Entrevista: gUi Mohallem
Nascido em Itajubá (MG), em 1979, gUi Mohallem graduou-se em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), especializando-se em cinematografia. Representado com exclusividade na América Latina pela Galeria de Babel, em 2008, fez sua primeira exposição individual em Nova York, na galeria Rabbithole Studio, com o Ensaio Para a Loucura. De volta a São Paulo, participou das edições de 2009 e 2010 do SP-Arte e de exposições nas galerias Olido, Emma Thomas e Baró Cruz. Em outubro de 2009, integrou o grupo de artistas selecionados para a primeira edição do projeto Ateliê Aberto, na Casa Tomada, em São Paulo, sendo orientado pelo artista e pesquisador Sérgio Basbaum. Atualmente, desenvolve a série Welcome Home, cujo processo de criação compartilha no blog Incubadora, um projeto lançado em abril deste ano, que reúne fotógrafos, artistas e teóricos da fotografia.

Da série Ensaio para a loucura
Em palestra ministrada no Instituto Moreira Salles (RJ) em 2009 – “Rouch e Arthur Omar: o transe e o êxtase” –, Ismail Xavier, um dos mais dedicados críticos e estudiosos do cinema nacional, comentou que Omar, em Antropologia da Face Gloriosa, estava em busca do transe, como numa coreografia, a fim de entrar na mesma frequência de seus retratados, criando dessa forma a aproximação necessária para o projeto. Em Ensaio para a loucura você foi ao extremo de eliminar a lente para se aproximar cada vez mais do retratado. Por que a escolha pelo pinhole? Como foi fazer esse trabalho? Caso alguém queira participar do projeto, como deve proceder?
Confesso que nunca tinha pensado nesse paralelo com o Arthur Omar. Mas acho que nos dois casos existe mesmo um desejo, uma intenção de comunhão com o fotografado, ali através do transe, e aqui a partir das intimidades compartilhadas.
O pinhole no Ensaio para a loucura me aproxima do fotografado de várias maneiras. Ao mesmo tempo que se eliminam aberrações cromáticas e distorções pelas lentes, o elemento surpresa também ajuda muito. A impressão que tenho é que as pessoas não esperam que sua imagem seja realmente captada por aquele furinho no alumínio. Parece uma câmera cega, inofensiva.
O resultado estético também é muito apropriado à proposta, pois não é tão asséptico como as imagens produzidas pela câmeras digitais convencionais. Na sujeira e nas imperfeições do pinhole digital as coisas ficam mais próximas de como eu as percebo. É difícil de explicar.
As fotos da primeira fase do projeto foram feitas com pessoas de meu círculo próximo. Expandir para os interessados que vinham ver a exposição foi uma sugestão de Shawn Lyons, dono da Rabbithole Studio, primeira galeria que expôs o trabalho, em Nova York.
No início, resisiti um pouco porque me parecia muito arriscado me propor a conseguir um nível de intimidade com um desconhecido em um ou dois encontros. Mas depois das primeiras entrevistas entendi que a maior parte das pessoas que se inscreve já tem uma certa abertura.
Isso transformou o Ensaio para a loucura numa pesquisa em processo. Funciona assim: a pessoa se cadastra no site e, a partir dessa ficha, faço uma seleção que vai determinar a ordem dos encontros. A entrevista é feita em um local que a pessoa determina, um local importante para ela. Essa escolha vai me ajudar a entender um pouco mais desse desconhecido. Depois da entrevista feita – uma conversa que é mais um bate-papo informal –, a gente agenda a sessão de fotos em um lugar também escolhido pela pessoa.

Da série Cantos do exílio | Oceano é o mar que nos divide
A tipografia é empregada como “parceira” da imagem na série Cantos do exílio. Você vê nesta linguagem um caminho natural como suporte à imagem ou a imagem basta por si?
A série Cantos do exílio foi criada a partir de um estímulo: o livro Cantos de estima, da escritora Júlia Hansen, dentro do Projeto 12 Exemplares. Assim como os outros 11 artistas, recebi um livro datilografado pela autora e a partir dele confeccionei uma resposta. Para relacionar a imagem com o texto, fotografei os versos com os quais as imagens pretendem dialogar.

