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Geraldo de Barros, quando a subversão vira arte!*

[ | 2 jul 2010 | 6 Comments | 7.944 visitas ]

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

*texto publicado originalmente na revista Fotografe Melhor em 2007 e atualizado para o Paraty em Foco 2010.

Por Juan Esteves

O paulista Geraldo de Barros é um daqueles fotógrafos cuja obra é reverenciada por críticos, pesquisadores e curadores sérios, mas pouco conhecida do público. Aliás, como muitos que fizeram parte de um período dos mais produtivos no Brasil, chamado de” fotografia moderna”, lá pela distantes décadas de 40 e 50.

Este reconhecimento, aquém do merecido, deve-se, entre outras coisas, a sua obra estar fragmentada em exposições, catálogos, teses acadêmicas, poucas publicações, que não chegam às mãos da maioria, mesmo interessada. Um problema crônico da nossa cultura, que foi amenizado com o lançamento de uma caixa contendo dois livros, com uma expressiva parte de sua obra essencial.

Os dois volumes“ Fotoformas” e “Sobras” foram organizados pelo professor e pesquisador Rubens Fernandes Junior e lançados pela editora Cosac Naify em janeiro de 2007. A mostra “A(s)simetrias”, que trouxe parte destas obras e retratos do artista feitos por outros fotógrafos, ficou em cartaz na Galeria Brito Cimino, de São Paulo, entre dezembro de 2005 e março de 2006 e levou prêmio de melhor exposição do ano, dado pela APCA ( Associação Paulista de Críticos de Arte) que também premiou o pesquisador pela curadoria.

Para Fernandes Junior, que lançará pela mesma editora sua tese de doutorado “Fotografia Expandida”, e na qual consta um capítulo especial sobre Geraldo de Barros, os volumes dão a chance de “democratizar” o conhecimento em torno da obra deste grande artista. De fato, as publicações amarram as suas diferentes produções mostrando os diversos experimentos que ele fez com o meio fotógrafico, uma parcela signifcativa de sua produção como artista plástico.

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

É muito difícil separar o fotógrafo do artista. E, é neste amálgama, habilmente executado, que se encontra o melhor de sua original obra. Boa parte da conservação deste resultado se deve também as suas filhas, Lenora e Fabiana de Barros, que como artistas plásticas, tiveram sensiblidade para a organização e manutenção de seu valioso acervo há anos depositado no Musée de L’Elysée, de Lausanne, na Suiça. O excelente museu disponibiliza aos interessados o acesso as suas obras. Coisa rara por aqui, infelizmente.

Nascido em 1923, em Xavantes, interior de São Paulo, Geraldo de Barros, foi com a família para São Paulo três anos depois. Em 1946, resolve estudar desenho e pintura com o pintor e muralista Clóvis Graciano (1907-1988) frequentando seu ateliê e se inscreve na Associação Paulista de Belas Artes. Neste meio, encontra o artista japonês Yoshiya Takaoka (1909-1978) a quem se credita seu real interesse pelo estudo da pintura. No ateliê deste, encontra Athaíde de Barros, com quem divide sua primeira exposição, em 1947, no hall do Teatro Municipal de São Paulo, e foi através deste colega que se aproxima da fotografia.

Athaíde de Barros queria ser um profissional e convidou o artista para acompanhá-lo. A idéia era fotografar os times de bairro, ganhando dinheiro com isto. Os dois constroem um pequeno laboratório no ateliê do Grupo XV.
Este grupo foi formado em 1948 pelos dois, pelo mestre Takaoka e por outros doze jovens artistas, como Antonio Carelli, e ficava no centro de São Paulo.

Sua primeira câmera foi construída por ele mesmo, depois substituída por uma Rolleiflex. Já no início, começa a experimentar. Ora com superposições, ora com detalhes de grafismos nas paredes da cidade. Contudo, diferentemente do amigo, o profissionalismo não o atrai, e desfaz a parceria, indo em 1949 para o encontro de um clube de amadores, o hoje histórico Foto Cine Clube Bandeirante. Lá conviveu com Thomaz Farkas e German Lorca entre outros.

De início suas idéias não combinam com muitos do clube, cuja linha era o pictorialismo, e se destaca por ser independente e por exercer uma linha de pesquisa bastante peculiar para época. Risca negativos, faz múltiplas exposições, e coloca um elemento que se tornaria bastante significativo em sua longa obra: o acaso. Não é necessário dizer o que isto causou nos debates e nas recusas de suas obras nos salões promovidos pelo Bandeirante.

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

Em meio a estes experimentos fotográficos, segue com sua carreira como artista plástico, que seria tão ou mais importante que a de fotógrafo. Em 1949, a convite de Pietro Maria Bardi ( 1900-1999), então diretor do novíssimo Museu de Arte de São Paulo, organiza o laboratório fotográfico do museu, inserindo a fotografia no circuito da arte brasileira. A concepção plástica de suas imagens fotográficas estão essencialmente ligadas as sua produção como artista plástico, notadamente no que se refere a forma.

