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A melhor foto…

[ f508 | 7 jun 2010 | 4 Comments | 3.962 visitas ]

Há um ano, o f/508 lançou em seu blog a coluna “A melhor foto“, inspirada no jornal inglês The Guardian. Desde então, foram publicadas, sempre às segundas-feiras, dezenas de imagens de fotógrafos brasileiros convidados. A escolha da “melhor foto” (se é que ela existe) é sempre um desafio, dada a subjetividade que a permeia. Completado um ano deste mapeamento, compartilhamos abaixo algumas imagens publicadas ao longo desse período.

orlando azevedo
Foto:  Orlando Azevedo

Gaiola da liberdade

Realizei esta foto em Paranaguá no ano de 1993, em minhas muitas e muitas andanças pelo país, no qual já rodei mais de 90.000km em jeep sempre documentando seu patrimônio humano e natural. A grande magia e alquimia da fotografia é que ela surge para o fotógrafo e para a janela de sua emoção e construção.

Ao ver esta surreal cena voei para sua pátina
Se abria uma página
Era uma árvore em sua metáfora e nela havia uma gaiola com um canário de terra em sua cela
Selava-se assim a contradição da observação
Voar é com os pássaros
Voar é com a criação
Pulsa, pulsa meu coração
A fotografia é sempre a ressureição da extinção e do movimento e momento que não mais se repetirá

A foto foi realizada com filme 120 TRI-X e executada em pb e cromo. É uma imagem que me divide entre as duas possibilidades, cor ou pb. Gosto de ambas.

orlando2
Foto:  Orlando Azevedo

Hoje esta imagem integra o acervo do MAM de São Paulo e integra a mostra Bressonianas, além de vários acervos particulares.”

***

julio bittencourt
Foto: Julio Bittencourt

“Há 5 anos venho acompanhando o MSTC (Movimento dos sem-teto do centro) em dois diferentes projetos.

O primeiro, que resultou em meu primeiro livro chamado Numa janela do Edifício Prestes Maia 911, foi produzido entre 2006 e 2008, onde retratei  os moradores do conhecido edifício em suas janelas.  Durante a ocupação, que durou de 2002 a 2007, havia um grande número de pessoas – fotógrafos, documentaristas e cineastas – produzindo diversos trabalhos dentro do mesmo espaço e por esse motivo procurei uma outra maneira de retratar aquele simbólico lugar e a especial ligação que tive com aquelas pessoas que resulta em constantes trocas até hoje.

A intenção e resultado final do projeto foi assumidamente construída:  retratar  janela por janela para depois ‘reconstruir’ o edifício de forma arbitrária. Foi de certa forma ‘um jogo’ que propusemos a nós mesmos – fotógrafo e fotografados.  Olhar para janelas, a partir de janelas.

Algo que penso traduzir bem nossa experiência fragmentária com a cidade.

Desde de 2008 venho produzindo um outro trabalho chamado Cidadão X (vencedor do Conrado Wessel / projeto inédito deste ano) com o próprio MSTC e outros movimentos oriundos dele em diferentes regiões e ocupações pela cidade, cujo resultado deve ser lançado em outro livro ainda ano que vem.

Escolhi essa imagem pois além de viajar o mundo sozinha desde então, não deixou ‘nosso pequeno jogo proposto’ para trás e continua a nos levar com ela – fotógrafo e fotografados.”

***

anteparo
Foto: João Castilho

“Escolhi essa fotografia. Chamo-a de Anteparo. Gosto dela primeiro pela composição. Geométrica, abstrata. Depois o ser humano. Sem rosto, sem identidade. Portanto sem história. Será? De alguma forma, universal. Gosto dela também porque é uma fotografia que não encontrou lugar em nenhum dos meus ensaios. É uma foto sozinha. Destino ingrato nas mãos de um fotógrafo que pensa por ensaios. Tentei colocá-la no Redemunho mas ela não quis entrar. Finalmente acabou encontrando lugar no Clube da Fotografia do MAM,  pelas mãos do Eder Chiodetto. Talvez até encontre companhia lá.

Foi feita em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais. O garoto estava passando com esse objeto vermelho. Pedi para que parasse e para que posasse. Dirigi o uso do objeto e de certa forma o transgredi. Gosto de fazer isso com objetos, inventar novos usos. É o que as crianças fazem. Para elas, por exemplo, ele servia para pegar peixes no rio, para mim se transformou no Anteparo.”

***

claudio edinger

Foto:  Claudio Edinger

“A melhor foto aqui depende muito do dia, hora, humor, etc… no momento é esta.

Comecei este ano a fotografar o lugar que é a síntese praticamente de tudo o que eu já fiz. Downtown  – LA. O  centro da cidade de Los Angeles tem de tudo um pouco: asilo de doentes mentais, arquitetura de sampa, o Chelsea Hotel, Cuba, China, Japão, e por aí vai.

