Herman Leonard: enjoy the music!
Notícia mais que triste: a morte, no último sábado, do fotógrafo americano Herman Leonard, num hospital de Los Angeles. O fato parece abrir de vez a enorme lacuna na imagética musical (particularmente no jazz), que já havia perdido, em 2008, William Claxton e, há 5 meses, Jim Marshall. Feras que começaram a atuar nos anos 40 e 50.

Louis Armstrong, por Herman Leonard
Conheci Herman Leonard em 1998. Foi durante uma das edições do Free Jazz Festival, de São Paulo, evento que cobri enquanto durou, de 1985 até 2002. Já conhecia seus retratos maravilhosos pelas capas e encartes de muitos discos que eu tinha. Dexter Gordon, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e muitos outros, não somente me davam prazer de ouvi-los, mas seus projetos gráficos, baseados nas imagens de Leornard, eram algo à parte. Realmente à parte.
Quando soube da sua exposição no Jóquei Club de São Paulo, onde acontecia o evento, larguei a cobertura do show e fui direto para o saguão onde estavam seus retratos, todos em papel de fibra, impecavelmente ampliados. Vi a figura de Leonard, cabelos brancos, barba grisalha, sendo fotografado pela minha amiga Adriana Zebrauskas, na época do staff da Folha (hoje ela vive no México, colocando seu enorme talento a serviço dos melhores jornais do mundo).

Herman Leonard, por Juan Esteves
Quando acabou de fotografar, ali mesmo no corredor junto à exposição, ela me apresentou a ele… Foi uma emoção enorme, que só se desfez com a sua simplicidade e uma modéstia que só os verdadeiros grandes mestres são capazes de ter. Aqueles que não apenas fazem uma arte maior, mas vivem com ela no coração e a distribuem sem parcimônia, sem medo, compartilhando sua sabedoria. No caso de Leonard, naquela época, já contava mais de 50 anos de estrada, milhares de negativos de médio e grande formato, centenas de medalhões do que o jazz produziu de melhor no mundo.
Fiz algumas imagens com a péssima luz ambiente. Mas, insastisfeito, pensei combinar de fotografá-lo novamente no dia seguinte. Generosamente ele concordou, e lá fui eu para o hotel, de Hasselblad na mão e meu estúdio portátil. Levei na bagagem meu portifólio com retratos de músicos de jazz, e, meu primeiro livro dele The eye of jazz (Viking,1985), que ele autografou, dizendo que “um dia nos encontraríamos novamente”. Gentil e polido comentou o portifólio e ficou com um polaroid da sessão.
Enviei os retratos para seu estúdio de New Orleans, com um pedido (muito cara de pau) para ele fazer uma apresentação para meu primeiro livro, 55 Portraits (D’Lippi. 2000) que sairia alguns meses depois. Passados alguns meses, recebi uma encomenda de Leonard. Uma caixa, contendo outro livro seu, Jazz Memories (Filipachi, 1995). Na dedicatória, “Espero que você goste destas memórias, mas, acima de tudo, espero que você goste é da música!”. Um retrato do Dexter Gordon autografado e dedicado, e um pequeno texto (importantíssimo para mim) de apresentação para meu livro. E desde então sempre recebia notícias de seu estúdio.

Billie Holiday, por Herman Leonard
A vida de Leonard era música! Fotografia para ele era música! Música era fotografia! A amizade era música! E com esse pensamento viveu assim durante boa parte dos seus 87 anos . Mesmo com a perda dolorosa de parte de seu arquivo depois do furacão Katrina, ele colocou à venda muitas de suas imagens em benefício da cidade que amava. E, era capaz de ainda mandar imagens de presente aos conhecidos e amigos distantes.
A história do jazz foi registrada por fotógrafos como Leonard (e muitos outros, como William Gottlieb ou Lee Tanner), que transformaram música em ícones gráficos. São documentos que legaram à posteridade não apenas um registro fotográfico, mas informações de como gerações no mundo inteiro cultivaram seus hábitos sociais em meio a uma iconografia onipresente. Muitos podem não saber quem foi Herman Leornard, mas já viram infinitas imagens suas em CDs, posters, em tudo que é formato. E por certo as admiram, ainda que não saibam quem as fez.
A colaboração de grandes mitos do jazz com documentaristas como ele colocaram a imagem fotográfica como um dos maiores gêneros de expressão do século 20, que ainda estão longe de serem substituidas por novas mídias. A fascinação pela fotografia e pela música o moldaram de maneira eterna e suas imagens afirmaram um padrão de talento e qualidade difícil de alcançar. Uma inspiração que levo sempre que penso na verdadeira fotografia, direta e sem firulas. Uma inspiração cujas poucas linhas que estão num livro antigo me marcaram para sempre.
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Caríssimo!
São 25 anos de estrada, fotografando estas pessoas. Algumas realmente muito incríveis, como o Leonard, de verdadeira inspiração. O triste para nós, é que fazemos mais uma cruz no nosso "arquivo"…Embora, sejam pessoas já com certa idade, é duro perder um Leonard, um Mindlin, um Stupakoff…Parece que um pedaço da gente vai junto. A homenagem serve para nos confortar um pouquinho…Os retratos…Ah! Estes estão guardados, em negativos e no coração!
Valeu o comentário!
abraços
Juan
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