Pinturas e Platibandas de Anna Mariani
Por Juan Esteves
A carioca Anna Mariani não é uma fotógrafa dada a pirotecnias. Aliás, olhando o livro Pinturas e Platibandas, às vezes nos ocorre perguntar se ela é mesmo uma fotógrafa, diante de imagens que argumentam – por sua simplicidade – ao óbvio papel e funcionalidade de uma câmera fotográfica, em seu sentido mais amplo.
Podemos perguntar também se é uma artista, diante do fato que seu objeto colecionado está imbuído naturalmente de um intrínseco e forte conteúdo artístico – de indiscutível discurso independente. No entanto Anna Mariani produz as duas coisas, arte e fotografia, de uma maneira tão simples e direta que pensamos paradoxalmente na negação imediata de uma prótese mediadora.
A série de fotografias “Pinturas e Platibandas” foi exposta pela primeira vez em 1987, na XIX Bienal de Arte de São Paulo, o que significou uma atenção inusitada à fotografia para época. Não podemos esquecer que esta Bienal ficou conhecida como a “Bienal de Kiefer”, por conta da participação do artista Alemão Anselm Kiefer, que eclipsou até nomes como Marcel Duchamp, entre outros.

Foto: Anna Mariani. Iguatu, Ceará, 1983
“Pinturas e Platibandas”, publicado agora pelo Instituto Moreira Salles, é uma reedição revista e ampliada pela autora, a partir de sua primeira publicação em 1987, pela editora Mundo Cultural. Na época, Mariani teve a felicidade de contar com um dos maiores experts gráficos no Brasil, Josef Brunner, que salvou a delicada edição de um possível desastre, coisa muito comum à época.
Lembremos que, há 23 anos, não havia uma “cultura” disseminada para as impressões de livros de fotografia. A maioria dos gráficos tratava um livro de imagens com a mesma consideração dada à impressão de palavras cruzadas. Mas profissionais como Brunner, que eram raríssimos, existiam e nos deixaram um pequeno, porém importantíssimo legado.
As “platibandas” documentadas por Mariani, segundo a mesma, entraram no Brasil junto com a Missão Francesa, e no século XX já estavam em praticamente todo Nordeste brasileiro. No entanto, é difícil hoje em dia não encontrar uma pequena cidade do interior de qualquer lugar do país que não tenha um exemplo deste detalhe arquitetônico popular, que na verdade é quase instintivo, usado na maioria das vezes para ocultar as calhas de água ou o acabamento rústico do telhado.

Foto: Anna Mariani. Gravatá, Pernambuco, 1982
Os “beirais” que faziam parte do período colonial foram paulatinamente substituídos pelas platibandas, pintadas com cal e pó xadrês. A cal guarda uma semelhança com a aquarela por ter uma certa transparência, e aceitar sobreposição de cores. Também reage com o tempo e com a chuva. Em 1987 a autora já contabilizava ter fotografado 1200 fachadas, nas 14 viagens que fizera aos 7 estados do Nordeste, em mais de 100 localidades.
“Pintura”, esclarece a fotógrafa, é como os moradores nomeiam sua fachadas ornamentadas. A série nasceu espontaneamente das suas viagens com os filhos e foi crescendo à medida de seu interesse pelo resultado. A edição já estava em andamento quando ela recebeu o convite da Bienal para mostras fotografias de 100 fachadas. De inicio já rompia com a harmonia e delicadeza de uma publicação. Mas, a curadora Rosely Nakagawa elaborou um singular espaço expositivo onde haviam salas que organizavam as imagens conforme a luz do dia. Sala do amanhecer, do meio dia, do entardecer.
O filósofo Jean Baudrillard (1929-2007), no texto “O objeto puro”, diz que as fotografias brilhavam com um objeto intemporal, com a grandeza de um estilo. Entretanto, pensa que havia uma confusão, anacrônica em estarem lá expostas como arte contemporânea. “De fato é arquitetura, mas este termo é muito pretensioso. Em última instância trata-se de um objeto puro, nascido na confluência da expressão gráfica”.
Baudrillard também nota que Mariani integra sua fotografia à inspiração cênica, ao grafismo primevo da gente do povo. A fotografia absorve o objeto e é absorvida por ele, com a mesma regra rigorosa do despojamento – despojamento físico desta pobreza, despojamento metafísico de sua expressão no jogo de linhas e cores de suas fachadas, despojamento e perfeição fotográfica de sua reprodução.

