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Reflexos de Vik Muniz

[ f508 | 8 jun 2010 | One Comment | 3.249 visitas ]

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*Por Juan Esteves

Existem os artistas que se escondem e aqueles que não. O brasileiro Vik Muniz, pertence a esta última categoria. Um exemplo pode ser visto quando se abre a versão em português da obra “Reflex Vik Muniz de A a Z” da editora Cosac Naify, lançada em 2007 no Brasil, dois anos depois da versão original publicada pela Aperture Foundation, uma das mais antigas e importantes editoras dedicada à “fotografia”. Logo nas guardas, uma centena de auto-retratos de Muniz.

Deixando de lado textos de curadores ou críticos, o livro traz um longo depoimento seu, entre uma compilação de séries consagradas – algumas já mostradas aos brasileiros – contando sua trajetória. Antes de Muniz, quer dizer, do homem artista, “existia a escuridão e a desordem” . Ai, surgiram os desenhos rupestres, e vieram os xamãs, e as “imagens passaram a ser sagradas”.

Na perspectiva de um artista, ou melhor, de Muniz, “na sociedade organizada há pessoas que têm poder e lutam para mantê-lo e há as pessoas que estão continuamente criando novas formas de poder para desafiar os existentes. Como este segundo grupo não tem o poder, é livre para imaginá-lo e apresentá-lo em suas formas mais extravagantes”. Isso move a civilização, e, “sem os artistas, os governantes não existiriam ou nem seriam lembrados”.

Tudo isso, na introdução do livro, para lembrar ao leitor que os artistas, inclusive ele, estão esquecidos de seu papel como “xamã”, e o quanto a estética é capaz de influenciar a política. Por isso, Muniz vive lembrando seu papel na cultura em que vive, pois, ainda segundo o mesmo, “É fácil perder o foco ao tentarmos ser importantes e livres ao mesmo tempo”.

Mas, apesar desta verborragia voltada para si mesmo,  o artista dá uma pista fundamental na compreensão de sua obra: “Antes de poder criar uma coisa nova, temos que esquecer o que é realmente ‘novo’ – porque a novidade na maioria dos casos, nada é senão esquecimento”. “Às vezes, para darmos um salto, precisamos dar alguns passos para trás para pegar impulso”.

Talvez o leitor encontre algumas diferenças no texto com relação ao original de 2005, pois Muniz teve que reescrevê-lo e não somente traduzí-lo para o português. Em entrevista a Tereza Novaes, da Folha de S.Paulo, Muniz  assume que o livro é uma compilação de conselhos a jovens artistas, e que, se ele conseguiu, qualquer um também pode chegar lá, ou melhor, ao Olimpo das artes. Não é a toa que a matéria da jornalista abria dizendo que “Ele está no topo do mundo” ou como declara Márcia Fortes, sua dealer no Brasil, da Galeria Fortes Vilaça, “Ele é um fenômeno”. O que nos remete as suas primeira palavras “No início, havia escuridão..”, mas, depois de Vik Muniz – como está no Gênesis – Fiat Lux!

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Contudo, o bom observador deve passar ao largo de superlativos, exageros, narcisismos e egocentrismos e ir direto para o que importa: conhecer seu trabalho mais amplo e as idéias que o originou. Não há dúvida que o artista paulistano de 48 anos, que vive nos Estados Unidos desde 1984, é reconhecido pelos países onde a arte tem relevância.

Ninguém seria capaz de envolver galeristas, curadores, pensadores e pesquisadores, por tanto tempo, se não tivesse muito talento. Também, para não transformar este pequeno texto num tratado, está na hora de abandonar temporariamente a questão da apropriação de imagens alheias, que o artista fez ou faz. Já sabemos que, para ele, quanto mais camadas de interpretação uma obra artística tiver, mais a pessoa se detém sobre ela!

Também a questão da repetição de uma fórmula, gestual ou conceitual, que para alguns críticos – como bem apontou Fabio Cypriano na mesma Folha – se tornaria redundante, merece ser apartada do conteúdo do volume. Afinal, vemos o mesmo método na maioria dos artistas que trabalham com fotografia como suporte, como Andreas Gursky, apenas para ficar com alguém cujas obras chegam aos impressionantes preços de sete dígitos. Três a mais que as de Muniz.

Pulando o capítulo 1, “São Paulo”,  sobre os seus ancestrais, e o capítulo 2 “A terra da oportunidade” sobre sua mudança para os EUA, ambos quase piegas, o melhor é entrar no seu pensamento artístico pelo capítulo 3 “O mundo é plano”. Deste há exemplos da série Relíquias, esculturas de 1989, e outros trabalhos isolados. Para reforçar seus pensamentos, há imagens de trabalhos de Willian Wegman, John Baldessari, Brassai (1899-1984), Brancusi (1876-1957) e Roger Fenton (1819-1869), que fazem a ponte visual para a série “Indivíduos” de 1991-1993.

Em “Imagens mentais: aparições e semelhanças” está um de seus trabalhos mais emblemáticos, na questão da apropriação de imagens, da série “Best of Life” (1988-90), a partir da famosa foto do chinês enfrentando sozinho os tanques na praça Tiananmen. Além das citações que vão do escritor  Shakespeare (1564-1616)* ao historiador Henri Focillon (1881-1943) , Muniz, busca proximidades nada menos que nas obras  dos pintores John Constable (1776-1837) e Andrea Mantegna (1431-1506).

A série “Clayton Days” (2000), essencialmente fotográfica, surgiu quando Muniz foi convidado para um programa experimetal do Frick Art and Historical Center, de Pittsburg. O nome do trabalho vem da casa onde morou o magnata do aço Henry Frick. São imagens em sépia, “histórias pictóricas”, cujos personagens são os próprios funcionários da casa histórica. Fotograficamente, a mais original e interessante das séries, uma espécie de “staged photography”.

