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Fwd: “Entrevista” João Castilho

[ | 16 set 2010 | 3 Comments | 1.875 visitas ]

———- Forwarded message ———-
From: Leo Caobelli
Date: 2010/9/14
Subject: Fwd: “Entrevista” João Castilho
To: Leo Caobelli

Assumindo o email como instrumento de entrevista convidei João Castilho, um dos convidados do PEF deste ano, para uma troca de mensagens a ser publicada por aqui.
O ponto inicial foi a seleção de algumas imagens específicas para dialogarmos sobre seus motivos, métodos e pesquisas.
No fim, mais do que uma entrevista, esse é um “forward” para um grande coletivo de interlocutores que agora também podem contribuir pelos comentários.
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from Leo Caobelli
to Joao Castilho
date Thu, Sep 9, 2010 at 10:26 AM
subject Re: Re: blog PEF

Lembro que na primeira vez que “Linhas”, não o entendi muito bem.
Talvez eu estivesse muito preso a fotografar esse tal de factual, o outro, a coisa documental estrita.
Não lembro quanto tempo demorou até que o trabalhe batesse em mim – mas bateu!
Quando isso aconteceu deu uma sacudida no mundinho.
Essa coisa de te fazer rever referências, repensar o que se faz e, mais do que isso, pra onde se vai com a fotografia.
Lembro muito dessa imagem anexa. De ter me parecido um mapa, alguma coisa de localização… uma imagem de referência – mas não a referência a algo anterior, pelo contrário, uma referência a qualquer coisa interior.
Dai lembrei de uma frase do Pierre-Jean Jouve, no “Lyrique”
“Pois estamos onde não estamos”
E isso cabia tão bem nessa imagem… pelo menos pra mim cabia.
De todo ensaio acho que essa imagem foi onde fiquei por mais tempo (e eu nunca a vi impressa, na parede – fiquei uns 20 minutos seguidos olhando para os pixels na tela).
E sempre fiquei com uma pergunta entalada:

Como que se vai pro mato com um monte de linha e se volta com um emaranhado de signos onde se está tão presente?
E talvez essa ainda seja a mesma pergunta, mas:
Quando se opta por usar o ambiente externo como tela do que se estava guardado aí dentro e como isso se dá, se materializa?

A bola é tua agora!

Abs


from Joao Castilho
to Leo Caobelli
date Mon, Sep 13, 2010 at 5:40 PM
subject Re: sorry

seguem as divagações sobre as suas divagações. abração e se quiser continuar continuamos ok até.

Como que se vai pro mato com um monte de linha e se volta com um emaranhado de signos onde se está tão presente?
Eu não entendo esse trabalho bem até hoje. Mas ele surgiu da necessidade de abalar e sacudir as estruturas do que eu vinha fazendo. Tive necessidade disso naquele momento. É um trabalho de 2008 pra 2009 e eu estava um pouco farto de procurar coisas pra fotografar. Estava cansado e me perguntava porque não construir meus próprios objetos, meus próprios referentes, meus próprios cenários. Claro, vários fotógrafos e artistas já fazem isso ha décadas. Mas pra mim era novidade. Passei meses experimentando materiais até chegar ao fio de lã. E depois mais um tempo trabalhando o fio de lã para chegar as estruturas fotografadas. E foi uma revelação, fiquei muito feliz com aquilo.
Eu acreditava também que, com a minha fotografia, poderia acrescentar um componente ao registro de um trabalho transitório que normalmente não existe nesse tipo de imagem. As fotografias de intervenções costumam ser bem diretas e iluminadas uniformemente. Queria colocar um pouco da dramaticidade que havia aprendido a fazer nas minhas fotografias de estrada. Quero dizer, um certo tratamento da luz, das cores. Eu queria que só eu pudesse fazer aquela fotografia, que se houvesse outro fotografo ao meu lado, a fotografia dele não lembraria em nada a minha. Com isso o foco sairia do objeto fotografado e recairia sobre a fotografia, onde para mim, ele deveria estar.
Quando acabei, tive a sensação de que não estava revendo tanto assim meus próprios paradigmas. Eu continuava, de uma certa forma, na mesma ‘pegada’. Imaginava aquilo como blocos de sensação, assim como acredito que os blocos de cores de Lote Vago também são. Agora, as linhas formam geografias, mapas, vetores e há pessoas que vêem formas humanas encapsuladas, vermes, animais. As vezes eu também costumo ver essas coisas nas fotografias.