Foto: Anna Mariani. Serrinha, Bahia, 1983
Na primeira edição, a idéia do amigo, o publicitário Gabriel Zellmeister, foi criar uma escala a partir do tamanho das portas, idéia que foi repetida nesta edição, mantendo a compreensão espacial do conjunto. Cerca de 80 cidades estão no livro. Às vezes são vilarejos, periferias das cidades, algumas têm elementos art deco e algumas variam na decoração e outras no arranjo. Apenas 25 destas fazem parte da exposição no IMS.
Em tempos de uma arquitetura urbana tão decadente e carente de mínima criatividade, estes registros de Anna Mariani se tornam ainda mais fortes. Em tempo de uma imagética inconsistente, que cria simulacros de complexidade conceitual, a imagem limpa e direta se mostra cada vez mais longeva, capaz de atravessar décadas e manter um forte conteúdo extraído da simplicidade apresentada.
Pinturas e Platibandas, de Anna Mariani
Edição Instituto Moreira Salles – IMS
Textos de Ariano Suassuna, Jean Baudrillard e Caetano Veloso.
Ana Mariana: Pinturas e Platibandas
Exposição até 01 de agosto de 2010
Horário de visitação: de terça a sexta, das 13h às 19h; sábados e domingos, das 13h às 18h.
Instituto Moreira Salles – Rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis – São Paulo
Pinturas e Platibandas de Anna Mariani
Por Juan Esteves
A carioca Anna Mariani não é uma fotógrafa dada a pirotecnias. Aliás, olhando o livro Pinturas e Platibandas, às vezes nos ocorre perguntar se ela é mesmo uma fotógrafa, diante de imagens que argumentam – por sua simplicidade – ao óbvio papel e funcionalidade de uma câmera fotográfica, em seu sentido mais amplo.
Podemos perguntar também se é uma artista, diante do fato que seu objeto colecionado está imbuído naturalmente de um intrínseco e forte conteúdo artístico – de indiscutível discurso independente. No entanto, Anna Mariani produz as duas coisas, arte e fotografia, de uma maneira tão simples e direta que pensamos paradoxalmente na negação imediata de uma prótese mediadora.
A série de fotografias “Pinturas e Platibandas” foi exposta pela primeira vez em 1987, na XIX Bienal de Arte de São Paulo, o que significou uma atenção inusitada à fotografia para a época. Não podemos esquecer que esta Bienal ficou conhecida como a “Bienal de Kiefer”, por conta da participação do artista Alemão Anselm Kiefer, que eclipsou até nomes como Marcel Duchamp, entre outros.
“Pinturas e Platibandas”, publicado agora pelo Instituto Moreira Salles, é uma reedição revista e ampliada pela autora, a partir de sua primeira publicação em 1987, pela editora Mundo Cultural. Na época, Mariani teve a felicidade de contar com um dos maiores experts gráficos no Brasil, Josef Brunner, que salvou a delicada edição de um possível desastre, coisa muito comum à época.
Lembremos que há 23 anos, não havia uma “cultura” disseminada para as impressões de livros de fotografia. A maioria dos gráficos tratava um livro de imagens com a mesma consideração dada a impressão de palavras cruzadas. Mas profissionais como Brunner, que eram raríssimos, existiam e nos deixaram um pequeno, porém importantíssimo legado.
As “platibandas”, documentadas por Mariani, segundo a mesma, entraram no Brasil junto com a Missão Francesa, e no século XX já estavam em praticamente todo Nordeste brasileiro. No entanto, é difícil hoje em dia não encontrar uma pequena cidade do interior de qualquer lugar do país que não tenha um exemplo deste detalhe arquitetônico popular, que na verdade é quase instintivo, usado na maioria das vezes para ocultar as calhas de água ou o acabamento rústico do telhado.
Os “beirais” que faziam parte do período colonial foram paulatinamente substituídos pelas platibandas, pintadas com cal e pó xadrês. A cal guarda uma semelhança com a aquarela por ter uma certa transparência, e aceitar sobreposição de cores. Também reage com o tempo e com a chuva. Em 1987 a autora contabilizava ter fotografado já 1.200 fachadas, nas 14 viagens que fizera aos 7 estados do Nordeste, em mais de 100 localidades.