Mas já um pouco antes, o artista começa a refletir politicamente e conceitualmente sobre a arte. Dois fatores foram fundamentais: a aproximação com o importante crítico pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981) e com a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1906-1999) . Com o primeiro toma contato com a teoria da “Gestalt” e com a segunda, se interessa pelos seus conceitos em terapia, que, entre outras coisas, culminou na existência do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.

A grosso modo, a psicologia da Gestalt tem a ver com os fenômenos da percepção humana. Seus propagadores diziam e dizem, que não se chega ao conhecimento do todo pelas partes, e sim o contrário. Ou seja, é só através da totalidade que o cérebro pode decodificar e assimilar uma imagem. Para Geraldo de Barros, o desenho não era uma representação e sim algo em si mesmo.

Nise da Silveira introduziu aos seus pacientes uma terapia revolucionária através da arte. Suas pesquisas em terapia ocupacional são importantíssimas. Parte deste resultado chegou a ser exposto na 16ª Bienal de São Paulo, de 1981, na exposição Arte Incomum, que teve como curadora nacional a professora, historiadora e crítica de arte Annateresa Fabris, autora de vários livros essenciais sobre fotografia.

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

Porque estes dois “personagens” são importantes na obra de Geraldo de Barros? Um promoveu no interior do artista uma sólida bagagem política e conceitual com relação a forma e o espaço. O outro, o coloca em contato com as poderosas forças do inconsciente, que de certa forma dão sentido a sua geometria, ao seu abstracionismo, as reflexões sobre a figura, intrinsecamente ligadas a liberdade de criação que procurava desde o início.

Em 1950 o artista expõe suas criações fotográficas no Museu de Arte de São Paulo – MASP. Com o nome Fotoforma, ele cuidou inclusive da montagem, criando suportes especiais para suas obras, que seriam copiados por alguns fotógrafos décadas após, o que revela o seu poder inventivo.

Certas declarações do artista ainda são polêmicas em meio aos puristas. Para ele, era no erro e no acaso, que residiam a criação fotográfica. Também, o aprenzidado, a técnica eram secundários. O suficiente apenas para poder expressar o que queria. A sofisticação técnica levava ao empobrecimento dos resultados, da imaginação e da criatividade, achando negativo tais situações para a arte fotográfica, dizia.

Contudo, ao observarmos ambas as séries, Fotoformas e Sobras, ou até mesmo algumas imagens isoladas, vemos que há muita elaboração em cima do tal “acaso”. Há uma forma rigorosa em suas imagens geométricas, de modo a aproveitar o máximo seu grafismo, como se fosse uma construção objetiva e intencional.

Nas fotoformas o triângulo luz-sombra-transparência é excepcional, extremamente elaborado. O que noz faz pensar que tais declarações serviam para esquentar o debate, cutucar os pictorialistas. A presença do humor nelas é evidente, e não contradiz seu virtuosismo plástico.

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

Os “grafites” em cima de formas encontradas nos muros, muito diferentes dos produzidos por Brassai (1899-1984), são também elaborados. As imagens encontradas podem ser aleatórias, mas os riscos nos negativos são intencionais. Tratando-se de “adequar” a forma de base com a forma final. Algo extremamente criativo ainda hoje, pura vanguarda.

As tais “Sobras” são oriundas do acaso e de fotos familiares, mas constituem processos elaborados, quando ele inverte o céu branco, deixando o negro. Ou quando o claro de um lago ou de uma montanha em neve, tem o mesmo destino. Estamos falando aqui, da possibilidade infinita da subversão da ordem, o que nos remete diretamente a liberdade almejada pelo fotógrafo artista.

Paulo Herkenhoff, crítico e curador, afirma que a fotografia do artista foi regida pela ruptura. Há uma recusa a ordem vigente, resumidos na lógica do olhar, na estética. Segundo ainda o crítico, as suas “Fotoformas” ainda que partindo do real, operavam no campo da percepção visual como construção abstrata.

Na série “Vidros” o fotógrafo subverte a ordem novamente, indo na contramão da proposta ancestral da imagem fotográfica. Ele não produz uma matriz para suas cópias e sim uma peça única. Um objeto fotográfico, sendo mais uma vez inovador.

Fragmentos de negativos e positivos formam uma amálgama, em cor e em preto-e-branco (mais um subversão aos ditames) revelando através dos adesivos que a sustentam o caminho percorrido, mostrando os bastidores de sua proposta. Papel celofane, vidros, instrumentos de gravura como a ponta seca, ou tintas como o naquim, eram também utilizados. Em suas “Colagens” Gerado de Barros utilizou a maioria dos elementos encontrados nas primeiras séries.

Em 1952 Geraldo de Barros toma parte de um dos mais importantes movimentos da arte brasileira, o Ruptura, que ajuda a criar em companhia de grandes artistas como Waldemar Cordeiro(1925-1973) e Luiz Sacilotto ( 1924-2003). Para os críticos, o fim do hedonismo figurativo é anunciado pelo movimento da Arte Concreta no Brasil.

