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Ana Lucia Mariz: alma e fotografia

[ adelaide ivánova | 27 ago 2010 | One Comment | 1.337 visitas ]


Se a ALMA que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instincto teu
*

Nada melhor do que percorrer as imagens feitas por Ana Lucia Mariz, lembrando o lisboeta Fernando Pessoa (1888-1935). Oportuno, apesar de não ser uma recorrência, pois, como muitos dizem, fotografia não se explica. Também sugerem que analogias são desnecessárias e que a fotografia vale mais que as palavras que a descrevem. No entanto, as citações daqueles que escrevem em Alma Secreta (Ed.Terra Virgem,2006) permitem a liberdade.

Numa sucessão de imagens, cujo tema principal é uma alegoria ao abandono, são registrados momentos de luz pontuados, como a indicar caminhos, a ressaltar detalhes, em locais destruídos pelo tempo, ou pela mão do homem, que servem de cenário em meio a escuridão que os cercam. São raros os momentos onde a vida aparece. Se é que ela existiu, está envolta em segredos que a fotógrafa tenta desvendar.

O curador Diógenes Moura, responsável pela exibição de parte deste trabalho na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2005, recorre ao arquiteto Giovanni Piranesi (1720-1778). Mais precisamente a seus Cárceres, uma série de gravuras em água forte, produzidas pelo veneziano em 1761, que, como diz o título “Carceri d’Invenzione”, foi imaginada por ele. Contudo, ao vê-las é difícil crer que elas realmente não existiram, pois é de um realismo atroz. Analogia correta do curador, porque estas nos levam imediatamente a “criações” inseridas na realidade encontrada por Ana Lucia Mariz.

Já o crítico e curador Agnaldo Farias é mais subjetivo ao lançar mão do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) e seu celebrado Retrato de Dorian Gray, onde o personagem “é paralisado pela beleza, enquanto seu retrato envelhecia no ritmo de suas vilanias”. Igualmente oportuno, pois como personagens em nossas próprias vilanias, assistimos o envelhecimento das paisagens captadas pela fotógrafa, enquanto ficamos paralisados pela beleza das mesmas.

Ana Lucia Mariz andou por alguns anos, com a lanterna na mão. Não a procura de um homem virtuoso, como o outro Diógenes (413 aC-323 aC), mas a procura de vestígios em escombros espalhados pelo Brasil. Entre cidades como Itaparica, Salvador, Santos e São Paulo, vislumbrou ruínas arquitetônicas e desenhou fotograficamente em “light-painting” dentro de casarões históricos abandonados, e até mesmo entre escombros humanos como os vestígios do finado presídio do Carandiru.

É difícil também não fazer uma analogia com outros dois livros: O espírito dos lugares (L’esprit des lieux), do paulistano Eduardo Muylaert, e Zones Of Exclusion: Pripyat And Chernobyl, do canadense Robert Polidori. Apesar de diferentes entre si, mantêm algumas ligações com Alma Secreta.

O primeiro pela estética, que apesar de não usufruir a mesma técnica, os aproxima pela tonalidade de seus desertos noturnos, onde o predominante é o preto, com centelhas de branco, esquecendo as nuances cromáticas do cinza e a ausência do humano, meio utilizado pela fotógrafa também.

Do segundo, o vazio é o leitmotiv de ambos. Os escombros são seus cenários e, ao modo de cada um, uma denúncia é feita, seja evidente ou velada. Também se aproxima deste no final, quando usa a cor como recurso, ao registrar lugares que estão sendo demolidos.

Parece claro que a intenção da fotógrafa não é denunciar o triste fim do patrimônio histórico brasileiro, ou o que aconteceu nestes locais, e sim, utilizá-los como cenário para suas performances de luz, mas não há como esquecer este destino. Principalmente, como bem alerta Farias, no caso do Carandiru, as legendas prévias nos alertam que estamos entrando em suas ruínas, influenciando sua leitura.

Impossível não ser tomado por esta sugestão que nos avisa. O abandono de casas e fábricas também produz a mesma sensação de ingratidão com o tempo. Este possível manifesto pode ser visto como algo a mais. Como meio de sua poética e não como simulacro. Afinal, há uma beleza, ainda que cruel, em tudo isso.

É por essa contradição que o livro caminha: arte e destruição, tão bem explicada novamente por Farias, ao dizer que “(…) a maior parte da tradição fotográfica alimentou-se do quimérico desejo de não se curvar a destruição das coisas, tentou retê-las no presente, eternizá-las no que seria o momento de seu esplendor (…)”.

Contudo, é mais sábio esquecer tanta referência e se entregar ao prazer do momento fotográfico determinado pela fotógrafa. Percorrer os caminhos indicados por sua luz precisa, pelos cenários escolhidos – esculpidos a força pelo tempo – imaginar o que houve por trás dessas paredes intactas outrora, e hoje mero amontoado de possíveis lembranças.
Imaginamos que a boa fotografia deva suscitar o “antes” e o “depois”, eternizada naquele momento do “presente” selecionado pelo fotógrafo. Tarefa difícil que Ana Lucia Mariz realiza. E como toda obra, regada pelo tempo, talento e técnica, não se desfaz em mera retórica imagética, sendo grande em si mesma.

*Extraído de “Os Castellos”, segunda parte de Brasão. Obra Poética de Fernando Pessoa, Editora Aguilar, 1960.

Adendo da editora: no dia 31 de agosto, as fotos de Ana entram em cartaz na Íma Foto Galeria, em São Paulo. A expo chama-se Mind the gap tem curadoria do nosso mais-que-querido Juan Esteves. Saiba mais!

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