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Chico Albuquerque por Juan Esteves

[ Clicio | 23 jul 2010 | One Comment | 2.971 visitas ]

Lina Bo Bardi - foto: Chico Albuquerque

Chico Albuquerque

Por Juan Esteves

Já estava bem na hora de festejarmos Chico Albuquerque. Não que este cearense nascido em 1917 já não fosse uma espécie de “cult” entre fotógrafos ou pesquisadores, mas, era mais que necessário que sua obra mais ampla ficasse registrada em livro. Melhor, bem registrada, com todas as nuances que ele imprimia em seu poderoso trabalho e que tanto influenciaram gerações de profissionais.

A cultura brasileira, principalmente a fotográfica, sempre careceu de celebrar seus grandes empreendedores, aqueles que podemos dizer, foram os verdadeiros pilares das imagens que vemos hoje. Muitos fotógrafos novos podem não se dar conta, e mesmo uns não tão novos assim, mas suas imagens são parte do que já foi visto por Albuquerque.  Coisas que se encontram em nosso imaginário, até mesmo no nosso inconsciente, embora muitos neguem a influência obrigatória.

Chico Albuquerque Fotografias (Terra Luz Editorial, 2009) traz ensaios de diferentes épocas e fases do fotógrafo ( que trabalhou e morou em São Paulo de 1947 até 1975). Em Ensaios (1930-1960) vemos arquitetura paulistana, cenas nas cidades de São Paulo e Guarujá, estas de caráter bressoniano, retratos como o do também fotógrafo Geraldo De Barros (1923-1998) ou um bairro do Morumbi, também em São Paulo  ainda deserto. Neste mesmo lugar, Albuquerque também retrataria a arquiteta italiana Lina Bo, em 1952, uma das pioneiras a se instalarem no então remoto bairro.

Versátil como pouquíssimos Albuquerque também era um mestre no retrato. Um belíssimo, que abre o portfólio destinado aos portraits dos anos 1940 a 1960 é da escritora Hilda Hilst (1930-2004) , numa pose tão inspirada que por certo antecipava a sua poderosa obra literaria. O mesmo podemos dizer de uma sensual e igualmente bela Lygia Fagundes Telles, que faz contraponto com o sisudo Roberto Burle Marx (1909-1994) .

Hilda Hilst - foto: Chico Albuquerque

A praia do Mucuripe, celebrizada pelo fotógrafo em livro anterior (Mucuripe, Ed.Terra da Luz Editorial, 2000)  ganha neste um portifólio dos anos 1942 a 1952.  São aquelas clássicas jangadas e pescadores que nos inviabilizaram de criar algo novo depois que Albuquerque os fotografou. Se tentamos fotografar este lugares, lá vem a memória do fotógrafo a nos dizer que será dificil conseguir fazer algo melhor. Um bônus são as imagens de Orson Welles filmando “It’s all true” na mesma  praia.

It's all true - foto: Chico Albuquerque

Aero-Willys - foto: Chico Albuquerque

Dos anos 1950 aos 1980 , em cor, surgem pérolas do editorial e da publicidade brasileira pré softwares de imagem, quando os fotógrafos tinham que mostrar realmente que sabiam fotografar. Ele entregava aquele cromo em grande formato, impecavelmente exposto, sem passar pelo tal “manipulador de imagem” que hoje cada vez mais faz parte dos créditos editoriais. Albuquerque conseguiu tranformar em elegância e refinamento o carro Aero Willys 1966,  uma imagem eterna.

Com a arquitetura bem trabalhada, dos anos 1950 e 1970, temos uma uma série de still life e algumas tomadas mais prosaicas de personagens na praia de Jericoacoara,  de 1985, que não fazem justiça ao conjunto de sua obra, no entanto interessantes para o entendimento de sua longa carreira, interrompida em 2000 com sua morte. Aos 83 anos ainda foi capaz de assinar um último ensaio publicitário.

Entre outros textos,  se destacam os escritos por Ângela Magalhães e Nadja Peregrino, curadoras e pesquisadoras;  Sergio Burgi, Coordenador de Fotografia do IMS;  Dudu Tresca e Sergio Jorge, fotógrafos – e de Rubens Fernandes Junior, pesquisador e professor, que situam o fotógrafo em diferentes tempos e ações entre sua vida profissional e pessoal.

Ed Viggiani, um dos grandes nomes do documentarismo brasileiro foi assistente de Albuquerque em 1982, numa agência de propaganda em Fortaleza. Certa vez, com o dia nublado e uma externa para fazer, foi chorar para o chefe e ouviu dele “ Não há luz ruim, o que pode acontecer é falta de inspiração”.
Para Viggiani a lição ficou para sempre: “Aprendi com ele que a luz deve mesmo é ser interpretada” conta o fotógrafo.

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