  • Koreano said:

    Incrível a maneira com que, em poucas imagens e palavras, vocês conseguiram apresentar o trabalho de forma a empolgar e atiçar a curiosidade a respeito da obra, mesmo em um leigo curioso. Obrigado por me mostrarem que existe uma visão diferente da nossa existência neste complexo planeta. As vezes nos esquecemos disso… Importante trabalho. Parabéns.

  • Bizerril said:

    Amig@s,
    Parabéns pelo belíssimo trabalho, que vem amadurecendo ao longo de todos estes anos. É importante que a multiplicidade de modos de vida neste mundo possa ir além do pequeno compartimento hermético em que se dão os debates acadêmicos de antropologia. E o desafio que vocês enfrentaram com sucesso foi ampliar o acesso a um tema tão complexo, com o devido respeito pela sua complexidade e beleza e, mais do que tudo, sem permitir que estas realidades se banalizem ou se exotizem para serem conhecidas.

  • @erexim said:

    Parabéns amigos.
    No mínimo do mínimo muito curiosa essa escolha de Amar.

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