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Proust, Brassaï e a fotografia

[ | 27 set 2010 | No Comment | 2.141 visitas ]

Por Juan Esteves

Aqueles cuja fobia por livros é incontrolável podem ficar sossegados. “Proust e a Fotografia” (Gallimard, 1997 /Jorge Zahar, 2005) escrito pelo pintor, escultor, filósofo e fotógrafo húngaro Gyula Halasz, mais conhecido como Brassaï (1899-1984) é um pequenino volume, daqueles de “ler numa sentada”. São apenas 166 páginas, incluindo fotografias e notas. O nome adotado pelo fotógrafo vem da sua cidade natal, Brasso, na antiga Hungria e que agora pertence a Romênia. Entretanto sua grande obra fotográfica e literária foi mesmo produzida na França.

“Em busca do tempo perdido” obra prima do francês Marcel Proust (1871-1927) é um daqueles romances celebradíssimos como “Ulysses” de James Joyce, ou “Moby Dick”, de Herman Melville, que muita gente conhece, já ouviu falar demais, até mesmo cita, mas que na verdade não leu. São sete volumes, “O Caminho de Swann”, “A sombra das raparigas em flor” , “A prisioneira”, “O Caminho de Guermantes”, “Sodoma e Gomorra”, “A fugitiva” e “O tempo redescoberto”.

Os livros, bem que se diga, são desafiadores no melhor sentido, e claro, exigem fôlego e muito tempo do leitor, mas não são impossíveis, e sim muito prazerosos, pois mesmo partindo das reflexões pessoais do autor num momento distante do atual, o leitor encontrará momentos análogos na nossas preocupações mais contemporâneas. Se não, pelo menos o prazer de uma narrativa incomparável.

Mais prazerosas ainda, para um fotógrafo, são as análises de Brassaï que o livro traz. Em seus últimos anos de vida, ele examinou a vida, a narrativa, o pensamento e a técnica de Marcel Proust como uma fotografia revelando novas perspectivas, novos ângulos. Uma proposta que além de tudo não determina que o leitor seja um expert no escritor francês.

Closeup no rosto do fotógrafo Brassaï. © John Loengard.

A tarefa proposta pelo fotógrafo, que publicou também “Conversas com Picasso” [leia resenha no Arquivo Fotosite] e abordou a obra do seu amigo, o escritor americano Henry Miller (1891-1980), não constitui raridade. Afinal o grande escritor já foi revisto por filósofos, jornalistas, críticos literários, analistas (freudianos e lacanianos), contudo ao debruçar-se sobre a questão fotográfica embutida na obra proustiana- uma vasta e bem contada memória familiar do autor- expande suas análises para o universo pessoal de seus leitores, familiarizados ou não com as obras em referência.

O que conta são as particularidades abordadas por ele que ampliam o pensamento fotográfico, inserido no dia a dia das relações íntimas de qualquer família, de qualquer pessoa, seja ele um amador ou um profissional. Para Roger Grenier, biógrafo de Brassaï, talvez fosse a necessidade de tomar o lugar do pai, que foi professor de literatura francesa, que o levou a destrinchar esta relação. Outros biógrafos também apontaram a “paixão imoderada” por Proust pela família do fotógrafo.

Uma das chaves da leitura, Grenier coloca na sua introdução: “Proust toma partido sem ambiguidade. Considera a fotografia como uma arte e mais do que isso, uma arte que que desempenha importante papel em sua formação artística”. Não podemos esquecer que nos tempos proustianos a fotografia estava engatinhando. Brassaï exemplifica a questão, ao abordar o lado cômico e dramático da obra do escritor e como eles estão inseridos em seus famosos personagens.

Brassaï nos mostra que uma das influências “fotográficas” de Proust era sua mãe que mantinha uma rica iconografia familiar. Aos quatro anos o escritor e seu irmão Robert foram fotografados quatro vezes. Incomum para época em que se preparar para ser fotografado era quase como se preparar para uma cirurgia, tamanha a complexidade do evento.

A paixão de Proust pelos álbuns de família também é encontrada em suas cartas aos amigos, onde ele os pedia emprestado “para se divertir”. O hábito de trocar imagens também é localizado desde a adolescência. Brassaï conta que é dessa troca, com um jovem inglês, Willlian Heath e com um suíço, Edgard Aubert, que teriam surgido as primeiras paixões do escritor, aos 21 anos de idade. Brassaï vai além: “Cada encontro, cada idílio de Proust esteve ligado a uma troca de fotografias”.

O papel da fotografia na formação artística do escritor, vem da infância. Como está sugerido em “Em busca do tempo perdido”, o contato com as obras de Giotto (Giotto di Bondone 1266-1337), ou as obras dos mestres venezianos, se deu através de reproduções fotográficas. Mesmo depois de conhecê-las pessoalmente, continua a estudá-las através dos documentos. Proust estava convencido da preciosa contribuição da fotografia na revelação de um detalhe arquitetônico diluído no conjunto ou distante demais do solo para ser apreciado a olho nu.

Brassaï aponta inúmeras “cenas” em que a fotografia desempenha papel importante na obra prima de Proust, em vários de seus volumes. Ora ela é protagonista, ora coadjuvante, mas todas com presença marcante. Em nove páginas Proust repete oito vezes o verbo “posar”.

Num dos capítulos o fotógrafo é categórico ao afirmar que a fotografia está no cerne da obra proustiana. O autor inspira-se na técnica fotográfica para descrever seus personagens. A composição da narrativa se utiliza de uma variedade de metáforas fotográficas para elucidar o próprio processo da criação.

Para resumir, pinça uma frase do próprio escritor falando de que seu romance “Não passava de uma lente de aumento, como aquelas mostradas a um cliente pelo ótico de Combray”, que permitiam aos leitores lerem em si mesmos. Para o fotógrafo, Proust é pródigo em lentes óticas que ampliam as coisas. Por trás destas lentes, ganhavam vidas extraordinárias, escreve o não menos extraordinário Brassaï.

* Texto escrito originalmente em 2005 para coluna do Fotosite e revisto e atualizado para o blog do Paraty Em Foco.

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