Entrevista com Simone Massera {por Renata Baralle}
Nós estamos sempre sozinhos, mesmo não sabendo exatamente pelo quê. É com essa frase que Simone Massera introduz seu trabalho I am not what you see and hear, composto por imagens de estranhos aleatoriamente escolhidos em webcam chats na web. O ensaio faz parte do projeto A Royal Wedding or How to Live Happily Ever After do coletivo inglês Five Eleven Ninety Nine.
Simone Massera é um fotógrafo italiano baseado em Londres (UK). Nasceu em Roma em 1983 e cresceu numa cidade não muito longe dali, perto do mar. Ele conta que se mudou para Londres num dia nevado, em janeiro de 2010, ao ser aceito no Master of Arts em Fotojornalismo e Fotografia Documental no London College of Communication. “O que me trouxe a Londres foi a combinação de um doloroso término no relacionamento, um inverno solitário em Cape North e a repentina consciência de que eu tinha que largar tudo que eu estava fazendo naquela hora – propaganda e marketing – para correr atrás de uma carreira na fotografia”, diz.
Durante o curso, o fotógrafo conheceu Emma, Hannah, Maria, Jonny, Sam e Teresa, que juntos formaram o coletivo Five Eleven Ninety Nine – nome de um poema do inglês Simon Armitage – com o objetivo de trabalhar em projetos colaborativos, dar feedback uns aos outros e “ter uma desculpa pra conversar sobre fotografia bebendo alguma coisa de vez em quando”. Logo, Emma e Maria acabaram deixando o coletivo.
No verão de 2011 veio a primeira exposição de A Royal Wedding or How to Live Happily Ever After no festival PhotoIreland, em Dublin e no Belfast Photo Festival, para o qual o coletivo criou uma coleção de projetos individuais explorando a busca humana pela felicidade na sociedade contemporânea ocidental. Nesse projeto, o coletivo publicou sete volumes envoltos em uma capa feita à mão, com tiragem de cinquenta cópias.
Enquanto trabalhavam em A Royal Wedding, os fotógrafos começaram a postar no site um jogo de associação de imagens chamado Broken Train, no qual todo dia alguém do grupo posta uma imagem em resposta à imagem anterior. A conexão entre as fotos é temática, às vezes estritamente visual, chegando a ser, muitas vezes, um tanto quanto obscura. No final de outubro do ano passado, foi introduzido ao projeto o chamado First Class Carriage: toda segunda-feira alguém do mundo da fotografia é convidado a dar sua contribuição à sequência. Entre os que contribuíram até agora estão Alec Soth, Martin Parr, Mark Feustel, Joerg Colberg, Leonie Hampton, Harvey Benge e Aline Smithson. Massera conta que no momento o coletivo está se planejando para uma futura exposição de Royal Wedding em Londres.
Seu trabalho me fez perceber algo que está tematicamente presente no trabalho de Evan Baden, Illuminati, sobre adolescentes que passam a maior parte do tempo em frente a aparelhos, com o intuito inconsciente de, iluminando a si mesmos, se desvencilharem da solidão. Você acha que a nossa época está encarando a solidão como se fosse sempre dessa forma, ou trata-se de uma necessidade “imposta” em face ao nosso vasto potencial de estabelecer conexões?
Eu não conhecia o trabalho do Evan e achei muito interessante a abordagem de uma conexão perpétua e interação a diferentes estímulos. Eu concordo com ele na ideia que esses objetos tecnológicos se tornaram formas de uma luta, frequentemente passiva, contra um tipo de solidão.
Creio que há um sentimento universal e atemporal – um dos onze tipos de solidão sobre o qual Richard Yates escreveu – que é consequência da nossa própria percepção do mundo. Nós experimentamos a realidade de uma forma, através da percepção, que nos faz sentir especiais e únicos. Com essa unicidade vem a sensação de estarmos sempre sozinhos, de alguma forma desligados do “todo maior”. Ao mesmo tempo, temo que nós, assim como as novas gerações, estejamos perdendo a habilidade de encarar e aceitar esse sentimento. Nós crescemos com todas as ferramentas que precisamos, ou com o “nosso grande potencial de estabelecer conexões”, como você disse, para no final nos distrairmos de quaisquer pensamentos que nosso fluxo de consciência esteja nos sussurrando ao ouvido.
O que eu tentei fazer em I am not what you see and hear foi explorar essa auto-percepção que busca estimular algum tipo de empatia em relação a estranhos. Eu gosto de considerar essas imagens auto-retratos, à medida que essas pessoas podem controlar os detalhes mais simples da forma como elas gostariam de ser vistas: a pose, a luz, a composição. Fora a importância das máscaras, das silhuetas, os olhos encarando. Fotografar o breve intervalo logo antes de aparecer outro rosto na tela me permitiu congelar um momento de expectativa e auto-consciência. O projeto, mais do que explorar quem e por que se usa a internet como forma de aplacar a tristeza, usa a internet como forma de simplesmente produzir retratos de pessoas. Retratos que não poderiam ser criados de outra forma.
Você fotografa a forma que os outros te olham. Mas como você se situa, como fotógrafo, em frente aos seus personagens? Ou melhor, você faz sua performance antes de aparecer? Você diz que a forma como as pessoas escolhem seu cenário, ambiente e roupas tem algo a ver com a auto-representação de alguém. E a sua auto-representação consciente ante essas pessoas?
