Frida Kahlo e suas fotos
Pode-se concordar ou não se Magdalena Carmen Frieda Khalo y Calderón, mais conhecida por Frida Khalo (1907-1954) é a mais importante artista mexicana, diante de suas contemporâneas Leonora Carrington e Remédios Varo (1908-1963) que como ela levaram o nome do México pelo mundo inteiro. No entanto, sua presença midiática é incontestável e ao longo de décadas sua mitologia pessoal só cresceu, assim como o interesse por sua obra.

Frida em 1943
O livro “Frida Kahlo, suas fotos” (Cosacnaify 2010) traz 401 imagens, garimpadas entre as mais de 6 mil, que a artista e seu marido Diego Rivera (1886-1957) colecionaram ao longo da vida, feitas por ela e por amigos – entre estes, grandes fotógrafos como Edward Weston (1886-1958), Manuel Alvarez Bravo (1902-2002), Pierre Verger (1902-1996), Man Ray (1890-1976) e por outros nem tão próximos, mas que contribuíram para esta memória excepcional.
Nele estão imagens da própria artista, de parentes, como sua irmã e sobrinha, autorretratos de Guillermo Khalo, pai da artista e fotógrafo; fotos criadas por ela mesma; imagens de amigos próximos e daqueles que ela não gostava mais; imagens de personalidades importantes como Vladimir Lenin (1870-1924) , Leon Trotski (1879-1940) ou Josef Stalin (1878-1953) e de outras referências fotográficas para seus trabalhos como pintora, numa vasta e eclética seleção.
Diego Rivera colocou em seu testamento que este patrimônio só viesse a público após 15 anos de sua morte. Entretanto, sua testamenteira Dolores Olmedo ultrapassou o desejo do artista e segurou por mais de 50 anos esta memorabilia montada por ele e Frida Khalo ao longo de suas vidas, e que ficava escondida num dos banheiros da célebre residência do casal, a “Casa Azul”, em Coyoacán, na cidade do México, hoje um museu que traz seu nome.

Tina Modotti e Frida, em 1928
As fotografias são muito heterogêneas e parecem fazer par com os humores de Khalo que transitavam muitas vezes em sentidos antagônicos, dependendo de seu estado físico, principalmente após o terrivel acidente que a deixaria com sequelas para o resto de sua existência, e que marcaria sua obra profundamente. Imagens de seus parceiros e parceiras, com marcas dos lábios feitas de baton, se contrapõem com imagens cujas cabeças de certos personagens foram cortadas, banidas para sempre de seu imaginário e de seu coração.
O fotógrafo e curador mexicano Pablo Ortiz Monastério foi o organizador da obra, publicada, de maneira inédita simultaneamente no Brasil, Estados Unidos, México, França, Espanha, Alemanha e países da América Latina. Aqui, o livro traz um certo ineditismo – e também otimismo – de ser tiragem única com 7 mil exemplares.
Ortiz Monastério diz que “é um livro que permitirá a real descoberta de Frida Khalo”. Para ele, o mais importante é entender a influência que teve sua familia em sua história. A importância dos autorretratos de seu pai para aqueles que ela pintou de si mesma. O modelo que sua mãe foi para a maneira dela se vestir, os trajes típicos e as sombrancelhas hirsurtas. Antes disso se acreditava que a influência vinha de Rivera e seu forte nacionalismo. Todos estes detalhes permitem não apenas entender quem foi Frida Khalo, mas compreender a sua obra.
Todo arquivo fotográfico, conservado pelo Museu Frida Khalo, como os demais documentos que integram o acervo descoberto, se encontram catalogados, digitalizados e protegidos em reservas técnicas especiais. Na verdade é um arquivo imenso que conta com mais de 30 mil peças, entre documentos e fotografias, revelados em 2007 ao lado de roupas, desenhos, pinturas e documentos pessoais.
Para o diretor do Museu, Phillips Olmedo, o que vemos no livro é uma Frida Khalo mais íntima, do que se via em suas pinturas. Para ele, encontrar fotografias que foram referências para importantes pinturas é um a nova luz no entendimento de sua obra maior, em seu processo de trabalho.
Se separarmos a questão histórica, por si só as imagens já são surpreendentes. Vemos Frida Khalo na infância, antes de seu acidente; na adolescência, como ela lidou com seu drama e como este se tornou parte de sua obra maior, já na sua vida adulta. A artista sofreu desde pequena acometida de poliomielite, cujas sequelas se agravaram profundamente após ter sido vítima num acidente que envolveu o bonde que viajava e que no futuro, entre outras coisas, a impediu de ter filhos.
Há textos que auxiliam na compreensão maior da vida e obra da artista. Ortiz Monastério faz a introdução e Hilda Trujilo Soto, Diretora do Museu Frida Khalo (que dirigiu a catalogação das descobertas) define a importância do acervo publicado.Pensadores como James Oles, Masayoyo Nonaka e Gaby Franger, entre outros, que promovem uma interessante digressão a partir das imagens e comos estas se relacionam com sua época. Destaque para o curador espanhol Horácio Fernández, um dos mais expressivos estudiosos da fotografia da atualidade, que virá ao Brasil em outubro para o II Fórum Latino Americano de Fotografia Itau Cultural.
Organizadas em sete temas principais: Origens, Papai, A casa azul, O corpo dilacerado, Amores, A fotografia, A luta política, resumem os momentos marcantes da vida de Frida Khalo. Entretanto o interessante é ver como seus temas pessoais interagem com o mundo de então, as suas necessidades estéticas, as contestações da arte estabelecida, a política antes e depois da segunda grande guerra, as transfigurações dos movimentos artísticos. A artista tinha uma intuição peculiar que unia sua intimidade ao mundo exterior.

Nickolas Muray e Frida Casa Azul, em1939. Foto: Nickolas Murray
Como documento fotográfico de extrema importância, pode ser comparado a descoberta da famosa “Maleta Mexicana” que continha imagens da guerra espanhola, feitas por Robert Capa (1913-1954) , Gerda Taro (1910-1937) e David “Chim” Seymour (1911-1956) , anunciada pelo ICP em 2008. Neste momento, em que a arte contemporânea passa por uma forte crítica, uma visão mais completa sobre os fundamentos que balizaram um grande artista é uma contribuição mais do que bem vinda.
Texto publicado originalmente na revista Fotografe Melhor de agosto de 2010.
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