Imago, de Felizardo, por Juan Esteves
“Imago” de Luiz Carlos Felizardo
por Juan Esteves
Luiz Carlos Felizardo além de ser um doutor na arte fotográfica é também um exímio pensador do fazer fotográfico e um prosador de primeira, o que é comprovado no livro “Imago” (Lathu Sensu-Fumproarte ) lançado no início do mês de julho, em Porto Alegre, cidade natal do autor e onde ele começou sua carreira profissional ainda em 1972.
Imago, do latim, é um palavra que além de significar imagem, também em sua etimologia se aproxima da psicánalise, numa idealização de certa imagem ou pessoa, bem como as influências de seu comportamento. Título que veste como uma luva para os textos escritos por Felizardo desde 2001 na revista de arte e cultura Aplauso, publicada na capital gaúcha.
São 25 textos no total, o que já comprova o extremo rigor que Felizardo aplica não só nas suas imagens, mas no que escreve. 23 deles selecionados, entre centenas de suas colunas, surgem da colaboração fixa do fotógrafo com a revista, e dois inéditos, especiais para publicação. Com uma alteração aqui e ali, frutos de uma revisão mais demorada, são reproduzidos sem maiores alterações na sua compreensão.
Num largo espectro analítico Felizardo aborda circunstâncias em que a fotografia se apresenta em diferentes circuitos, formatos e publicações; comentários sobre fotógrafos ou sobre outras pessoas que fotografou. Alguns personagens mais próximos de suas paragens, como o fotógrafo uruguaio Panta Astiazarán, e outros de caráter mais nacional e internacional, como Cristiano Mascaro, Otto Stupakoff (1935-2009) e Mario Cravo Neto (1947-2009) ou fotógrafo americano Frederick Sommer (1905-1999), com quem trabalhou nos Estados Unidos, em 1984.
Do fotógrafo americano, Felizardo trouxe não somente necessidade de excelência , aplicada em suas memoráveis fotografias, mas na sua formação intelectual.
Conta o autor, em outra ocasião, que Frederick Sommer tinha uma frase ótima:“A arte não é arbitrária. Uma grande pintura não surge por acidente. Não aparece por sorte. Nós somos sensíveis as tonalidades. A mínima modificação da tonalidade afeta sua estrutura. Algumas coisas ficam melhor grandes, mas elegância é a representação das coisas em suas mínimas dimensões.” (1979).
Tais observações de Sommer são referentes a excelência no laboratório fotográfico, que Felizardo absorveu com exatidão no período em que conviveu com o mestre americano.
É simples notar a qualidade olhando uma cópia feita pelo fotógrafo gaúcho, que além desta maestria navega por diferentes formas de ampliações como a “photo etching”, feita no método mais tradicional, motivo de uma bolsa na Fundação Iberê Camargo.
Sommer deixou um legado de antológicas imagens e textos idem. Desde 1993, criada pelo casal Sommer, existe na cidade de Prescott, estado do Arizona, nos Estados Unidos, a The Frederick and Frances Sommer Foundation, uma instituição sem fins lucrativos, cuja missão é apoiar a pesquisa da estética e seu relacionamento com o meio ambiente e a qualidade de vida.
Mas, a necessidade de se apresentar além da fotografia surge para Felizardo já em 1973. O fotógrafo se “associa” a outro mitológico nome da fotografia gaúcha, Assis Hoffmann, na época editor da Folha da Manhã, um jornal, segundo ele, “inovador e excelente” (que deixou de circular), formando o estúdio Focontexto.
É deste tempo que os dois criam a seção “Fotografia”, publicada neste diário aos sábados, da qual Felizardo cuidou entre 1974 e 1975.
Também vem destes momentos seus primeiros textos, que, para os padrões atuais de jornalismo impresso, as vezes ocupavam três inacreditáveis páginas.
Mais do que ser apenas um livro de memórias circunstanciais à vida do fotógrafo, ou seus mais próximos, “Imago” traz também parte da história da fotografia brasileira e seus movimentos importantes, como a antológica Semana Nacional de Fotografia da Funarte, precursora dos grandes eventos de fotografia atuais.
No texto, o articulista foca na semana ocorrida em 1987, na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais. Semana “em torno da histórias fantásticas de David Zingg (1923-2000)”. Do motorista de taxi, Felizardo ouviu a pérola: “Se Ouro Preto acabar, dá para fazer outra só com as fotografias que este pessoal tá tirando”.