E talvez essa ainda seja a mesma pergunta, mas:
Quando se opta por usar o ambiente externo como tela do que se estava guardado aí dentro e como isso se dá, se materializa?
Nos meus trabalhos de intervenção na paisagem – Linhas e Tempero – é a própria paisagem ou a matéria dela que dá a resposta. A pimenta e o açafrão usados no deserto vieram em complementaridade ao sal. O vermelho e o amarelo complementando e compondo com o branco e o azul. Agora, veja bem, em ambos os casos, são formas de ativar o vazio. E dessa forma, não se diferem muito de uma encenação realizada em um lugar onde não acontece nada como muitas vezes fizemos no Paisagem Submersa, quando ainda não haviam casas sendo destruídas nem água subindo e inundando tudo.


from Leo Caobelli
to Joao Castilho
date Mon, Sep 13, 2010 at 6:48 PM
subject Re: sorry

Na introdução do Poética do Espaço, do Bachelard, tem um momento que ele fala em poesia escrita que
caberia muito para eu justificar essas imagens que nos conquistam.
Trocando os termos:
“Na ressonância vemos uma imagem; na repercussão a enxergamos, ela é
nossa. A repercussão opera uma inversão do ser. Parece que o ser do
fotógrafo é o nosso ser. A multiplicidade de ressonâncias sai da
unidade de ser da repercussão.” … “Essa imagem torna-se realmente
nossa. Enraíza-se em nós mesmos”

Há um mês eu tava em Brasília com outro Leo, o Wen.
A gente tirou uma tarde pra ir no Poço Azul, uma cachoeira depois das cidades satélite.
No caminho a estrada de terra vermelha e amarela ia alternando até que, numa descida cheia de curvas, um redemoinho pequeno apareceu levantando o vermelho… depois da curva tinha um maior que ficou dançando um tempo na frente do carro. Os dois pensaram em pegar a camera… não pegamos, o redemuinho desapareceu:

- Sabe no que eu pensei, Wen.
- Quê?
- No redemunho do Castilho…
- Exatamente… eu tb!

Quando a coisa repercute desse jeito, de enraizar mesmo, ela é nossa.
Não é estritamente o “queria ter feito” – passa a ser o “já fiz”, por recebê-la assim do outro.
Essa paralela com o som que Bachelard criou dá essa magnitude; enquanto tem coisas que nos são lindas e ressonam na gente, isso causa uma trepidação, uma inquietude – com certeza – mas a coisa que repercute é terremoto mesmo.

Nesse caso fico procurando na imagem a resposta para as questões que me faço, cotidianamente:
- O redemunho é definido como uma narrativa fantástica. A estética segue essa busca que tu já colocou, de ser não apenas o que o outro não viu, mas de se manifestar, materializar, também como essa expressão… dai me vem o caminho dessa busca. Ele é metódico de alguma forma? No Lote Vago tu falou desses blocos de cores… como tu fez pra enxergar eles num todo? Tu imprimia isso e ai revendo as cores ou conseguia ver tudo numa tela, no pixel mesmo?

