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Entrevista | Crítica de arte com Juliana Monachesi

[ | 6 jul 2011 | One Comment | 2.259 visitas ]

Um dos maiores gargalos da produção cultural é a crítica. O trabalho sensível produzido pelo homem, quando exposto, cria um diálogo, e a tradução desta percepção é melhor refletida no papel dos críticos: é do texto de um crítico que vem boa parte da compreensão de uma obra artística. Para entender um pouco mais sobre o assunto, fizemos uma entrevista com Juliana Monachesi, crítica, curadora e jornalista especializada em artes visuais, mestre em Comunicação e Semiótica. Ela nos conta um pouco sobre sua experiência e como funciona esse mercado.

Chris Valias_ Conte um pouco sobre sua experiência como curadora em exposições de fotografia.
Juliana Monachesi_ Das mais de dez curadorias que já assinei, todas nos anos 2000, nenhuma deixou de fora a fotografia. É uma linguagem absolutamente incontornável. E uma forma de expressão dos nossos tempos. Mas a exposição em que a fotografia foi protagonista absoluta entre as mostras de que fui curadora foi, sem dúvida, afotodissolvida, que aconteceu no Sesc Pompéia em 2004. Nesta curadoria, a intenção foi investigar como o advento da tecnologia digital estava modificando o dia-a-dia das redações de jornal, da produção artística em geral e, claro, do ofício dos fotógrafos.
Queria entender como a passagem hiper-veloz que eu estava vivenciando na redação do contato fotográfico em papel ao arquivo digital desmaterializado, e também do álbum fotográfico material à pasta de computador no cotidiano das pessoas, ou mesmo da imagem com referente real àquela completamente fictícia construída digitalmente pelos artistas, como essa passagem, essa dissolução da fotografia estava impactando a cultura contemporânea.
Foi uma exposição sobre fotografia, sobre o imaginário da fotografia, mas que reuniu obras nos mais diferentes suportes, e não apenas fotos. De pinturas e esculturas que incorporavam a imagem fotográfica (Adriana Rocha, Keila Alaver, Sandra Cinto) até vídeo (Gisela Motta, Kinoks), com pitadas de ficção fotográfica (Rochelle Costi, Leandro Lima) e até de fotografia tradicional (Caio Reisewitz, Gustavo Rezende).


Paraty em Foco 2010 © Galeria Experiência

Chris Valias_ Você tem uma longa formação em comunicação e artes visuais. Acha que isso é imprescindível para se tornar um bom crítico?
Juliana Monachesi_ Não necessariamente. Bons críticos têm formações as mais diversas; surgem em diferentes áreas de atuação e conhecimento. O que é necessário para se tornar um bom crítico é sensibilidade, curiosidade, muita leitura e, o mais importante, muita convivência com arte. A sensibilidade serve para tornar alguém disponível a “entrar na viagem” de cada artista sem preconceitos. A curiosidade serve para colocar na cabeça da pessoa aquela pilha de perguntas que convém endereçar a cada obra. A leitura e o olhar servem para criar e aprofundar o repertório.

Chris Valias_ Existe uma fórmula para se fazer uma crítica? Deve haver um equilíbrio entre sensibilidade e racionalidade?
Juliana Monachesi_ Há diferentes estilos de crítica, aquela mais pessoal, confessional; uma outra mais distanciada, “de gabinete”, como se diz. Eu não sou muito fã de nenhum destes dois extremos: um equilíbrio, como você afirma, me parece, sim, a melhor fórmula para se escrever uma crítica relevante. Talvez valha detalhar um pouco o motivo pelo qual estes dois extremos (o sentimental e o professoral) me incomodam: quando você escreve uma crítica do tipo “vi tal exposição, senti isso e aquilo, lembrei de não sei o quê etc.”, a não ser que você seja uma sumidade no assunto, os comentários não têm relevância nenhuma para o leitor; da mesma forma, quando a abordagem é apenas técnica, sem envolvimento algum com o objeto de análise, o leitor pode muito bem ficar com a impressão de que o mesmo texto valeria para outros vinte artistas e/ou trabalhos semelhantes. Então a dosagem entre envolvimento e distanciamento, entre impressões e contextualizações é que faz com que o texto crítico de fato acrescente alguma coisa para quem o lê.


Paraty em Foco 2010 © Galeria Experiência

Chris Valias_ O crítico tem o poder de validar uma obra de arte?
Juliana Monachesi_ Isso é uma das funções da crítica de arte, mas não é algo que o crítico faça sozinho: todas as instâncias do sistema da arte têm participação nos processos de validação, desde o curador ao eleger uma obra para ser exposta, até o colecionador que compra uma peça em detrimento de outra, passando pelas galerias, museus, mecenas, leilões, meios de comunicação etc. O papel do crítico nessa cadeia produtiva das artes é fazer a mediação entre a obra e o público: analisar a produção do artista desde suas características formais até o seu contexto social e histórico; inserir o artista na narrativa da maior história da arte, alinhavando as relações com outros artistas e outros contextos.
Portanto, o crítico tem, sim, o papel de validar uma obra de arte – para o bem e para o mal, no sentido de que pode também, por conta deste poder, arruinar uma carreira. Mas esta é uma descrição de um cenário que é mais concreto nos Estados Unidos, por exemplo, onde o meio de arte é bastante mais institucionalizado e profissionalizado do que no Brasil. Lá, a força destas engrenagens do sistema a que me referi antes (curadores, colecionadores, galerias, museus, mecenas, leilões, meios de comunicação), o fato de serem amplamente consolidados, contribui de modo mais decisivo no destino de uma obra, de uma carreira, de uma reputação.

Chris Valias_ Pra quem quem se interessar pelo tema, conte um pouco sobre como será o workshop “Fotografia: crítica e jornalismo cultural” que você irá ministrar no Paraty.
Juliana Monachesi_ Bom, no workshop acho que estas questões todas de que tratamos aqui serão contempladas, idealmente. Mas o mais saboroso da atividade vai ser um esforço de cobertura do Paraty em Foco; minha intenção é, depois de uma primeira conversa teórica, levar todos os participantes ao trabalho de campo: um corpo a corpo com as obras expostas, discussão in loco dos trabalhos apresentados nas diversas mostras, análise de obra à queima-roupa mesmo, e, finalmente, um exercício de produção de textos. Pretendo estimular os participantes do workshop a exercitar a crítica, da observação e discussão à escrita.

Ficou curioso? Clique aqui para saber mais sobre esta atividade no Paraty em Foco 2011.

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One Comment »

  • Wank Carmo said:

    A senhora Juliana, além de competente é honesta quando expõe os detalhes a ação da crítica, que a meu ver, está desgastada, para não dizer, inexistente.
    No Brasil, isto está claro, e percebe-se a existência de um grupo elogiando-se, se afagando mutuamente, para preservar seus espacos loteados.
    Gostaria que ela analisasse a tese de Luciano Trigo através do livro – A Grande Feira. Parabéns! Gostei desta entrevista.

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