Honestamente, eu me senti imediatamente desconfortável com a ideia de aparecer em frente a estranhos aleatórios; é algo que basicamente aumenta a intensidade da minha auto-consciência em um nível tão alto que eu achei um tanto intolerável. Também, na maioria dos sites há um breve intervalo de escuridão entre uma conexão e a próxima e então eu percebi que, ao invés de atingir o que eu estava tentando – congelar um momento de pausa e auto-reflexão antes da aparição de outro rosto – eu encontrei a solução escurecendo minha webcam, então eu poderia vê-los enquanto eles não viam nada mais do que a própria imagem.
Nunca li David Foster Wallace, poderia explicar a conexão do seu trabalho com o escritor ou simplesmente citar alguma passagem que torne essa conexão evidente?
David Foster Wallace é um escritor americano com o qual eu sempre senti uma forte conexão. Sua vida e obra são voltadas à importância da empatia, da conexão entre a auto-consciência e a solidão. Ele basicamente traça um contrastante entre o solipcismo contemporâneo e uma espécie de existencialismo, explorando, em suas próprias palavras, “o que é, afinal, um ser humano”. Depois de ler tudo que ele escreveu durante a vida, eu me deparei com essa entrevista na qual ele descreve, parafraseando seu professor, o que é uma boa ficção.
Tive um professor que costumava dizer que o trabalho da boa ficção era confortar os perturbados e perturbar os acomodados. Eu acho que uma boa parte do propósito de uma ficção séria é dar ao leitor, que como todos nós está limitado à própria perspectiva, um acesso imaginário a outras pessoas. Admitindo que um fator inevitável da vida é sofrer, parte do que a arte expressa provém da experiência do sofrimento, uma experiência necessariamente vicária (…). Isso faz sentido? Todos nós sofremos sozinhos no mundo real, portanto uma autêntica empatia é impossível. Mas se uma ficção nos permite imaginativamente identificarmo-nos com a dor de um personagem, facilmente nos afetamos e reconhecemos a dor alheia na nossa. Isso nos conforta e nos dá sentido; nós ficamos menos sós por dentro.
Eu imediatamente senti que era isso que eu estava tentando fazer: criar um tipo de arte acolhedora e com significado, que faça alguém se sentir menos só por dentro.
O título do trabalho vem da frase inicial de Infinite Jest, provavelmente o livro mais famoso de Wallace. No começo do livro, o protagonista Hal, depois de uma tentativa fracassada de se comunicar de todas as formas com algumas pessoas, deita-se e, com a testa pressionada contra o chão frio, ele tenta explicar:
- “Eu não sou o que você vê e ouve.”
Sirenes distantes soam. Um golpe no pescoço. Silhuetas na porta. Uma jovem mulher hispânica com a palma da mão em cima da boca, olhando.
-”Eu não sou”, eu digo.
O título propõe desafiar o pressuposto que retratos podem te dar uma ideia de quem é a pessoa em frente à tela, enquanto, para usar as palavras de Wallace em outra entrevista: ”o que acontece dentro é muito rápido, grande e interconectado, que palavras raramente são mais do que um mero rascunho generalizado de outra minúscula parte de qualquer dado instante.”
Então você acha que o tempo gasto por todas essas pessoas em chats com estranhos aleatórios é apenas uma tentativa superficial de auto-representação?
Eu não sei, na verdade. Eu tenho a sensação de que a tentativa de auto-representação é mais uma reação que a maioria dos tipos de conexão online parecem simular. Pense na carga de informações que nós colocamos em redes sociais para tentarmos nos definir, ou a forma que nós decidimos parecer (ou não parecer) nesses sites de vídeos chats. Penso que, com o intuito de usar essas ferramentas como um tipo de anestésico contra a nossa solidão, antes nós temos de modelar uma imagem de nós mesmos, a máscara que vamos usar.
Me fale sobre seus projetos, sonhos… o que tem em mente agora?
Pessoalmente, eu estou trabalhando em diversos projetos em andamento, esperando para ver qual deles vai ficar realmente interessante. Eu coleciono inspirações e ideias em “arquivos mentais” e às vezes algumas ideias simplesmente morrem, às vezes elas ficam maiores, mais profundas e se conectam com outras, aí eu tento fazer alguma coisa com elas. Neste exato momento minha mente tem estado ocupada pensando em 1) como ilustrar o livro de Italo Calvino Invisible Cities; 2) um projeto ficcional sobre aviões e as pessoas neles, o que pode, ou não, acabar envolvendo poesia; 3) algo sobre memória pessoal e seu choque com a cultura visual contemporânea, ideia que surgiu ao me deparar com a Timeline no Facebook.
Parece meio vago, eu sei. Também, em 2012, pretendo finalizar um projeto colaborativo sobre a periferia da Itália, que comecei em 2010. O projeto se chama Baci dalla Provincia e constitui-se em eu tirando fotos, imprimindo e distribuindo cartões postais dos subúrbios a estranhos crescidos nesses lugares. Então, eles escrevem alguma coisa e me mandam de volta, compartilhando algo pessoal sobre suas experiências de crescer ali.
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