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Há também a sua série “Equivalentes” homônima a do grande Alfred Stieglitz (1864-1946), que mereceu uma reprodução também. Em seus equivalentes, Muniz usa algodão para criar as nuvens, consagradas por Stieglitz em 1929, uma verdadeira paródia a monumental obra deste.

É preciso lembrar que com esta série, Stieglitz foi um dos primeiros a dar sentido ao termo “conceitual” a uma imagem fotográfica . Muniz conta que em 1995 visitou uma mostra do fotógrafo, mas que demorou a achar os significados dos “equivalentes”, só encontrando-os, quando ao olhar para baixo, passou a enxergar uma infinidade de “equivalentes” no mármore do piso. Difícil avaliar se tal declaração, assim como outras ao longo da edição, também não seriam uma paródia.

A referência à obra de Stieglitz é mais emblemática quando Muniz explica que “as pessoas estão condicionadas a dirigir o olhar para o quadro e tornam-se imediatamente cegas para o que está ao redor delas”. Para ele há muito que enxergar nos reflexos das lajes dos museus! Tal pensamento, sem dúvda, é uma das chaves para a compreensão de sua própria sintaxe .

Em “Entrelinhas” há um retrato de Jean Cocteau (1889-1963) , feito por Man Ray (1890-1973), que abre a seqüência de sua série “Quadros de Arames” (1995), da série “Quadros de Linhas” (1996) onde imagens de quadros famosos são cobertas por linhas. A série “Prisões” (2002) baseada nos “Carceri di invezionne” de Piranesi ( Giovanni,1720-1778), e a série “Mendigos” (2001) onde ele reproduz uma gravura de Rembrandt (1606-1669), desenhadas com clips e alfinetes.

Em “Cristais”, estão a fotos da série “Crianças de açúcar” (1996), imagens cobertas de açúcar, série “Ulteriores” (1998) cobertas de lixo, série “Quadros de Poeira” (2000) cobertas de poeira. A satisfação de pintar, é um capítulo que está a série “Quadros de chocolate” (1997-2003), onde ele pinga chocolate líquido em várias fotos famosas, como a de Jackson Pollock (1912-1956) pintando, feita pelo grande fotógrafo  Hans Namuth (1915-1990).

Há momentos em que Muniz usa a obra de um artista que já se apropriou da obra de outro, caso de Warholl (1928-1987) com a “Monalisa”,  de Da Vinci (cerca de 1452-1519). Nesta série , em vez de chocolate, lixo ou pó, o artista as desenha com pasta de amendoim e geléia (1999).

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De Warholl a Roy Lichtenstein(1923-1997) e Sigmar Polke, surgem as retículas da série “Quadros de Tinta” (2000). Da metade em diante, surgem coberturas de caviar (da série Quadros de Caviar, 2004), coberturas de diamantes (da série “Quadros de Diamante”, 2004) coberturas de soldadinhos de brinquedo (da série “Mônadas”, 2003), as tramas da série “Quadro de Cores” (2001), os confetes feitos a partir de revistas perfuradas (da série “quadro de Revistas”, 2003), os desenhos de nuvens, nas fotografias da série “Quadros de Nuvens”, de 2001, as radiografias da série “Shadowgrams” (1993-1994) e os grandes desenhos na areia, da série “Earthworks” (2002), entre outras.

Após longas reflexões e muitos reflexos, interiores e exteriores, Muniz deixa seus pensamentos para que o leitor julgue por si mesmo a importância de sua obra, coisa rara entre os ditos contemporâneos, e por certo um curador não faria melhor, nem seria mais didático.

Preferir caviar ao lixo, diamantes à poeira, geléia a alfinetes, é uma questão de foro íntimo, assim como todo mundo é livre para apreciar obras originais ou seus diferentes remakes. E, se vivemos num mundo onde se paga alguns milhões de dólares por uma fotografia de prateleiras de supermercado, porque não admirar um trabalho sério, bem feito e provocante? No mínimo a arte é discutida por alguns e descoberta por outros.

Para a curadora Susan Rosemberg, do Seattle Asian Art Museum, onde a exposição Reflex, ficou até janeiro de 2007, o trabalho de Muniz homenageia artistas como Gerhard Richter, Mark Tansey e Chuck Close – a série “Quadro de revistas” é muito próxima, até mesmo no conceito, do trabalho deste último. Inclusive há um retrato de Close nela.

Segundo Rosemberg,  o artista questiona e subverte as tradições da arte representativa, quando suas imagens ficam na linha entre realidade e ilusão, representação e abstração, idéia e imagem. Quando o artista altera a escala do ponto de vista, ele convida a reflexão à natureza da percepção, investigando como a informação visual é construída, apresentada e recebida pelo público. A mostra teve uma seqüência em Miami, San Diego, Montreal e São Paulo.

No momento confessionário, guardado para o último capítulo “O demônio e o grafoscópio” Vik Muniz se encontra escrevendo as últimas linhas (pós-escrito) num banco de Madri, diante da escultura “Angel Caido” de Ricardo Bellver (1845-1924) . Segundo o artista, este é o único monumento dedicado ao demônio (SIC). A queda de Lucifer, pelo orgulho! “Os orgulhosos espanhóis simpatizam com seu destino. Posso compreender isso porque sou igualmente orgulhoso (…)”.

REFLEX Vik Muniz de A a Z
Imagens e textos de Vik Muniz
Editora COSAC NAIFY
ISBN-978-85-7503-641-9
www.cosacnaify.com.br

*O texto foi originalmente escrito e publicado no Fotosite em 2007, sendo agora atualizado para o blog do Paraty em Foco.

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