As fotos que funcionam no meu caso (cada caso é um caso) tem que ter enquadramento, drama e luz funcionando em sintonia fina, como num concerto sinfônico. O violino tem que ajudar o piano, que ajuda os tambores, e assim por diante. O que me interessou em Downtown foi  essa mistura extraordinária da arquitetura mais moderna do planeta com, por exemplo, cenas da América Latina. Em LA, 50% da poulação é latina e 70% dessa população tem problemas emigracionais, por assim dizer.

Quando eu parei pra pedir informações, a figura da foto foi de uma simpatia
 desmedida. Apelidado de Jorge (Ror-rre) “the lion king” (com certeza pela barba abundante) ele me deixou paralisado.

“Posso te fotografar?” perguntei em espanhol.
“Claro” respondeu com um sorriso.

Fui buscar a 4×5 no carro  – o cara nasceu pra ser fotografado com o foco seletivo — e lá mesmo com a luz do depósito de frutas onde ele trabalha, deu-se o ato.”

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scavone

Foto: Marcio Scavone

“Publicar a melhor fotografia, é uma decisão, no mínimo fadada ao erro ou arrependimento. Resolvi, entre a minha prole, escolher o primogênito.  Afinal é aquele que você amou por mais tempo.

Esta imagem feita em Londres em 1975 quando eu era um estudante de fotografia e morava no prosaico bairro de Ealing entre polacos e paquistaneses acena com a descoberta do glamour por traz das coisas.  Acho também que ela marca a formação do meu olhar. Eu tinha o hábito de flanar (este verbo tão cultuado pelos fotógrafos, mistura de vagar e observar) pelas ruas de Londres, Hasselblad nas mãos, a registrar mais as coisas do que as pessoas. Eu era muito jovem e tímido para me aproximar muito de modelos vivos. A turista sofisticada e atemporal surgiu no meu visor aprisionada pelas nuvens e o reflexo de uma cidade na marcha para a modernidade. Aprendi com esta fotografia que a figura humana é a referência, o ponteiro das horas do mundo, se você ousa tentar interpretá-lo.”

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c_cravo8

Foto:  Christian Cravo

“Como fotógrafo busco entender o homem através de imagens que se revelam no decorrer do meu caminho. Faço da minha visão um instrumento para contar uma história que é acima de tudo “humana”.  A partir de temas definidos procuro representar o homem numa estrutura iconográfica.

Neste sentido, vejo o Haiti como a expressão máxima da essência humana. Estamos falando de uma sociedade com características muito particulares, intensamente espiritualizada, repleta de simbologias, onde a falta de pudor do povo se apresenta por meio de elementos de grande pureza.

E é a pureza nas relações do homem na manifestação do seu credo que desperta meu olhar. A amplitude filosófica que podemos traçar a partir da existência humana no Haiti é algo perturbador e incrível.

Jardins do Éden é, no meu entender, o título que melhor representa a singularidade do povo haitiano. Esta idéia nos remete aos primórdios, ao momento em que o homem estava intrinsecamente ligado à natureza e se descobria através dela. Momento este, em que não existia o pecado e os corpos nus habitavam todo e qualquer espaço, pois pertenciam a todos eles. Momentos de prazer profundo do homem em fusão com a natureza e seus elementos. O animismo elevado à máxima potência, realizando desejos, buscando novas esperanças para um povo oriundo da África, que possui em suas raízes relações mágicas com o divino.”

***

juan esteves

Foto:  Juan Esteves

“Henri Cartier-Bresson disse certa vez, comentando sua famosa – e linda – imagem do menino sorrindo que carrega abraçada uma garrafa de vinho, que Robert Doisneau tinha feito outras, semelhantes, muito melhores do que a dele. Também, noutra entrevista, pouco antes de morrer, disse que avaliava ter umas 30 imagens das quais ele se sentia realmente orgulhoso. Considerando que ele  fotografou por mais de 60 anos, temos ai uma média de uma imagem boa a cada 2 anos em seu julgamento. O que nos faz pensar, e muito, na nossa autocrítica, na capacidade que temos de avaliar nossa própria produção.

Às vezes penso que muitas de minhas imagens tiveram soluções melhores através de outros fotógrafos. Também, tenho uma tendência a gostar muito daquilo que não sou capaz de fazer. Algo que não consigo adequar à minha sintaxe sempre me é atraente. Por outro lado o clichê de que “a melhor imagem ainda está por acontecer” me assombra permanentemente, o que, apesar dos quase 25 anos de carreira, me conduz ao mais puro sofrimento quando inicio um processo de edição seja para um ensaio editorial,  para um livro, para uma exposição, ou como agora, para atender ao pedido do f/508.

A melhor imagem para mim é sempre aquela momentânea. Aquela última que fiz e que me deixou, de certo modo, feliz. Pode ser um snapshot das minhas filhas em casa, um retrato produzido em grande formato de um artista plástico ou um escritor muito querido, ou simplesmente aquela que saiu no susto e que me surpreendeu. Esta, do cavalo correndo no final da tarde foi feita agora em julho, quando eu estava chegando com as crianças de férias no sítio.  Um dos animais do vizinho estava correndo livre pelo morro. Foi o tempo de puxar a câmera da bolsa, focar quase sem fotometrar e pegar ali, no susto, aquele movimento.  Em tempos que o tal momento decisivo vem sendo desmistificado, esta se tornou minha melhor fotografia. Outro dia, assim espero, será outra!”