Rubens Fernandes Junior, ao produzir a mostra A(s)simetrias nota, entre outras coisas, que (…) a fotografia do artista carrega uma centelha de transformação maior do que pode parecer e do que foi inicialmente analisado (…). Tal acertada análise, tem como prova o impacto que sua fotografia ainda causa hoje. O quanto ela ainda é subversiva, diante da arte estabelecida.

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

A partir de 1954 abandona a produção fotográfica se dedicando ao desenho, e trabalha como designer, na criação do projeto Unilabor, uma fábrica de móveis com regras coletivistas de gestão e um dos marcos do design brasileiro. Em 1966 abre a loja de móveis Hobjeto, ano em que associando-se aos artistas Nelson Leiner e Wesley Duke Lee, funda a histórica Rex Gallery.

A Hobjeto chegou a ter 700 empregados em 1972 e foi premiada várias vezes pelos seus desenhos de móveis. O artista montaria seu ateliê na própria fábrica. Em 1979, em plena crise econômica que afeta o pais e a fábrica, Geraldo de Barros sofre uma esquemia cerebral. A primeira de uma série de quatro, e abandona a Hobjeto. Também abandona a pintura figurativa, retornando ao assunto geométrico iniciado nos anos 50.

Geraldo de Barros. Fotoformas e Sobras

Em 1993, o artista apresenta pela primeira vez na Europa a série completa de suas Fotoformas, no Musée D’Elysée, dando dimensão internacional a sua obra. Já desde 1988, enfraquecido pela doença e com ajuda da fotógrafa Ana Moraes, sua assistente, realiza mais de 250 recortes em negativos de viagem e da familia. Nesta nova série, “ Sobras” o artista caminha com entusiasmo até a sua morte em 1998.

Fotoformas e Sobras

Os dois volumes, publicados pela Cosacnaify, se constituem na principal referência da importante obra de Geraldo de Barros. “Fotoformas” é a segunda edição, acrescida de textos críticos de Charles Henri Favrod, Max Bill, Pietro Maria Bardi, Radhá Abramo, Paulo Herkenhoff, Eugen Gomringer, Nelson Aguilar e Adon Peres, extraídos de críticas publicadas em jornais e catálogos das mostras do artista.

São fundamentais na compreensão mais próxima de sua obra. Trata-se de uma edição fac-símile, do livro publicado em 1993, por ocasião da mostra “Geraldo de Barros, fotógrafo” no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Esta retrospectiva foi realizada originalmente em Lausanne, no mesmo ano, no Musée de L’Elisée.

“Sobras” é inédito, e trata do retorno do artista `a fotografia, 30 anos depois. Traz um texto do organizador Fernandes Junior, “A(S)simetrias”, uma das melhores análises da obra do artista feita até hoje. Há também uma excelente cronologia, escrita por Michel Favre, além de imagens da mostra premiada na galeria Brito Cimino. As edições são bilingues e vem numa caixa.

Juan Esteves, fotógrafo, vem escrevendo seus artigos desde 1988 na Folha de S. Paulo. Foi colunista da Revista Iris Foto e editor e colunista do Fotosite. É articulista da revista Fotografe Melhor e colaborador de textos e imagens para revistas como Mitsubishi, Living Alone, Viaje Mais e editora Cosac Naify. Agora, no blog do Paraty em Foco, Juan posta textos inéditos ou publicados – os últimos, com reedição e atualização feitas especialmente para este blog.

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6 Comments »

  • Luciana Benaduce said:

    Geraldo de Barros tem que ser lembrado sempre ! Valeu Juan pelo belo artigo !

    Felizmente existem os restos
    Felizmente existem os Rubens
    Felizmente existem os Juans
    Felizmente existem os Paulos
    Felizmente existem os Musée de L’Elysée, de Lausanne
    Felizmente existem as filhas
    Felizmente existem as sobras de Geraldo .
    Juan,
    Gostaria de ver o trabalho de vidro dele, vc sabe se está em no Museu de Lausanne ou tem algum no Brasil ? Perdi a exposição na Galeria Brito Cimino…

  • madalenaestudio said:

    Oi Luciana,

    A Luciana Brito Galeria (antiga Brito Cimino) ainda detém algumas obras de Geraldo de Barros, assim como contato com o portfólio do artista, liga lá se você quiser saber mais sobre alguma obra ou para informações sobre lugares que ainda possuem acervo público expositivo,

    O site é http://www.lucianabritogaleria.com.br

  • juan esteves said:

    Obrigado Luciana Querida! Felizmente existem leitores como você!
    Como no comentario é provável que a Luciana Brito ainda tenha a série feitas com vidros, que são únicas! Mas no Elisée é certo!
    abs'Juan

  • Luciana Benaduce said:

    Obrigada equipe ! Iatã adoro o Boletim !Sou fã é um ótimo canal para pensar e falar de fotografia !
    Viciei rs !

  • Luciana Benaduce said:

    Legal Juan, obrigada ! Agora vou ler sua matéria do Felizardo rs.

  • armani suits online said:

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