Foto: Dimitri Lee
Respondendo a sua pergunta, eu não discordo de nenhuma das posições colocadas. Às vezes, a imagem basta por si, como no trabalho de Dimitri Lee: as fotos das “Salitreiras do Chile” não carecem de nenhuma legenda. As imagens te transportam para aquele lugar, te colocam dentro de uma época outra. Uma cidade fantasma, uma dimensão paralela. Por outro lado, existem trabalhos em que a imagem vai se relacionar com um texto ou pintura ou desenho, como é o caso do trabalho de Lucas Simões, em que se misturam costuras, queimaduras, desenhos e textos junto com a fotografia. O trabalho propõe um labirinto para quem vê, em que vão se revelando sutilmente as camadas mais profundas da obra e do próprio artista.

Foto: Lucas Simões
Acho que cada série, cada projeto vai pedir um tipo de abordagem. É importante ter flexibilidade para entender o trabalho que se está fazendo.
Já em Ensaio para a loucura você afirma: “Os textos são deles porque foram eles que disseram. Os textos são meus porque fui eu que escolhi”. Para você, a escolha nos torna donos de algo?
Acho que o fotógrafo não é somente as fotos que ele tira, mas as fotos que ele decide mostrar. Acho sim que as escolhas dizem muito sobre nós. No Ensaio para a loucura, as frases dos entrevistados que acompanham cada imagem foram selecionadas arbitrariamente por mim. O que motiva essa escolha? O que me faz decidir por uma citação e não por outra? Quando coloco que os textos são meus é mais para dizer que esse trabalho é mais confessional que antropológico.
Na série Abandono, o ensaio Espelho Manchado é apresentado em dípticos, fortalecendo a sensação de isolamento; em Cantos do Exílio você utiliza pequenos textos e muita metáfora; e em Último Abandono, a narrativa é presente em cada imagem. Sua linguagem para cada um desses ensaios é bastante personalista e autoral. Alguns críticos falam que toda fotografia é autoral, já que existe um autor por trás da imagem. Como você vê essa questão?
Acho que, se a gente pegar a definição literal de autor, cada arroz e feijão cozinhado por alguém é uma cozinha de autor, porque alguém fez. Nesse raciocínio, todo e qualquer trabalho de criação vai ser autoral, porque tem por trás algum indivíduo em toda sua complexidade. Esse posicionamento em relação à fotografia foi muito importante numa época em que se atribuía ao aparato toda responsabilidade pela criação, numa discussão que ocupou a primeira metade do século 20. Hoje a fotografia já se consolidou como mais uma dentre as expressões das artes plásticas.

Da série Último abandono
O autor muitas vezes é entendido como aquele que, ou inventa uma nova linguagem, ou combina linguagens conhecidas de uma maneira inovadora. A partir daí, cria uma marca pessoal. Mas ser original é ser autoral? Será que a originalidade deve ser a busca definiva do artista? Acho que a originalidade ajuda mesmo na marca, no sentido mais mercadológico da palavra, mas marca nunca garantiu conteúdo.
Quando “inventei” o pinhole digital, fiquei maravilhado pelo ouro da originalidade. Me deu uma certa soberba, sabe? Aí digitei no flickr e vi que tinha muita gente fazendo isso em várias partes do globo. Mas ninguém tinha exposto em galeria. Quando finalmente expus o trabalho, entendi que a técnica era o menos importante. Para as pessoas que vinham ver, pouco importava se era pinhole ou se a imagem era feita com calda de chocolate. Elas se relacionavam com cada conjunto foto-texto, dependendo do que o trabalho tinha ou não a dizer a cada pessoa.
Difícil diferenciar o que é autoral e o que não é. Você diz isso na sua pergunta sobre o meu trabalho e eu agradeço o elogio, mas recebo com alguma descrença. Pessoal sim, mas autoral? Acho que é preciso um certo distanciamento pra determinar se aquilo que o artista diz é mesmo relevante e/ou importante para as pessoas, seja da época em que ele vive ou mais adiante. É muito complicado se considerar autor. Eu posso ter isso como objetivo, pode ser uma intenção, mas o sucesso da minha empreitada vai ser determinado pela maneira como esse trabalho vai – ou não – atingir as pessoas.
Entendo fotografia autoral como aquela usada para expressar algo íntimo e pessoal do fotógrafo, e ela vai ser tão mais autoral quanto mais for usada para algo que vá além da própria fotografia, algo que se utilize da liguagem para expressar uma questão do universo íntimo do fotógrafo e, a partir disso, estabelecer uma comunicação com aquele que vê.