Felizardo já havia publicado sua primeira coletânea de textos em 2000, intitulada “Relógio de Ver” (Fumproarte), mas com este novo livro adiciona também coisas mais pertinentes a tecnologia, como o texto “Memória Digital”, publicado em 2003, onde o autor já antecipava discussões que ainda hoje atormentam os fotógrafos, mesmo que em sete anos muita coisa tenha mudado. No entanto, os textos argumentam de maneira quase intemporal as implicações que as mudanças causaram, e mostram que tanto o pensador quanto fotógrafo continuam mais atentos do que nunca.
Veja mais posts de Clicio










Juan,
Excelente!
Sou apreciador do trabalho do Felizardo, e agora admirador de suas resenhas.
parabéns aos dois!
Abraços,
clicio
[...] This post was mentioned on Twitter by clicio barroso filho, clicio barroso filho, Bernardo Bezerra, Bernardo Bezerra, nely rosa and others. nely rosa said: RT @clicio: "Imago", de Luiz Carlos Felizardo, por Juan Esteves. :: http://bit.ly/cjibG4 @paratyemfoco [...]
Parabéns… O texto ficou maravilhoso… Encantado com tudo,,, parabéns a todos e obrigado clicio por compartilhar!!!abs
Interessante, Clicio.
O texto do fotógrafo, assim como o texto do pintor ou o texto do arquiteto são extremamente valiosos. Porque mostram a partir da vivência da prática suas questões. Um dos valores do Le Corbusier na arquitetura, e razão de sua enorme influência, foi ele ter escrito, ter explicitado sua abordagem, seu método, seus princípios. Há uma diferença em escrever sobre a fotografia, de fora -e isso é importante também- e escrever de dentro, escrever enquanto as questões são vivenciadas.
Ivan.
Apesar de todo o recente awareness sobre a linguagem fotográfica e seu descolamento do referente, o texto bem escrito, por vezes descritivo, por vezes critico, é algumas vezes complementar, e sempre útil.
Sou reticente em usar legendas e títulos em fotografias de exibição, pois certamente influenciam o olhar do observador, que é necessário para que a obra de arte se realize; mas um bom texto, como os do Juan, só acrescentam.
Obrigado por comentar!
Subscrevo o comentário do Clício. É sempre bom ler uma resenha do Juan, sempre acompanhada de um magnífico retrato. No caso, excelente a escolha do grande Felizardo. Em dezembro de 2007 tive a oportunidade de adquirir uma fotogravura dele. Quando escrevi mostrando minha satisfação, tive dele a seguinte resposta: "que bom que você gostou o suficiente para escrever dizendo isso. Os artistas mais pretenciosos dirão que a opinião dos "compradores" não interessa ou é previsível: nada disso, é uma opinião que importa muito e faz bem ao ego da gente, seja lá o que isso for." Mais ainda importa a opinião abalizada do Juan que, no caso, fala por todos nós.
Eduardo,
Realmente uma resposta a "la Felizardo" certíssima e acima de tudo, honesta! Coisa rara em meio a tanto narcisismo brotando sem parar! Como escrevi, Felizardo não é só uma grande artista, que produz entre outras coisas estas fotogravuras sensacionais que vc adquiriu, mas um grande prosador!
Separo aqui abaixo uma frase, que para mim é das melhores que eu já li sobre fotografia em todos os tempos. Já a ouvi do mesmo, mas reproduzo daquela citada pela professora Simonetta Persichetti, na sua entrevista no blog Olhave: " fala-se muito sobre fotografia e muito mal " Nosso autor é sem dúvida uma exceção!!!!!
Pois é …. definitivamente passa dias, anos e a falta de respeito a fotografia continua, ou a histérica necessidade de ser criativo e cortar uma fotografia alheia pela metade.
Leopoldo Ple (grafia criativa do meu nome)
A sensibilidade de Clicio nos brindou com este importantíssimo texto de Juan Esteves e a difusão da obra de Felizardo indispensáveis para compreender e registrar o "pensamento" fotográfico.
Muito bom.
Leopoldo,
Que exagero! Que drama! Nenhuma foto foi cortada, se você entrar na matéria verá a foto inteira e creditada como deve ser num blog que se preste!
