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Na cama com Mapplethorpe

[ | 21 dez 2010 | 11 Comments | 2.672 visitas ]

Adelaide Ivánova é de Recife, é fotógrafa, é  jornalista e é também, descobrimos recentemente, médium.

Logo que soubemos desses tais poderes espirituais, pedimos sua ajuda para entrevistar o espírito de algum fotógrafo. Qualquer um que pudesse possuir seu corpo e se comunicar conosco. Sabem quem veio? Robert Mapplethorpe.

Vejam o resultado da sessão mediúnica:

Robert, o que vc acha do pão com manteiga na chapa brasileiro, já comeu?
Olha, pão na chapa não, mas brasileiro já comi vários.

Existe alguma foto que tenha te deixado excitado, de pau duro mesmo?
Eu sempre fico impressionado com as imagens de São Sebastião. É clichê de viado, mas além de me atrairem os símbolos visuais da Igreja Católica, eu fui coroinha, então ainda tem o mistério da infância.

O que seria um orgasmo na fotografia?
Conseguir um preto muito preto. Entenda como quiser.

Como seus colegas fotógrafos mortos receberam a fotografia digital?
O Weegee vive lamentando que se fosse vivo ia mostrar como é que se faz. O Cartier-Bresson é meio gagá, não conversamos muito… Quem mais? Ah, o Helmut falou outro dia que não é grande coisa esse tal de digital, mas ele lamentou não pegar a fase da câmera-que-faz-vídeo. O Guy que ia se dar bem com essa coisa de vídeo, ele fazia uns lindos, você já viu? Se eu estivesse vivo certamente ia agradecer a Lady Gaga por ter devolvido o moral da Polaróide, embora eu acho que ia continuar com médio formato mesmo.

Me passa seu MSN?
Não sei o que é isso. Sei o que é SM, quer me passar o seu?

Se ainda estivesse vivo, quem você gostaria de fotografar hoje em dia? Por que? Seria um nu?
Eu queria fotografar aquela moça que parece um homem, Tilda Swinton. Eu estava vendo um vídeo dela dirigido por aquele fotógrafo de moda muito ruim, Sølve Sundsbø, e ela é impressionante. É um homem. Ela me lembra a Melody, que eu fotografei muito nos anos 80, quando eu já estava doente e não podia ficar indo aos clubes de bondage. Eu a fotografava no estúdio.

O que vc acha do trabalho de Valéria K?
Acho o codinome meio ruim, mas achei sexy quando soube que eram dois meninos trabalhando juntos sob um pseudônimo. Eles são de maior?

O que você acha da fotografia brasileira? Tem algum trabalho que te encanta por aqui?
Acho que a fotografia brasileira tem muitos homens lindos. Quer dizer, na nova geração, né? Aquele tal de João Kehl é uma beleza. E tem aquele trabalho que se chama “100 men”. Apesar da fotógrafa não ser muito ousada, coitada, gosto da ideia. É meio chupado da “Balada da dependência sexual”, da Nan, mas pelo menos ela não está fotografando mendigo. Vocês sabem se ela pegou aquela macharada toda?

Qual é fotógrafo vivo cujo trabalho você mais admira?
Hum… Na década de 70 todo mundo era artista, nos anos 2000 todo mundo é fotojornalista… Na dúvida, fico com Wolgang Tillmanns. Ele é o fotógrafo mais ousado no sentido de explorar o corpo humano, tanto na narrativa quanto no uso do meio fotográfico em si. Ai, quanta bobagem.

Você gosta da Diane Arbus? O que chama sua atenção no trabalho dela?
Olha, eu me lembro dela com aquela vozinha de criança dela, andando sorrateira pelo Chelsea, na época que eu e Patti moramos lá. Ela fotografou a Viva e a Candy Darling, e mais outras travecas da turma do Andy. Mas não era porque ela estava interessada naquelas meninas, ela era fria, faria qualquer coisa para conseguir a foto que tinha em mente. Viva ficou arrasada quando as suas fotos foram publicadas (acho que foi na Esquire), ela foi retratada como uma aberração. Mas, para ser conciso nas nossas diferenças: Diane andava com o povo da Vanity Fair, nós andávamos com Jimi Hendrix e Allen Ginsberg.

Conhece a parada GLS de São Paulo? Como você vê essa cena gay contemporânea?
Já ouvi falar. Vejo muita pinta e pouca ação. Nos anos 70, todo mundo se odiava mas fingia se dar bem em nome da arte – era uma ambiente pestilento mas extremamente produtivo. Atualmente, todo mundo se odeia e finge se dar bem em nome de fazer um frila pra Vogue. Que lixo.

Você teria uma câmera digital? Fotografaria com um celular? Como essas novas tecnologias se refletiriam no seu trabalho?
Cara, eu já comecei fazendo o caminho inverso, fui da polaróide para o médio formato. Acho que hoje eu estaria usando uma daquelas 12 por 8. E ia usar o celular para falar com a Patti. Morro de saudade dela.

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Se quiser ler outras entrevistas que a Galeria Experiência fez para este Blog, aqui tem uma com Baixo Ribeiro e, aqui, outra com Palmério Dória.

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11 Comments »

  • Andy W. said:

    Muito bom !

  • Dennis said:

    O que eu amo na Ivanova é que ela retrata os homens de um jeito que eu reconheci como os olhos.

  • Paraty em Foco 2010 » Blog Archive » Ceia de Natal com Lissovsky said:

    [...] entrevistas feitas pela Galeria Experiência estão aqui, aqui e [...]

  • Brunno said:

    travestchy burra nasce morta, bêu abôr. E é por isso que a Ive tá aí, vivíssima!! Uma rajada de pó de swarovski pra ela!

  • ivi said:

    que lindo, brunno <3

  • S. Ribeiro said:

    Ótima!

  • Domeneck said:

    Ai, adoro estes teus momentos de gênia, Ivanovíssima.

  • Paraty em Foco 2010 » Blog Archive » Na Estrada Perdida com Francilins said:

    [...] outras entrevistas feitas pela Galeria Experiência para este blog com o espírito de Robert Mapplethorpe, com o jornalista Palmério Dória, com o galerista Baixo Ribeiro e com o prof. Maurício [...]

  • Paraty em Foco 2010 » Blog Archive » No porão do museu com Yasmina Reggad said:

    [...] também as outras entrevistas feitas pela Galeria Experiência para este blog com o espírito de Robert Mapplethorpe, com o jornalista Palmério Dória, com o galerista Baixo Ribeiro, com o prof. Maurício [...]

  • Fotoclube f/508 said:

    [...] alguns dias os meninos da Galeria Experiência me entrevistaram como se eu fosse o Robert Mapplethorpe. Antes de responder às perguntas, fui dar uma olhada nos livros que tenho do autor, e revi essa [...]

  • Paraty em Foco 2010 » Blog Archive » 3×1 | Adelaide Ivánova said:

    [...] alguns dias os meninos da Galeria Experiência me entrevistaram como se eu fosse o Robert Mapplethorpe. Antes de responder às perguntas, fui dar uma olhada nos livros que tenho do autor, e revi essa [...]

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