Casamento japonês
Em 2006, você foi convidado para cobrir um casamento no Japão. O seu trabalho ficou conhecido pelo casal de noivos através da internet. Como foi fazer um casamento em uma cultura tão distinta da nossa? Teve maiores contatos com a fotografia oriental? Alguns fotógrafos não gostam de expor os seus trabalhos na internet por acharem que se trata de uma mídia menor. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Quando fui convidado para fazer o casamento no Japão, eu ainda não tinha fotografado nenhum casamento. Passei um ano me preparando para esse trabalho, acompanhando outros profissionais como segundo fotógrafo, estudando a cerimônia e o próprio xintoísmo. Buscava um olhar que fosse não só curioso, mas também respeitoso. Fotografar no japão foi um privilégio e um desafio. O silêncio dessa cerimônia é algo assustador, impensável em termos de cultura ocidental.
Sobre a internet, eu adoro e sou mais feliz porque ela existe.
Uso a internet muito como ferramenta. Muitas das minhas séries são editadas a partir do flickr, por exemplo. Os textos da loucura começaram como notes nas fotos. E confesso que tem sido um desafio grande encontrar meios físicos para transpor as questões que envolvem essas notes: a possibilidade de ver todo o trabalho ignorando os textos, e também poder investigar cada um deles a partir do desejo e de uma atitude simples.
Para o portifólio que preparei pro SPArte/Foto 2009, usei gravação em laser no verso da imagem, de modo que só é possível a leitura dos textos sob uma determinada luz.

Para as cópias de exposição, confeccionei carimbos automáticos que acompanham as imagens sobre pequenas prateleiras. Neles está escrito “carimbe-se”. Cada um decide carimbar ou não, e ainda qual loucura imprimir em seu corpo.

A fluidez das ferramentas e conteúdos da internet são ao mesmo tempo sua maior virtude e sua maior fraqueza. Acho essa contradição fantástica.
Sua produção fotográfica tem forte caráter cinematográfico. David Lynch, Wenders e Saura são cineastas que também fotografam. Você tem intenção de trabalhar com cinema/vídeo? Quais os seus projetos e futuros planos?
Quando saí da faculdade de cinema estava decidido a fazer fotografia e a não mais fazer filmes. Cinco anos depois de sair da ECA, estou vivendo uma reaproximação. Tenho participado de algumas produções como fotógrafo still, acompanhado alguns roteiros e estou me preparando para retomar um projeto pessoal de documentário, filmado em 2003. Tenho visto produções muito interessantes de uma nova geração de cineastas, como Julia Zakia e Caetano Gotardo. Gostaria de conseguir conciliar o cinema e a fotografia, mas o cinema toma muito tempo e eu sou muito ansioso.
Sobre os projetos futuros, a intenção é continuar com o Ensaio para a loucura por mais quatro anos e fazer exibições durante o processo. O Último abandono também deve crescer bastante. Tenho várias imagens coladas pelas paredes esperando que eu tenha disponibilidade de tempo e emocional para lidar com elas. Um curador esteve no ateliê e chegou a me sugerir que parasse de fotografar por 6 meses para poder cuidar da organização e edição do material. Não consigo me imaginar sem fotografar, pois acho que as fotos vão me contando coisas sobre mim mesmo. É preciso continuar até o momento em que esteja preparado para ouvir o que elas têm a dizer. Tenho muito trabalho pela frente.
Por Humberto Lemos
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