“Pintura”, esclarece a fotógrafa, é como os moradores nomeiam sua fachadas ornamentadas. A série nasceu espontaneamente das suas viagens com os filhos e foi crescendo a medida de seu interesse pelo resultado. A edição já estava em andamento quando ela recebeu o convite da Bienal para mostrar fotografias de 100 fachadas. De início já rompia com a harmonia e delicadeza de uma publicação. Mas, Rosely Nakagawa elaborou um singular espaço expositivo onde havia salas que organizavam as imagens conforme a luz do dia. Sala do amanhecer, do meio dia, do entardecer. Um trabalho genial de curadoria.
Na primeira edição, a idéia do amigo Gabriel Zellmeister foi criar uma escala a partir do tamanho das portas, idéia – também genial – que foi repetida nesta edição, mantendo a compreensão espacial do conjunto. Cerca de 80 cidades estão no livro. Às vezes são vilarejos, periferias das cidades, algumas têm elementos art deco e algumas variam na decoração e outras no arranjo. Apenas 25 destas fazem parte da exposição no IMS.
Em tempos de uma arquitetura urbana tão decadente e carente de mínima criatividade, estes registros de Anna Mariani se tornam ainda mais fortes. Em tempo de uma imagética inconsistente, que cria simulacros de complexidade conceitual, a imagem limpa e direta se mostra cada vez mais longeva, capaz de atravessar décadas e manter um forte conteúdo extraído da simplicidade apresentada.
Pinturas e Platibandas de Anna Mariani
Edição Instituto Moreira Salles –IMS
Ana Mariana: Pinturas e Platibandas
Exposição até 01 de agosto de 2010
Horário de visitação: de terça a sexta, das 13h às 19h.
Sábados e domingos, das 13h às 18h.
Instituto Moreira Salles, Rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis – São Paulo
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[...] This post was mentioned on Twitter by Luciana Saraiva Lee and Fábio Faria, 6º Paraty em Foco. 6º Paraty em Foco said: Pinturas e Platibandas de Anna Mariani | Por Juan Esteves http://migre.me/SNBz [...]
Juan,
Bela e singela matéria para um belo livro. Lembro muito bem do momento que esse trabalho apareceu na Bienal, uma espécie de anúncio antecipado do que estaria nas paredes das galerias nos anos seguintes. Lembro ainda te demorado para assimilar que a fotografia poderia ser mais simples do que eu a imaginava.
Iatã
Sem dúvida Iatã, a mostra da Anna Mariani na Bienal antecipou muitas coisas que só apareceriam anos depois nas paredes de galerias. Se hoje podemos ver trabalhos como os de Adriana Varejão por exemplo, ou de João Castilho, é porque este caminho foi aberto por desbravadores como Mariani.
Também é necessário lembrar que nesta Bienal pessoas como Sheila Leirner, que foi Curadora Geral, e artistas com Luiz Paulo Baravelli e Mauricio Nogueira Lima, ambos da Comissão de Arte e Cultura, bem como pensadores como Ana Maria Beluzzo e Maria Alicia Milliet, também da mesma comissão,e Rosely Nagawa na montagem das salas, tiveram participação essencial nesse resultado! O que nos dias de hoje, nos provoca uma tremenda saudade de quando as Bienais eram feitas por estas pessoas.
Sim, a fotografia pode ser mais simples do que se imagina! A questão é que poucos fotógrafos são capazer de imaginá-la!
Juan Esteves
Esse trabalho é belo, singelo. Me transportou para Belém de Maria/PE. Meninos barrigudinhos por causa da esquistossomose, somada à subnutrição. Vale a pena recordar todas aquelas viagens conhecendo as entranhas de um nordeste tão sofrido. E o trabalho dessa moça, é muito sério. Parabéns!
Observei as cadeiras na calçada e agora transportei-me para as grandes metróplores cheias de medos…
Ainda hoje, nessas cidades pequenas, casamentos e cumpadres se faz com uma boa conversa olho no olho. A fotografia de Anna Mariani exposta no IMS revela o amor que some aos poucos da alma humana cosmopolita. É um trabalho que emociona…
[...] Aqui, um texto do Juan Esteves sobre o livro e a exposição, no blog do Paraty em Foco. [...]
[...] análise literária: Pinturas e Platibandas, de Anna Mariani, por Juan [...]
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