Abs!


from Joao Castilho
to Leo Caobelli
date Tue, Sep 14, 2010 at 8:00 AM
subject Re: sorry

E vamos nós:

Acho interessante que vc tenha escolhido essa fotografia do redemoinho. Ela foi uma das últimas a entrar no ensaio. Eu não a tinha editado antes por causa da literalidade. Inclusive ela não participou da primeira exposição, no Museu de Arte da Pampulha. Mas depois que a Rosângela Rennó usou a sequência na qual ela foi feita em um trabalho chamado Febre no Cerrado, decidi incorporá-la ao conjunto. Além das fotografias ela me pediu também um texto sobre o instante da manifestação do redemoinho que se assemelha muito a sua descrição. É isso, ele vem, passa e desaparece. Eu tenho a impressão de que todas as fotografias de Redemunho foram feitas assim, numa espécie de aparição. É um ensaio sobre espectros e aparecimentos súbitos. Eu fui em busca disso, da idéia contida na frase do Grande Sertão: Veredas – “ o diabo na rua no meio do redemunho”. Essa sentença me bastou e me guiou.
Lote Vago, que fiz um ano depois, foi editado na tela. Eu até gosto de editar na tela, tem suas vantagens. A idéia era que o trabalho ocorresse ao espectador de uma só vez. Por isso as cópias têm uma dimensão pequena e são montadas como uma fotoinstalação. Não gosto de mostrá-las separadas, acho que perdem muito a força.


from Leo Caobelli
to Joao Castilho
date Tue, Sep 14, 2010 at 12:10 PM
subject Re: sorry

Pra fechar e subir no blog do PEF.

Em ENTRE RIOS (http://www.joaocastilho.net/v2/pt/trabalhos/entre-rios/) a coisa deixa de ser essa aparição e vira o “deslocamento” que também está no TEMPEROS, mas dessa vez com uma relação ativa ligada ao outro autor dessa imagem; quem interage. A apresentação dessa história em vídeo sempre foi uma escolha? Já teve alguma versão dela impressa?

Abs!
Nos vemos amanhã em Paraty?


from Joao Castilho
to Leo Caobelli
date Tue, Sep 14, 2010 at 5:17 PM
subject Re: sorry

É sua. Amanhã tô lá em Paraty.

É isso. O deslocamento de objetos do Brasil para o Mali é o motor do trabalho. Depois vem a resignificação e a recolocação de cada objeto feita por mim, por Alioune Ba e por outros. A primeira versão foi um blog. Depois tomou a forma do vídeo, que acabou sendo a definitiva, a que tem circulado por aí. Gosto que seja assim porque dessa forma há um tempo que se passa, e que é importante, entre o que ocorre com o objeto no rio Jequitinhonha e o que ocorre com ele no rio Niger.

© João Castilho

© João Castilho

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3 Comments »

  • Gustavo Pellizzon said:

    O que torna o redemunho especial para mim é que todas as fotos são "premio esso". É o instente decisivo do não instante, o instante da criação, do acontecimento. Se foi assim ou não, não me importa. Vejo lapsos do tempo, aquele instante onde se divaga, se perde, a conversa de bar que você volta naquele maravilhoso: isso mesmo. Para mim são tempos sugados nas entranhas do tempo. Um redemunho de criar, uma cabeçca inquieta vendo o estático que não pára, vive na imagem, respira. Olho as duas fotos acima e penso em dois caminhos. Um lhe dá pistas, linhas, origens, fins, ou uma rota que volta ao inicio depois de percorrer todo o caminho, ou que se embaralha e se perde no emaranhado. Já a outra da voltas, se espalha, se dissipa, ganha espaço, respira, fui no ar. Sabe, uma se conecta sempre, uma linha, continua, que se embaralha, mas uma linha. O outro é a poeira, o que se desfaz, da voltas, fugaz, sorrateira, safada, sabe pra onde esse redemunho vai? Só imaginação…

  • Inventários em Paraty « DOBRAS VISUAIS said:

    [...] e prêmios, filhos, Inhotin… Pena ele ainda não acreditar que é um grande professor. No blog do festival uma conversa dele com Leo [...]

  • Inventários em Paraty | Dobras Visuais said:

    [...] e prêmios, filhos, Inhotin… Pena ele ainda não acreditar que é um grande professor. No blog do festival uma conversa dele com Leo [...]

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