Na Bienal de Berlim
Uma bienal de arte contemporânea em Berlim segue todos os bons clichês que a gente tem quando pensa na capital da Alemanha. A montagem é meio punk, em prédios caindo aos pedaços e que não foram renovados para receber você, queridinha. Não, ninguém tá muito preocupado em te impressionar.
O tema da mostra, este ano, é “was draußen wartet” (assim mesmo, com letra minúscula), que significa “o que te espera lá fora”. Assim sendo, em vez de mostrar um monte de obra que discute o fazer artísitico ou que são apenas bonitinhas de se ver (coisas que, veja bem, também não são demérito), a curadora Kathrin Rhomberg optou por selecionar trabalhos que discutem a vida real, se é que podemos assim chamá-la. ”Os trabalhos apresentados rejeitam a tendência – cada vez mais observada na arte – de se distanciar da realidade, em direção à arte e aos problemas formais”, diz o texto de apresentação. Aí eles espalharam a seleção em seis prédios da cidade. Ironicamente, o único artista não-contemporâneo foi parar na Alte Nationalgalerie (ou seja, a Velha Galeria Nacional): Adolph Menzel, pintor realista do século 19.
Os vídeos tomam conta da bienal, e muitos deles são, na verdade, documentários. O mais longo de todos é Enjoy poverty, de Renzo Martens, que dura 90 minutos. No filme, o artista francês (melhor seria chamá-lo de diretor de cinema, mas como o filme está numa bienal, vai saber, essa coisa de artista) tenta convencer fotógrafos do Congo a tirar proveito da sua própria pobreza. Ele dá aula aos fotógrafos locais, nas quais tenta convencê-los a parar de fotografar festas de casamento (cujas imagens eles vendem por US$ 1) e começar a clicar os campos de refugiados, as mulheres violentadas etc. O ápice do filme mostra Martens acedendo um letreiro de neon no meio da comundidade, que traz escrito “Enjoy poverty” (“aproveite a pobreza”).
No prédio 6 está concentrado o maior número de artistas e, também, a maioria de obras audiovisuais – são 33 criadores, dos ais 17 apresentam vídeos. Aqui vai um petisco do que está em cartaz por lá:
Anna Witt, Die Geburt, 2003.
Passage Briare, de 2009: filme mudo feito com 16 mm, de Friedl vom Gröller (Kubelka).
Tem fotos também: a série Çiçir, da artista turca Nilber Güres, cujo trabalho (dividido entre fotografia, vídeo e performances) é voltado para a vida das mulheres na Turquia.
Ron Tran, cuja pesquisa artística é baseada em modificações de espaços públicos, juntou os bancos da Oranienplatz de modo que ficassem frente a frente, bem pertinho um do outro. Nada mais apropriado para esse momento na Alemanha, em que se tem discutido com uma frequência quase obsessiva como organizar a imigração e integrar os estrangeiros que vivem no país.
No prédio 3, ainda em Kreuzberg, está o vídeo The girl chewing gun, de John Smith, que mostra a movimentação numa esquina em Londres. Depois de filmar, Smith insere um áudio imitando um diretor de cinema – e a mistura entre realidade e “direção da realidade” faz a gente imediatamente pensar nessa era de reality shows. A escolha deste vídeo, feito em 1976, não poderia ser mais enriquecedora porque, apesar dele ter sido feito décadas atrás, tem uma premissa muito atual:
É no prédio 1, no entanto, que a discussão do que é o tal “lá fora” fica um pouco mais conceitual. A obra que mais me chamou a atenção foi a de Petrit Halilaj, que tem um título maravilhoso: Os lugares os quais procuro, meu caro, são utópicos, eles são entediantes e não sei como torná-los reais. Ele construiu umas estruturas de madeira bem normais só que, entre elas, colocou um monte de galinhas, bem resignadas, bonitinhas, comendo o dia inteiro. As galinhas, sim, tocaram meu coração. É uma experiência bem Clarice Lispector-zal, que tão bem entendia a vida íntima de uma galinha. Mas delas não fiz vídeo: acho que todo mundo consegue imaginar como é que se comporta uma galinha dentro de uma galeria. Ou não?
A Berlin Bienalle fica em cartaz até domingo. Para saber mais sobre ela, clica aqui.
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