Na Home a ferramenta WordPress prevê uma janela quadrada para dar uma prévia do conteúdo a ser visitado, nada de anormal em que nessa prévia se coloque um fragmento da informação, seja texto, seja imagem.
A Matéria é belíssima, parabéns Felizardo, parabéns Juan!
Prezado Leopoldo,
Em primeiro lugar, obrigado pelo seu comentário. Vindo de um fotógrafo tão importante, e que por sinal, também está no livro Imago, embora, infelizmente, como outros, não mencionado.
De certa forma, sua colocação é pertinente, no entanto, ao clicar na imagem ela abre automaticamente no formato original, enviado pelo Felizardo. Ou assim acontecendo quando qualquer pessoa entra no post.
Por razões de design e formatação do Blog, as chamadas tem este formato mais quadrado, por vezes cortando a imagem original, por isso quando assim acontece, ela é repetida no abre do texto.
Longe de mim, em primeiro lugar, desrespeitar o Luiz Carlos Felizardo. Pelo contrário, se você se der ao trabalho de ler o post, entenderá que esta intenção está distante de acontecer.
Também, felizmente creio que não temos nenhuma necessidade histérica por ser criativos, muito menos sofremos de incontinência verbal como algumas pessoas. Apenas temos interesse na divulgação mais ampla da nossa fotografia onde quer que ela aconteça com talento e qualidade.
Desde já, fica aqui, mais uma vez, o meu agradecimento pessoal pela sua observação. Encaminhei a equipe que põe o blog no ar para se manifestar a respeito das suas considerações.
Esperando que esta seja a primeira de suas boas colaborações para nosso blog, fica aqui o abraço forte e o meu respeito de sempre!
Juan Esteves
Leopoldo,
Com todo o respeito que tenho por seu trabalho e sua defesa em prol da boa fotografia, tenho que discordar de sua observação. Todas as fotografias que aparecem na página inicial deste blog (e de muitos outros) obedecem a um design previamente determinado por um gabarito.
Não há e nunca haverá, pelo menos por aqui, intenção alguma em descaracterizar, desrespeitar ou reeditar a fotografia de ninguém. Como já foi observado, nas matérias as quais as chamadas fazem alusão, as fotos estão sempre integras e creditadas.
Obrigado por visitar e nos deixar sua valiosa opinião sobre o maravilhoso trabalho do Luiz Carlos Felizardo.
Juan, belo trabalho!
Abraços a todos,
Clicio
um dos Grandes fotógrafos Brasileiros. Tenho muita apreciação pela pessoa e fotografias do Felizardo. Sou grande amigo do filho dele e posso dizer que a fotografia está no sangue da família.
Bela homenagem.
ABs
Olá somos de Casa Noar, realizadora do 10º Festival BrasilNoar – Barcelona 2010.
Nossas inscrições para a exposição fotográfica e arte em geral estão abertas no site http://www.brasilnoar.com
Participe! Divulgue para seus contatos!
Veja os depoimentos dos artistas que já participaram!
O Festival BrasilNoar – Festival Internacional da Nova Arte Brasileira é uma proposta independente que está a 10 anos promovendo a arte e cultura brasileira em uma das principais cidades culturais do mundo, com uma excelente acolhida de público e crítica, o que reforça o trabalho árduo que é promover o novo, o desconhecido e que têm muita qualidade! A nova arte brasileira!
Um abraço!
A Equipe
http://www.festivalbrasilnoar.com
Não pude ir no lançamento do livro e encontrar colegas e amigos de fotografia.
Na verdade encontraria meus mestres todos.
Gostei de tudo – texto, comentários, críticas.
É tudo da lei!
Abraços.
Luiz Carlos Felizardo é um bom exemplo a ser seguido. O trabalho dele é obra que não cansa a alma. Pelo contrário, nos impulsiona a sair correndo atrás da vida e pegá-la pelo rabo a cada esquina da vida.
Com relação ao texto de Juan, o tempo e seu esforço inquestionável em querer fazer bem as coisas, lapido-o a ponto de escrever de forma calma e compreensível, e, sem estrelismo. Não faz disso uma marketing, mas um prazer. Qualquer observação contrária, considero uma injustiça. Dai a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César.
Leave your response!
Últimas da Blogosfera »
Blogs participantes »
Flickr Convidados 2011 »
Flickr Groups » Participe!
Últimos Comentários »
Tags »
+ Vistos »
Realização
Patrocínio
Parceiros
Apoio