***

jose_bassit_melhor_foto

Foto:  José Bassit

“Como outros colegas disseram, é dificil escolher a melhor foto, então decidi colocar minha mais recente melhor foto. Ela foi tirada em Dezembro passado, e faz parte de meu novo projeto que é documentar as festas de Iemanjá. Como estou fotografando o trabalho em filme, foi uma agradavel surpresa quando peguei o contato  e no meio da série veio esta pérola. Corri para ver o foco e descobri o movimeto da água batendo no corpo da menina todo coberto  e só a mão para fora com a rosa. Resolvi inclusive colocar a foto na página inicial do meu site, que ficará pronto dentro de algumas semanas*.”

* O site já está no ar. Acesse-o aqui.

***

boris kossoy

Foto:  Boris Kossoy

“É muito difícil para todo aquele que cria a incumbência de ter que escolher, dentre suas obras, a “preferida”, aquela que mais gosta. De qualquer modo, posso me referir a uma fotografia que me emociona sempre, apesar dos quarenta anos que me separam do momento em que a realizei. Trata-se de um de meus primeiros trabalhos da série do realismo fantástico, que desenvolvi a partir do final da década de 1960 em diante e que intitulei de Surpresa na Estrada. Creio que foi com esta foto que descobri para mim mesmo um caminho a ser trilhado nos anos que se seguiram; por essa razão tenho uma especial relação de amor com ela.

O projeto do “fantástico” se refere a algumas imagens nas quais, fatos aparentemente desconexos, convivem num mesmo quadro. Uma construção que busca imprimir a atmosfera de um sonho, a partir de lugares, personagens e elementos reais. Os cenários registrados são partes fundamentais dessa idéia; servem de ambientes ou fundos para a ocorrência do fato. À primeira vista sem importância, vai se transformando num elemento intrigante, desestabilizador em relação ao seu entorno. Tornado perpétuo através da representação aquele simples fato, perdido no meio do nada, vai ganhando peso ao longo de sua própria história. Mas afinal do que se trata? De situações que não vemos, ou não percebemos, assim como uma infinidade de outras que não vimos e não veremos. Situações que, no entanto, ocorrem continuamente, ininterruptamente no nosso cotidiano, situações que configuram mundos paralelos. Devemos perceber essas realidades mágicas que ocorrem no mundo. Devemos buscar essa dimensão que nos escapa. Surpresa na Estrada me mostrou esse caminho.

Surpresa na Estrada
Autor: Boris Kossoy
Local: Periferia de S.Paulo
Ano: 1970″

***

Além dos fotógrafos acima, participaram do projeto: Patrick Grosner, Fernando de Tacca, Fernando Rabelo, Rodrigo F. Pereira, Luiz Achutti, Danilo Siqueira, Guy Veloso, Rinaldo Morelli, André Dusek, Alexandre Wittboldt, Ricardo Teles, Roosevelt Nina, Fernanda Chemale, Andrea Mendes, Thiago Barros, Marcelo Greco, Klaus Mitteldorf, Cia de Foto, Alexandre Belém, Iatã Cannabrava, João Urban, Antônio A. Nepomuceno, Usha Velasco, Clicio Barroso, Patricia Gouvêa, Ricardo Padue, Marcelo Feijó, Alexandre Sequeira, Jorge Bispo, Duda Carvalho, Kitty Paranaguá, Flávio Damm, Ricardo Labastier e Cláudia Jaguaribe.

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4 Comments »

  • Tweets that mention Paraty em Foco 2010 » Blog Archive » A melhor foto… -- Topsy.com said:

    [...] This post was mentioned on Twitter by Grupo de Foto – UFES, 6º Paraty em Foco. 6º Paraty em Foco said: A melhor foto segundo seus autores http://migre.me/Mowy [...]

  • rodrigo sombra said:

    Por que inspirada no The Guardian ?

    O Guardian também possui uma coluna semelhante ?

  • fotoclubef508 (author) said:

    Olá Rodrigo,

    O jornal The Guardian tem uma coluna chamada "My Best Shot" (http://www.guardian.co.uk/artanddesign/series/mybestshot), a qual acompanhávamos e vez ou outra publicávamos a versão traduzida de alguns autores em nosso blog… até que decidimos, nós mesmos, convocar fotógrafos brasileiros.

  • POTRICH » Blog Archive » paraty em foco said:

    [...] A melhor foto segundo seus autores: Há um ano, o foto clube 508 lançou em seu blog a coluna “A melhor foto”, inspirada no jornal The Guardian. Desde então, foram publicadas dezenas de imagens de fotógrafos brasileiros convidados. [...]

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