Kashemira
Arthur Monteiro e Isabela Lyrio, integrantes do coletivo fotográfico Punctum, de Brasília, estão em viagem pela Índia e narram suas vivências em Srinagar, na Kashemira:
“Fazia calor e as montanhas sentiam falta d’água. No porta-malas do jipe, o vai-vem da estrada dava náuseas.

Pararam o carro. Pediram passaporte, anotaram algumas coisas e seguimos.

Dois quilômetros e meio de túnel – escuro, abafado, longo, estreito, interminável –, os faróis dos carros – quanto militar –, minutos, horas depois, lá no fim já tinha luz e frio.

As verdes montanhas surgiram quase desaparecendo na névoa, e iam se espalhando pelo vale. As pessoas mudaram, sua cor de pele, sua língua e suas vestes não eram as mesmas de antes. Vimos morangos, cerejas, bananas e nozes.

O Vale da Kashemira fica no extremo norte da Índia. Mas quem mora lá diz que vive no Paraíso. É uma região de maioria muçulmana e é o foco da grande tensão existente com o Paquistão desde 1947, quando ocorreu a separação dos dois países e a Índia ficou com a maior parte das terras do norte. Na ocasião, hindus e muçulmanos foram separados, violentando uma história de milhares de anos e forçando as pessoas a fugirem de suas casas e buscarem moradia onde sua religião predominava.

Desde então, de um lado os muçulmanos não se sentem parte do país e querem a separação, alguns atuando de maneira imprevisível e revoltada. Do outro, o exército indiano intimida pelo poder bélico e, dizem por aí, trabalham para manter a paz e a união.

A situação parece inacreditável diante da aparente tranquilidade. Nas vilas, a vida no campo é cheia de trabalho na primavera, as mulheres colhem arroz entre um soldado e outro. Na capital Srinagar, o turismo local volta a respirar com a situação de segurança dos últimos tempos. Famílias indianas mais abastadas viajam de todo o país buscando dias de conforto e lazer nos barcos do Dal Lake.

O imenso espelho d’água é a grande atração da cidade, e reflete as montanhas e os barcos cheios de flores e turistas. Mas quando caminhamos pela cidade antiga, o tempo em que estamos se transforma. As janelas de madeira entalhada e paredes pintadas com motivos geométricos emolduram as vielas de alfaiates, burcas, mercadores árabes, mesquitas absolutas, Meca. Pelas barbas vermelhas que vamos passando, comemos pães, tomamos chá – quantos cheiros e sabores deliciosos; a curiosidade é mútua, mas, ao mesmo tempo, a vida segue seu caminho como se nunca tivéssemos estado lá.

E assim, as montanhas verdes começam a desaparecer na névoa, retiramos o passaporte de novo, anotam alguma coisa e seguimos para o túnel escuro, abafado e comprido, para, novamente, encontrar as montanhas secas.”
*Texto e fotos: Arthur Monteiro e Isabela Lyrio
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